quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Fiorde



Tudo o que ela queria, hoje, era te beijar. Forte, lento, com música ao fundo. Qualquer uma daquelas.
Se respirava fundo, era só pra afastar essa ideia, e outra, e mais uma.
Porque agora a moça estava dividida. Aquela paixão platônica, aquela pessoa que não olharia na direção dela, olhou.
Olhou, olhou de novo. Se esperavam.
Qual dos dois?
Tomou mais um gole, mais um cigarro.
Pensou que não importasse o desastre natural, a política, a polícia, no fim, no seu fim, tudo se resumia àquele contato de peles. Não era alguém que consumiria pessoas, ela só queria fenecer.
A sua placidez, essa coisa de lago calmo, que ela já sabe bem que é mentira. Não engodo. Só que há mais coisa abaixo da superfície. Ela desenhou tudo isso, colocou ao lado daquelas fotos, da visita ao Peru, dele sorrindo com o cão. Dele amando a paz e a violência, com a sede de quem vai morrer daqui há pouco. Com a ânsia que a queimava da mesma forma.
Mesmo que ela te ame, rapaz, mesmo, agora ela anseia por aquela boca, as testas coladas, o ponto sem retorno, aquele toque, aquela mente. Não consumia pessoas, consumia mentes, assuntos, ideais.
E ele simplesmente se encaixava como uma peça feita a mão. Rústica.
Dois rústicos.
E ainda assim, quando pensa no seu ar bem perto, a respiração fazendo coro, ela estremece.
Não sabe bem o que vai escolher.
Ninguém sabe, a história ainda não estava escrita e ninguém conhecia o autor.
A temporada de caça estaria aberta, e ela... ela se faz de presa... só até a lua sair.
Tudo o que ela queria, hoje, era te beijar. E a ele também.

19/10/2016

balzaquiana

Ela acendeu o cigarro.
Os olhos arregalados deixavam clara a conclusão:
perdera o amor da sua vida.
Não esse último. Esse a perdera e era o amor da vida dele. Ela. Ele não.
“Otário”, gesticulou com força, esparramando uma lufada de fumaça por tudo quanto era lugar ainda vago no ambiente.
Ela usava esses termos, “panaca”, “bananão”. Achava que definia bem a sensação da inconsistência do caráter.
Mas o outro.
Não, não!
Ela perdera o amor da sua vida e tinha entendido numa mensagem não enviada de quase oito anos antes. Ele sentira ciúmes. Ela percebera?
Na época?
Ah, que tolice, ela não percebia nada. Estava nublada, morrida, um negócio feio que só vendo. Só entendeu todas as atitudes depois.
E o pior, era um ciúme sem tanto fundamento. Sem tanto porque. Cansou logo e foi se divertindo com quem pode.
Mas o buraco estava ali.
Grande, vermelho, com bordas putrefatas e latejava.
Teria sido em vão?
Nada era em vão, mas não dava pra voltar atrás.
Ficou ali, assim. Olhos arregalados, a fumaça do cigarro subindo, fazendo voltas.
E ela?

“Otária”.


30/11/2016