terça-feira, 29 de novembro de 2016

balzaquiana

Ela acendeu o cigarro.
Os olhos arregalados deixavam clara a conclusão: perdera o amor da sua vida.
Não esse último. Esse a perdera e era o amor da vida dele. Ela. Ele não.
“Otário”, gesticulou com força, esparramando uma lufada de fumaça por tudo quanto era lugar ainda vago no ambiente.
Ela usava esses termos, “panaca”, “bananão”. Achava que definia bem a sensação da inconsistência do caráter.
Mas o outro.
Não, não!
Ela perdera o amor da sua vida e tinha entendido numa mensagem não enviada de quase oito anos antes. Ele sentira ciúmes. Ela percebera?
Na época?
Ah, que tolice, ela não percebia nada. Estava nublada, morrida, um negócio feio que só vendo. Só entendeu todas as atitudes depois.
E o pior, era um ciúme sem tanto fundamento. Sem tanto porque, depois que se separaram, até houve algo entre eles, mas ele era gay, ela sabia. Cansou logo e foi se divertindo com quem pode.
Mas o buraco estava ali.
Grande, vermelho, com bordas putrefatas e latejava.
Teria sido em vão?
Nada era em vão, mas não dava pra voltar atrás.
Ficou ali, assim. Olhos arregalados, a fumaça do cigarro subindo, fazendo voltas.
E ela?

“Otária”.

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