sábado, 20 de agosto de 2016

nem teu riso era mais o mesmo
eu te catava em cavacos, te juntava num espiral
quando percebi que já não estava lá
saindo, eu, à francesa
na mala tinha um peito, coração, algo
que já tinha sentido tudo e se esquecido
eu de novo esqueci o que era saber de tudo aquilo
voltei aquele lugar como quem volta pra rever um amigo
você não esperou
eu não sabia o caminho pra casa.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Inigualável

Sua mãe estava separando o feijão e já se preparava para refogar o tempero.
Nairobe sempre gostava de se aproximar lentamente e farejar o ar impregnado dos aromas de cominho, orégano, salsa e manjericão. O alho fritando na panela e o som da colher rapando o metal enquanto a mãe preparava o almoço.
Um ritual.
A comida ali era sagrada.
Naquele dia, ela demorou um pouco mais para chegar até a cozinha e ouviu a voz de sua mãe, rindo.
Rindo não, gargalhando.
Nairobe nunca ouvira aquilo, e para transformar sua surpresa em total espanto, escutara uma segunda voz. Um barítono grave. Uma voz de homem.
Eles falavam coisas que Nairobe não entendia.
Não era seu idioma, e também era. Ela sentia que se esquecesse de tudo o que já aprendera, se deixasse de lado quem era, tudo o que vivera e seu corpo, compreenderia perfeitamente o que estavam dizendo.
Aquela língua estava presa dentro dela. Não, fazia parte do que ela era. Seus órgãos, o intestino, seu fígado, seus ossos e veias falavam aquele idioma. Não Nairobe.
Ela não compreendia nada.
Ou quase nada.
Algo lhe subiu à mente - sim, porque parecia ter passado como uma onda por seus pés, pernas, joelhos, ter escorregado por sua barriga e achado espaço entre as costelas até correr gelado para sua mente - algo como "Você é linda separando feijão".
Linda? Aquilo fora dito para sua mãe...
Naquele impulso que ela nunca compreendia, avançou  e viu sua mãe sentada à mesa, os potes ao seu lado e alguns grãos ainda sobre mesa.
Linda?
Nairobe amava sua mãe, mas nunca pensara além disso.
Os olhos cansados, as asas apavorantes, a roupa surrada comprada em brechós e tudo aquilo que era sua mãe... "Linda" nunca fizera parte do pacote.
Mas.
Olhando da porta, sem ser notada, observando sua mãe com um pano de prato por sobre o ombro, Nairobe vislumbrou uma criatura diferente.
O cabelo fino esvoaçando, escapando de um coque improvisado, os fios escuros refletindo a luz do sol que entrava pela janela sobre a pia, se tornavam pequenos filamentos multicoloridos.
havia um arco-íris que estava e não estava lá.
Os olhos estavam sem o alo arroxeado e ela parecia nova, fresca, como alguém muito jovem no seu primeiro dia de férias.
Os olhos.
Nairobe prendeu a respiração.
Sua mãe sempre tivera olhos escuros e graves até aquele momento. Nairobe não podia distinguir a sensação que a impedia de se mover.
Os olhos eram violeta.
Nem roxos, nem lilases, eram violeta como as flores mais claras dos vasos no beiral da janela. Grandes, brilhantes. Olhos violeta.
Nada tinha aquela cor, exatamente.
E eram tão lindos. E sua mãe era tão linda. Ela sorria e seus dentes pareciam cantas canções relatando antigas paixões de um povo das montanhas.
Sua mãe parecia uma joia.
Nairobe percebeu os cabelos mudando de cor, conforme ela sorria, e ainda não conseguia decidir se achava que sua mãe deveria sorrir mais.
Se aquela era sua aparência ao sorrir, seria completamente impossível manter-se alheio a ela. Seriam descobertos...
Essa foi a primeira vez que nairobe pensou sobre isso. mas não a última.
Poderia passar o dia ali, talvez um ano, talvez uma década ou quem sabe duas, porque tudo a maravilhava.
Só conseguiu pensar novamente quando escutou a voz de homem, ainda no idioma secular.
Ela olhou ao seu redor, aflita. Não havia ninguém com ela. Apenas...
Nairobe amava os animais, mas sabia que eles deveriam ser mantidos nos lugares adequados.
Empoleirada sobre a mesa estava a tal pomba de penas encaracoladas.
Nairobe sentiu um ligeiro incômodo e pensou se o feijão estaria próprio para o consumo.
Mas sua mãe... sua mãe sabia o que fazia, não?
Deu dois passos e os olhos violeta se fixaram nela. Nairobe abriu a boca e assim ficou.
- Nairobe, está com fome?
O cabelo estava voltando a ser escuro, mas os olhos continuavam violeta.
A menina se forçou a responder:
- Um pouco, mamãe.
- Em pouco tempo estará tudo pronto - a mãe respondeu, se levantando com a bacia de grãos selecionados.
- Mamãe?
A mãe se voltou, os olhos já estavam negros, mesmo que descansados.
- Sim, Nairobe?
- Ha... não há problema da pomba estar pousada na mesa?
- Nairobe, não se preocupe, eu sei me portar.
A voz do homem respondeu. Mas não havia homem.
Nairobe teve um sobressalto.
- A pomba fala?
- Hei, mais respeito com a pomba -  a mãe disse firme, sem estar zangada de fato -, ela é o seu pai.

