quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Jardineiro Infiel


Ela não sabia como dizer.
Não era como pedir demissão, era como voltar atrás de promessas que eram vasos de barro, mas continham flores. A semente ele jogara, ela cuidara mudando o vaso de lugar, procurando luz, ele podava as folhas e cuidava das pragas. Mas ela não queria mais jardim, não queria praia, não queria vento algum. Estava maquinando uma forma de se trancar numa salinha de concreto armado, munida de termais, de café, de rascunhos. Precisava planejar.

E não conseguia fazer isso em voz alta. Aquela vida toda era pra ela um grito na janela, morar numa casinha transparente com todo mundo vendo... Agora, essa menina ansiava por segredos, por livros secretos e pelo murmurar sob lençóis “quieto, tem alguém vindo aí”.
Não sabia como dizer. Tentou não olhar nos olhos, mandar um cartão, mas se sentiu covarde. Retirar os tijolos daquela construção seria dolorido, pra ela, pra ele, pra todo o telhado quase pronto. Ele, o telhado, viria ao chão.

13/01/2011




segunda-feira, 24 de maio de 2010

Amma


Era a questão do tédio.
Eu andava cansada de tudo, acordar era um esforço, mas tenho sorrido.
Hoje me peguei tão vazia e tão simbólica, sentada,  no banheiro, resolvendo isso e aquilo.
Aí pensei sobre o seu pedido de casamento. Vê que não escrevo pra ele agora? Apesar de tudo, ele ainda me conforta, penso que alguém sofre dessa obscuridade que é estar cansado de tudo, até da própria sombra, da forma dos seus dedos e de bons dias. Eu queria não precisar falar mais. Entabular conversas, por mais simples que sejam, me deixa exaurida. Na verdade, quanto mais simples pior. Muito pior.
E aí eu fui olhar o blog que ele gosta tanto e ela dizia que não pensava mais em pulsos cortados. Eu nem penso mais, porque outro dia, na mesa, quase fiz um estrago e tão sem perceber que teria ido sem dar um pio.
E se o seu pedido fosse sério, eu até diria que com você eu me casaria, mas deveria ter sido antes. Na verdade, não. Eu precisava mesmo ter crescido um tanto pra não fazer tudo igual. Agora está bom, mas desisto de casórios e abro mão de anéis porque sei que não combinam comigo. Já me imaginou de aliança?
Eu tenho usado todo dia a mesma roupa, mesmo que fuce e refuce no meu guarda-roupas. Saio igual, volto igual, e dormir parece uma boa escapatória. Eu escapo de mim e caio num outro canto, povoado por animais monstruosos e pedaços humanos. Aí eu grito. E acordo e se chorasse seria um dilúvio.
Eu ando sem graça, né?
Queria te contar coisas mais propícias hoje, ou amanhã, e acreditar que a longevidade não me assusta. Mas sabe? O contrário também me perturba. Tenho procurado a medida justa.


24/05/2010