Inegável


Nairobe, de certa forma, percebeu algumas mudanças no ar.

Não, ela não era como as outras crianças que trocavam dentes, perdiam roupas e sapatos de mês em mês. Nairobe não se sentia diferente.

Mas era.

Contudo, desde todas suas recentes descobertas, sentia uma mudança interna. Ela não encontrava as palavras, mas sentida como sua mente fosse um elástico que fosse se esticando até muito longe dela e depois voltasse, num estalo , a ser exatamente o que era.

Se fosse com outra pessoa poderíamos dizer que estivesse crescendo.

Rodolpho passou a amedrontá-la a tal ponto que evitava permanecer perto dele.

A pior sensação é que Nairobe tinha quase certeza de que ele a detestava na mesma medida do medo que infundia nela.

"Perverso" foi uma palavra nova que aprendera na escola naquela semana e se perguntou como passara tanto tempo sem sabê-la.

Outra coisa que a deixara perplexa por aqueles dias foi notar, numa tarde, à contra luz, que algo surgira por detrás dos ombros do irmão...

Quase incolores de tão translúcidas: duas asas carmim.

Incompreensível

Nairobe passou vários dias pensativa.
Talvez a lâmpada da cozinha queimada, talvez a discussão com uma das coleguinhas de classe.  Mas ela sabia. Eram aqueles olhos cinzas e opacos que seguiam sua mãe com um estranho tipo de ...
Qual seria a palavra?
”Devoção” parecia simples.
Era o olhar de um capacho contente com a profissão. O que ficava mais assustador recoberto pela postura beligerante que ele sempre mantinha. Seu ar, também, de pouco caso, o cigarro sempre aceso e graciosamente pousado entre os dedos longos e torneados.
Tudo em Rodolfo deveria ser bonito. Menos aos olhos de Nairobe.
Para ela ele era apenas... assustador.
Ela percebera que Rodolfo dirigia agora um delicado desprezo mais a ela que ao irmão. Como se ele a detestasse por ter descoberto seu segredo.
A mãe não mudara em nada. A mesma tensão ao voltar para casa, cedendo espaço àquela delicada cerimônia de todos os dias.
Nairobe se sentia Amada. Porém, um tanto desprotegida.
Um outro fato inusitado ocorreu na semana que se seguira.
Enquanto a mãe terminava de lavar a louça e jogar um pouco de água nas plantas secas dentro dos vasinhos no parapeito do vitrô (todos os vasos de sua mãe continham pequenos tronquinhos retorcidos, sem folhas ou brotos, mas que pareciam se modificar de um dia para outro), uma pomba chegou e pousou na mão magra e ainda mais pálida à luz do dia.
Sua mãe não teve um sobressalto sequer. Enxugou a mão livre na barra da camiseta e acariciou a ave que voou e pousou no encosto de uma das cadeiras da cozinha.
Era uma pomba incrivelmente branca. Não como as asas de Rodolfo, que reluziam douradas, ou as de Anna que pareciam de neve. Era uma cor que não existe. Um branco absoluto, como feito apenas para cobrir aquelas penas. E havia também algo de diferente naquelas penas.
A partir daquele dia, a ave passara grande parte do tempo, ou pousada no ombros de sua mãe, ou nas redondezas do prédio onde moravam.
Nem seu irmão, nem sua mãe demonstravam espanto ou dúvida. E Nairobe teve a impressão de ouvir o pássaro conversar com sua mãe naquele idioma estranho no qual ela possuía um nome. Mas Nairobe era criança e sempre desconfiava de suas primeira impressões.
Até mesmo Rodolfo, no jantar semanal, não pareceu estranhar a presença da ave. Pareceu não estranhar, mas seus olhos cintilaram de ódio ao se dirigirem ao pássaro.
Nairobe não conseguia compreender como alguém poderia desgostar tanto de um animal. E também sentia um desconhecido mal estar, como se sua realidade houvesse sido subvertida.
Mal sabia ela que seus problemas apenas começavam, anunciados pela chegada daquela pomba.
Uma pomba de penas encaracoladas.



Indescritível


Nairobe respirou fundo.
O final daquela aula de balé se arrastava, incômodo. Já era o sexto ou sétimo ano em que se encontrava no primeiro ano. Como os anos passavam diferente para ela, estava presa aquele eterno início.
Ela se sentou entediada. Um, dois, três, um dois, três. Adorava brincar com outras crianças, mas hoje elas a perturbavam. O barulho, a agitação ou talvez fosse a própria Nairobe. Ela pensava em tantas coisas, presa naquela sala, rodeada de espelhos, era como se estivesse proibida de saber mais. A professora a chamou.
Geralmente ela se esforçaria para errar aquele passo, mas não se sentia disposta.
Executou com perfeição a pirueta. A mãe não a repreenderia por isso, mas Nairobe entendia sua condição.
Descalçou as sapatilhas e vestiu o agasalho sintético. A mãe a esperava do outro lado da rua e atravessou correndo quando viu a menina. As duas foram caminhando, o sol do fim de tarde ressaltando o dourado que às vezes surgia nos cabelos de Nairobe e reforçando as olheiras arroxeadas de sua mãe. Ela parecia especialmente abatida.
Não dormiu bem? – perguntou Nairobe, se esforçando para empregar um tom o mais natural possível. A mãe demorou para responder e quando o fez foi com uma sacudida de ombros.
“Não muito”.
Um outro tanto de silêncio.
Nairobe caminhou olhando do chão para o perfil de sua mãe.
“Nairobe...” – a mãe começou – “prefiro que não saia mais à noite, certo?”
Ela apenas concordou com a cabeça.
“Se estiver muito curiosa sobre algo, me pergunte.” - Nairobe não respirava – “você entendeu?”
A menina fez que sim com a cabeça.
“Há algo sobre o qual gostaria de falar?”. Nairobe sentia uma secura envolver sua garganta e quando falou, sua voz parecia muito mais fina que de costume.
“Naquela noite...” – ela se conteve.
“O que você viu, Nairobe?” – a mãe continuava caminhando, mãos no bolso do agasalho.
“Eu o vi indo”
“Hum” – a mãe olhou para o céu como se esperasse algo.
“Mamãe?”
“Sim?”
“Ele era bom?”
“O que é bom para você, Nairobe?”.
Nairobe não sabia o que dizer. O que era bom? Nairobe se calou e a voz de sua mente continuava. Ela nunca se perguntara sobre isso.
Continuaram caminhando, os braços encostados, de leve. A mãe lhe sorria algumas vezes e já avistara o prédio onde moravam. A pomba branca de penas encaracoladas sobrevoando sobre ele.
Nairobe ainda não sabia dizer  o que era bom.

Incompatível

Já fazia semanas que Nairobe tentava juntar as peças do estranho quebra-cabeça que era sua família. Não somente ela, mas os amigos de asas diferentes, os vidros e panos roxos. Ela sabia (sabia mas ainda não entendia) que tudo aquilo fazia parte do trabalho de sua mãe. 
Mas aquele episódio no beco, Rodolfo de pé com a foice, o homem no chão e sua mãe indiferente, deixou Nairobe pensativa e confusa.
A menina andava com a cabeça às voltas e nem tinha ao menos com quem conversar... Tentou perguntar alguma coisa para seu irmão, mas ele parecia aceitar tudo facilmente, claro, já passara mais de um século próximo daquelas pessoas, então deveria compreendê-las melhor que Nairobe. Era o que ela pensava. Se tivesse sido mais audaciosa e falado com ele... Mas não. Além de tudo, agora sentia necessidade de ser cautelosa, tinha medo que sua mãe descobrisse que a havia seguido naquela noite.
A mãe agira como se nada tivesse acontecido, continuava saindo em horários irregulares, a mochila nas costas, sem hora para voltar. Os vidros de maionese no peitoril da janela, as asas abertas nas noites de chuva.
Então chegou o dia do jantar. O sábado no qual os amigos de sua mãe se reuniam em sua casa. Era interessante o clima que ali se instalava, um pouco mais de som, alguns risos, mas eles permaneciam quietos na maior parte do tempo... O maior espetáculo era a variedade de asas. Todas elas diferentes... As de Anna ainda eram as favoritas de Nairobe. 
Todos reunidos, a imensa mesa no quintal ocupada e um céu sem estrelas, sem lua ou nuvens, como um pano pitado, servindo de tenda para uma festa à fantasia. Nairobe tinha que admitir, alguns dos amigos de sua mãe eram bem originais.
A menina tinha passe livre nessas festas, podia transitar pela casa sem ser advertida ou mandada para cama no horário. O irmão, geralmente, preferia o vídeo game. Se bem que ela já notara, ele muitas vezes já ficava sentado ao lado dos convivas, sem falar... Por horas.
Naquela noite algo aconteceu.
Acomodada numa das cadeiras mais altas, experimentando um delicioso ensopado de camarão que sua mãe fizera, Nairobe observou algo que lhe traria estranhas conclusões.
Enquanto sua mãe passava com os pratos, em silêncio, enchia copos, retirava e substituia talheres, Rodolfo, de longe, a acompanhava com o olhar. E não era um olhar de indiferença como o que ele usava para o mundo todo. Era um olhar quase humano.
Nairobe estremeceu, não entendia todas as mensagens que aqueles olhos acinzentados transmitiam, mas captou o essencial. Ele gostava de sua mãe.
A noite transcorreu como num aquário desde então. Qualquer som, qualquer movimento, tudo estava longe e desconectado. Nairobe só prestou atenção aos movimentos de Rodolfo, espelhando os de sua mãe.
Depois que todos se foram, ela se aproximou da pia da cozinha, com cautela e saudades. Sua mãe lavava a louça.
“Mãe?”. A menina sentia uma timidez que lhe apertava o pescoço.
“Sim, Nairobe?”. Foi a resposta calma que veio logo em seguida.
Nairobe arriscou “Você sabia que Rodolfo gosta de você?”. Ela queria que essas palavras tivessem saído em tom de troça, mas tinha tanto receio da reação de sua mãe que murmurou como num confessionário.
“Sim”. A resposta curta e displicente a assustou.
Um hífen inteiro de silêncio pareceu separar a conversa.
Ela olhava pros pezinhos...  Continuou.
“Vocês já namoraram?”
Sem se distrair dos garfos, a mãe respondeu:
“Já”.
Agora Nairobe não conseguia mais entender o rumo daquela conversa absurda e elegante, entre esponjas e detergente.
“E por que se separaram?”. A pergunta lhe soou idiota, mas já fora feita.
A mãe não respondeu de prontidão. Terminou de passar o rodinho na pia, enxugou as mãos e a olhou com carinho.
“Éramos incompatíveis... Satisfeita? Agora vamos deitar porque já passa da hora.”. E fez sinal para que a menina subisse no seu colo.
Deitada entre as cobertas quentes, a mãe sentada aos pés da cama, Nairobe pela primeira vez fantasiou uma vida em família. Ela, seu irmão, sua mãe e um pai... Mas ao imaginar Rodolfo como seu pai um calafrio de medo e pavor a percorreu, fazendo com que todo o quarto parecesse um bloco de gelo. Aquela imagem era terrível. Fechou os olhos no escuro e desejou que amanhecesse logo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Indizível

“Ah, acho que podemos esperar mais um pouco”. Ninguém se moveu... O homem no chão agora sacudia a mão.
“Ele está te chamando”. A mãe de Nairobe apontou para o sujeito à sua frente.
“Não, ele enxerga bem agora, é a você que ele chama”.
Ela não esboçou nenhuma reação, ficou olhando com a cabeça de lado para o senhor que fazia um gesto débil em sua direção.
“Você não sente saudade do trabalho?”.  Rodolfo jogou a bituca longe.
“Nop”. Foi o único som que Nairobe ouviu sua mãe pronunciar.
“Imaginei que talvez você quisesse relembrar os velhos tempos...”. Agora ele se aproximava, as asas douradas se abrindo com vigor e lentidão.
Nairobe viu sua mãe pular da caçamba, tirar a mochila das costas, abri-la e retirar o vidro junto com o pano roxo.
“Você não quer fazer isso você mesma?”.  Rodolfo olhava para ela com um olhar maroto.
Ela continuou olhando de lado para o homem no chão. E não se moveu.
“Você deveria entender... Não sabe o estado em que ele deixou aquela menininha”
“Isso não é justiça...”
A mãe falou displicentemente enquanto procurava outra coisa na mochila.
“Esqueço sempre que você encara isso só como um trabalho”. Ele soltou uma gargalhada bonita e melodiosa. “Você agora só se preocupa com os seus humanos, não?”
“Não são MEUS humanos, são meus filhos”.
“Dá no mesmo. Você não poderá ficar com eles.”
A mãe de Nairobe se encostou na caçamba e acendeu um cigarro. Nairobe não sabia que ela fumava.
Eles ficaram em silêncio até ela terminar. 
Com um movimento da cabeça, Rodolfo pareceu se dar por vencido. Ergueu a mão e Nairobe vislumbrou uma foice radiante como as asas e assustadora como nenhuma outra coisa. Ele caminhou até o homem, sorriu para a mãe da menina e quando baixou o braço, Nairobe fechou os olhos.
“Pronto, pode recolher”.
Nariobe viu sua mãe se abaixar e encostar a mão, que agora parecia uma garra de um pássaro não catalogado, e puxar alguma coisa pelo topo da cabeça do corpo estirado no chão. Imóvel, completamente imóvel.
Algo muito parecido com o que Nairobe viu sua mãe vomitando no banheiro foi conduzido para dentro do vidro, que após ser fechado, foi devolvido para a mochila.
Nairobe não conseguia mais respirar. Sua saliva havia secado em sua boca, fazendo com que parecesse que ela havia comido areia. 
A mãe só se levantou e começou a se afastar.
******* Ela ouviu Rodolfo chamar por sua mãe, já de costas.
A mãe de Nairobe tinha um nome, mas a menina nunca conseguia pronunciá-lo. As sete vogais estavam distribuídas entre trinta e cinco consoantes, algumas que Nairobe nem ao menos sabia escrever. Rodolfo a chamara pelo nome, corretamente. Ela parou. Não se virou.
“Você não sente saudade do nosso?"
A menina viu a mãe olhar para os tênis velhos, depois para a ponta da asa que quase se arrastava no chão e depois dar de ombros. Continuou andando. 
Nairobe correu silenciosamente, como fazem as crianças. Se enfiou entre alguns sacos e caixas e viu sua mãe passar por ela, a mochila nas costas, as asas lambendo o chão imundo. 
Rodolfo não se movera. Apenas gritara do lugar onde estava.
“Eu tenho o nome de um deles na minha lista!”.
A mãe parou, se virou, abriu as asas completamente e pareceu estar pronta para lançar alguma coisa sobre Rodolfo. Os olhos tinham uma luminosidade estranha. Nairobe não o enxergava, mas sentiu que ele se encolhera ao vê-la assim. 
Ela disse algo que Nairobe não conseguiu entender, num som estranho e diferente e que chegou aos ouvidos da menina como “Eu também gosto de torta de frango, mas prefiro tapetes persas” ou “Confio na sua inteligência para não pensar em fazer isso”. A menina não sabia exatamente.
Ela se virou, fechou as asas e se afastou. 
Nairobe esperou para ter certeza de que sua mãe fora embora e saiu correndo, imaginando que teria que se apressar para chegar em casa, cortando caminho por uma galeria próxima.




Incalculável

Mais uma paulada na cabeça e Nairobe viu alguma coisa sendo arremessada ao longe... Talvez um dente, talvez algo que ela preferisse não saber. Sua mãe suspirou entediada.
“Eu deveria imaginar, quando você me chamou...” Ela disse a Rodolfo, enquanto os lábios dele se curvavam num sorriso que poderia ser quase chamado de angelical.
Os homens saíram correndo. O senhor permaneceu no chão.
Era fato: ele ainda não estava morto.
Rodolfo se aproximou, lento, acendeu outro cigarro, se abaixou nos joelhos perto do homem e parou. Não fez mais nada. Nairobe tapava a boca com as mãos. Em seus pensamentos ainda dominados pela piedade que aquela figura desfalecida lhe causava, pensava em sair correndo e pedir ajuda, lembrava dos números de emergência, em  gritar por socorro e trazer um médico. Um médico lhe parecia a pessoa certa. Mas mais do que tudo: ela esperava que sua mãe tomasse uma atitude.
E nada, a mãe terminava a outra metade da laranja, sem nem ao menos desviar os olhos pra figura. Somente Rodolfo demonstrava algum interesse.
“Você adora isso não?” Foi o que sua mãe disse enquanto Rodolfo se levantava e se afastava novamente para a penumbra e para outro cigarro.
“Adoro o que?”
“Eu quero voltar pra casa, pode terminar logo com isso ?”



Impossível

Naiorobe esperou quieta por alguns minutos até ver sua mãe sumir ao virar numa entrada oculta aos olhos da menina.
Se apressou, com medo de ficar sozinha naquele beco onde imaginava que os ratos fossem maiores que ela mesma. Avançou até o ponto onde sua mãe desaparecera. Virou afobada e parou subitamente.
A mãe estava empoleirada sobre uma caçamba de lixo, da mesma forma como  Nairobe costumava vê-la sobre o muro de casa.
As imensas asas escuras se agitavam lentamente. Após seu espanto inicial, Nairobe desviou seus olhos delas e reparou  em uma figura parada poucos metros à frente de sua mãe. Rodolfo, um dos amigos que freqüentavam os jantares de sábado. Vestido elegantemente, com suas asas douradas e radiantes, fumava um cigarro, um pouco escondido na penumbra noturna... Ele tinha algo de tremendamente intimidador na forma como segurava o cigarro. 
Respirou curto e focou  o lugar de onde vinha o som de almofada e socos.
Entre sua mãe e Rodolfo estava um homem grisalho e corpulento, estirado no chão, enquanto dois homens batiam nele com paus e outro o chutava na barriga. O homem já parecia estar semi consciente e apenas grunia sem se  mover realmente. A boca sangrava e Nairobe estremeceu ao ouvir os golpes sendo aplicados. Eles iriam matá-lo. Rodolfo deu um passo adiante e sorriu satisfeito.
A mãe de Nairobe não moveu um músculo, a não ser pelas asas que pareciam algum animal preso a uma coleira, apenas continuou chupando uma laranja.
Nairobe prendeu a respiração para não gritar ou sair correndo.



Invisível


A curiosidade estava corroendo-a. Nairobe decidira: quando sua mãe saísse à noite, ela a seguiria.
Tentara algumas vezes, se esgueirando pelas calçadas, acompanhando os passos calmos de sua mãe porém as distâncias eram longas e ela acabava voltando para a segurança do apartamento.
Sabia que se a mãe a descobrisse, ela estaria em apuros. Não era permitido, nem à ela, nem ao irmão, perambular sozinho pela rua, quanto mais à noite.
Numa dês suas incursões viu sua mãe abrir as lúgubres asas e alçar vôo, sem que ninguém nem ao menos percebesse. Nesse instante quase duvidou de sua própria existência.
Várias semanas se passaram até que tivesse coragem para se aventurar, novamente, em sua investigação.
A mãe vestia o de sempre, calça jeans escura, o agasalho preto surrado e tênis gastos.
Dessa vez parecia estar com menos pressa ainda do que nos outros dias e carregava a mochila.
Nairobe a vira colocando um pano roxo-ataúde e um vidro grande dentro dela.
A mãe de Nairobe virou uma esquina, indo para uma viela escura e úmida, de onde se via um muro alto e sujo, indicando uma rua sem saída. Mas era uma boa caminhada até lá.
Ela deixou que a mãe ganhasse mais terreno para poder se esconder sem ser notada.
Onde estava parada, logo na entrada do beco, ela podia ouvir sons abafados como socos numa almofada. Logo Nairobe descobriria não se tratar de uma almofada.






Intangível

Nairobe vivia uma infância feliz. Isso era certo. Não lhe incomodava a solidão já que tinha o irmão para brincar. Era uma criança perfeitamente normal, levando-se em conta que já tinha 8 anos há vinte anos. Ela fazia uma idéia do que seria aquilo. Seu irmão tinha a mesma idade há sessenta e tinha medo de perguntar quantos anos a mãe tinha... Mas pelos olhos, imaginara que muitos. Um dia perguntou se não seria prudente que se mudassem de cidade, já que as pessoas achariam estranho, depois de um certo período, que eles permanecessem com a mesma idade por tanto tempo. A mãe deu de ombros “percebemos muito pouca coisa ao nosso redor, quanto mais a idade dos outros” e continuo descascando batatas. Ela adorava cozinhar.
Algumas vezes outros vinham jantar em casa e Nairobe sabia que eram todos colegas de trabalho. Havia uma em especial, do qual ela gostava muito. Não era por sua simpatia que Nairobe gostava dessa amiga de sua mãe, já que sempre estava de profundo mau humor, nem por sua beleza (era baixa e com sobrancelhas quase unidas, grossas e escuras, além de um pequeno buço escuro, como os pelos dos seus braços). Quase não falava e, para completar, tinha um pouco mais do que a altura da própria Nairobe. Anna.
Mas ela não parecia ser uma mulher, também não parecia um homem. Seu irmão explicara que “Anna” fora uma trivialidade, na verdade “ela” não era nenhum dos dois.
Mesmo assim era ela que mais encanto exercia sobre Nairobe. Sempre com roupas infantis devido à pouca estatura, um tanto acima do peso,estava sempre com o olhar atendo sobre tudo e todos... Mas parecia sorrir, mesmo que seu lábios não se mexessem ao chegar à casa de Nairobe e vê-los. Era a mais próxima de sua mãe, mesmo que elas nunca trocassem uma só palavra. Ficavam quietas por horas com xícaras de chá que de esfumaçantes passavam ao total congelamento.
A maior diversão para Nairobe era olhá-la quando os acompanhava à escola, no terminal de metrô. Anna parava com os pés um sobre o outro e parecia não prestar atenção a mais nada. Então elas surgiam: duas imensas asas, muito maiores do que ela, alvíssimas como a luz do dia e completamente penteadas. Anna as abria para descansar e Nairobe olhava encantada àquelas asas, sentindo pena por ser a única a poder observá-las. Quando o metrô demorava muito, se escorava um pouco nelas, adquirindo uma pose engraçada e que sempre a divertia. Sua mãe também tinha asas, mas não eram visíveis o tempo todo e nem eram belas como de Anna. Eram magras e negras e parecidas com pele revestindo uma armação de ferro. Nairobe não gostava de olhá-las e sua mãe não as abria perto dela.
Numa noite de grande temporal, sabendo que aquela chuva era apenas as lágrimas maternas em forma de tempestade, Nairobe se esgueirou para o quintal e pode ver sua mãe empoleirada no muro, quieta, as asas abertas em toda a extensão, exageradamente grandes. Sentiu um calafrio ao vê-la assim e se aproximou mais por amor do que por coragem. Não havia chuva nem lágrimas perto dela. Apenas olhava quieta para o céu entrevado de nuvens cortantes e nem percebeu quando Nairobe se aproximou. Se aproximou e sentiu pena da mãe e até queria consolá-la, mas seria impossível tocar naquelas asas.

Intragável

O Leite quente parecia a melhor coisa do mundo. A cabeça de Nairobe rodava sem para e ela tentava pescar uma das milhões de perguntas que nadavam através dela. A mãe apenas a olhava, brincando com um biscoito, mordiscando-o de leve. Parecia esperar.
"E então?" Ela falou na voz baixa e musical que Nairobe tanto gostava.
Nairobe sorriu, tomou mais um gole de leite, baixou os olhos e se encheu de uma segurança desconhecida:
"O que era aquilo?"
"Uma alma."
Esperou mais um pouco.
"Por que você a engoliu?"
"Ora Nairobe, essa é uma cidade violenta, eu não poderia andar, a essas horas, com uma alma por aí, não é?"
Ela não sabia se era ou se não era. Almas poderiam ser roubadas? Quem roubaria uma alma? Quase que telepaticamente, a mãe respondeu.
"São itens valiosos" – continuou bebendo o leite.
"Elas têm gosto?"
A mãe a encarou, divertida, sorrindo com as sobrancelhas.
"Como assim Nairobe?"
"Ah, você reclamou do gosto dessa, escovando os dentes."
"Ah! Você observa tudo, hein?"
Nairobe gostou de ouvir aquilo no tom que sua mãe usou.
"Então... Elas têm sim, e algumas, como essa, são indigestas." E deu uma gargalhada.
Nairobe concluiu que seria melhor interromper o questionário.
O leite quente começara a fazer efeito e tudo o que ela desejava era voltar para a cama e poder dormir ao lado de sua mãe.




Incrível

Nairobe acordou sobressaltada. Tivera um pesadelo e agora escutava a porta da frentre se fechando. Sua mãe chegara do trabalho. 
Calçou as pantufas e se arrastou, silenciosamente, para fora do quatro. A casa estava escura a não ser por uma réstia de luz, vinda do banheiro. Ela se aproximou e pode ver a mãe ajoelhada, apoiada na privada com uma das mãos enfiada na boca, forçando o vômito.
Parou espantada. Algumas contrações e viu sua mãe cuspindo uma massa com uma luminosidade intermitente.
“Ah!”
Não se conteve e os olhos de sua mãe se fixaram nela. Agora ela não conseguia nem falar. Se ao ver aquela massa de luz sendo expelida  se assustara, aos ver os olhos da mãe, ficou paralisada. Estavam brancos e opacos, como pintados por uma tinta que não existe.
Tentou correr mas suas pernas não obedeceram.
“O que você faz aqui?” Perguntou, enérgica, a mãe.
“Eu, eu...”. Balbuciou.
“Não importa, vou te fazer um leite, certo? Só preciso de um segundo...”
Nairobe concordou rapidamente, enquanto a mãe se arrumava. Sem entender como, teve coragem de avançar mais e olhar para a figura no banheiro. Hesitou. As asas negras estavam ali, se movendo em contorções enquanto a mãe depositava aquela bola de luz num pote de maionese e tapava com um pano roxo. Nairobe viu que os olhos escureciam aos poucos e que as asas se  aquietavam e lentamente sumiam.
Tentou respirar, mas esquecera como.
A mãe se levantou, enfiou o vidro dentro de uma bolsa que usava a tiracolo. Lavou as mãos.
“Pronto, só vou escovar os dentes... blagh! Viciados sempre tem o mesmo gosto”, falou gargarejando com desinfetante bucal. Se olhou no espelho e depois para Nairobe e sorriu.
“Venha, vou pegar alguns biscoitos também.”

Infalível


Nairobe muitas vezes ficava constrangida quando alguém na escola perguntava sobre o trabalho de sua mãe. Com as mãozinhas para trás e os olhos fixos nos tênis coloridos, ela se balançava um pouco como em dúvida e  respondia “Ela trabalha com entregas”. E se, novamente,  questionada pelo motivo de sua mãe sempre aparentar estar cansada, com a pele mais pálida do que se esperaria e olheiras como que desenhadas, ela ajuntava “Entrega 24 horas” e aproveitava a deixa para dispersar.
Era assim.
Ela não conseguia imaginar ser compreendida se respondesse que sua mãe era a morte. “Morte não, uma coletora”, a mãe sempre frisava  parecendo ter olhos que gritavam que já haviam visto de tudo.
Nairobe via a mãe se movimentar com pressa, atendendo chamadas e voltar para casa com cara de nada. E se os filhos lhe perguntassem sobre como fora seu dia, ela dizia que não discutiria trabalho em casa. Era só um trabalho.
“Eu não as tiro, só coleto as almas e as entrego. Nada demais.” Nairobe sabia bem, mas gostava de pensar que a mãe ocupava um cargo mais elevado. “D'us me livre!”, era a resposta. “Já tenho trabalho suficiente sendo coletora, imagine se fosse ceifeira!”. Mas a menina sabia, no fundo, que a mãe adoraria ser promovida.



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Eu tenho uma foto sua agora
quando sorriu pra mim e não
dividi isso com alguém
aquele riso descontido
com a comida ainda na boca era pra
mim e capturei
deixei guardado por segurança
não sei quanto tempo é seu
e meu
e se o trajeto é um trajeto
às vezes você me parece um acidente
e que eu poderia falar tudo, contar
tudo
que seria até possível a gente
erguer uns castelos
criar pássaros e vê-los voando
em revoada quando chegasse a hora
sem serem corvos, nem nos
comer os olhos
só você, mastigando enquanto
eu fotografava aquele olhar

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Bauman

Amor não sei que gosto tem.
não deve doer, porque se doer, nunca senti.
mas quando você foi, deu quase um aperto.
Eu não te amava ainda.
Não sei se seria depois.
Foi desses "até logo" que sabemos bem o quanto
vão durar.
Logo não tem coisa alguma a ver com isso.
Não te segurei, não causei resitência.
Me deixei despedir daquele abraço liquidamente
escorri por cada dedo seu, encharquei sua camisa
a barra da sua calça,
deixei uma marca estranha no seu peito
líquida, plácida,
entendida e compreendendo que
não se ater a ninguém foi minha escolha
havia um pequeno laço
desatado
a fita, nas suas mãos,
parecia uma pequena ave
você olhou,
aliviado
passos largos, ligeiros
compassados, ritmados
como tudo o que você anda
escolhendo
sorriu, acenou
e nos fomos.
Um do outro.
Perpétuos.
Agora, nesse instante,
voltando pro Aquário,
sabendo que nem todo
mundo quer criar
peixinho dourado.

Porto - Galápagos


Pude visualizar algumas coisas, entre a sombra escura do sol e a lua que já se levantava, desde antes do café ficar pronto.

Eu sentia saudades.

E eram saudades inexplicáveis. Dos primos que estavam longe, do amigo de quem eu perdera o e-mail e já fazia anos que me perguntava se estava vivo ou não. Senti saudades de quando levantava pela manhã e aceitava o calor colorindo a minha pele. Antes de tudo eram saudades de Portugal e essas eu não conseguia justificar. Lisboa me parecia tão rara naquele instante, que era quase caminhar por aquelas ruas de pedra.

Pensei que eu deveria voltar ao ponto de início.

Voltei.

Na primeira vez, ela apenas dormia ao lado de um dos rapazes. As mãos entrelaçadas, denunciando o começo do namoro. E era o começo de namoro na vida todo. Nunca havia sido a garota de ninguém. Logo depois experimentou a ânsia com outro deles, e já que não adormeciam juntos, ela sempre fantasiava sobre isso.

O terceiro era um misto de tudo, de irmão, amigo, deitava ao lado e roubava as cobertas. Ela ainda imaginava o segundo. E depois foram outros. Aquele que dormia na beirada da cama, o que teimava em estar sempre de meias, um outro que tinha um cabelinho cheiroso e por isso ela o colocava no ombro. Houve também um com quem tentou adormecer... Mas nunca conseguia. Seus amores lhe provocavam insônia.

Até que se apaixonou e com esse dormiu pelas últimas noites, mesmo que ele nem soubesse disso. Depois passou. Ele saiu da vida dela, deixando a cadeira vaga, a cama e o coração em frangalhos. Ele (o coração) jurou que não se recuperava nem nessa década, nem na outra.

Teimaram os dois e ela continuou. Aprendeu a dormir abraçada, mesmo que a qualquer movimento seu sono se desfizesse. Ele levantava (o outro moço, agora o coração repousava), ela levantava junto. Ele espirrava, ela já vinha com o chá. Adotou um filho maior.

Esperou por um ou dois anos e agora era ele que não conseguia dormir e se quem a acompanhava sofria de insônia, imaginem a pessoa em questão. Oito quilos a menos na balança e um ar grave que só quem a conhecesse de muito tempo entenderia ser era a borda de uma ferida purgando algo de venenoso. Ela partiu.

Malas e alguns pertences, coisa pouca debaixo do braço. Ele foi logo em seguida.

Veio mais um. Era quente e dormia fácil. Ela se animou. Experimentaria agora uma noite completa de sono.

Não foi. Algo naquelas mãos, naqueles dedos que repuxavam seus cabelos com insistência a puseram doente. Quase morreu por duas vezes, as bolas vermelhas pareciam almondegas vomitadas antes do café da manhã, como a Lua que me fez lembrar Lisboa.

Desistiu.

Menos um na cama, mais uns fios de cabelo e um tratamento de choque. Relera “A Montanha mágica” e tentou se curar. Mirou-se nos exemplos de Bandeira e não das mulheres de Athenas. Deixou de morrer e continuou.

Mais um. Agora nessa fase ela já perguntava “Quando eu acordar você não estará mais aqui?”. Era retórica.

Se esparramava sozinha na cama imensa e cheirava os lençóis procurando encontrar vestígios de si mesma. Não queria saber do outro.

Cortou o coração daquele lá e seguiu, jurando que nem mesmo o amor de infância, agora fardado, comprometido e constante, a tiraria de qualquer rumo. Queria uma linha reta.

Dormia só por 4 horas, acordava e olhava dentro da noite. As respostas eram criptografadas e ela, como olhos de sono e de ramela, não se perguntava se entenderia ou não.

Desistira.

Até que um dia...

Eram mãos e pés quentes. E talvez ela se arrependa.

Essa Lua, a sombra e o calçadão lisboeta. Eu lembrei e logo esqueci.

Talvez ela se arrependa.




Check in -Check up


Eu sempre detestei rodoviárias.

Depois de mais velha aprendi a detestar aeroportos.

Detestei a primeira vez que deixei minha mãe.

Detestei aqueles guichês e a pista imensa. Mesmo quando fui buscá-la. Não havia gratidão naquelas paredes.

Rodoviárias eram portos de solidão. Você chega, você vai, você deixa, te deixam. Até os bancos são desconfortáveis o suficiente para nada ser permanente.

Naquele dia eu não deixara ninguém, nem ninguém me deixara. Era só mais uma de inúmeras viagens. Nem trabalho, nem as sonhadas férias, era só rotina.

São Paulo parecia engasgar. E era comigo.

A luz de hoje era como uma película argentina, cobrindo de bênçãos os cabelos escuros da população paulistana. Me perdi nos reflexos vermelhos, tentando entender o arruivamento desse povo.

Não carregava expectativa de retorno. Aceitei aqueles reflexos como lenços brancos me dizendo adeus, ao som da sinfonia delicada do motor do ônibus deixando a plataforma.

Queria hoje queimar os meus livros. O muro da minha cidade sitiada.
E as palavras, como súditos, pedindo clemência. A nau principal da minha esquadra, perdendo-se no horizonte. Que imagem poética, amores como navios. Mas qual general, tendo perdido sua principal pedra, não a substituiria o mais rapidamente, se pudesse?
Essas palavras são minhas.
Mas não cabem também em outras bocas?
Quem de vós, ó genitoras, lançaria sobre o filho a responsabilidade paterna?
Como se culpasse o abortado pelo abordo, o fruto pela semente numa responsabilidade invertida, de trás pra frente.
Pense num reino à beira mar. Aceite o mar como irmão e inimigo, provedor e porta para todos os males. Pense  em escapar.
É necessário que se visualize bem este lugar.
É o meu ponto de partida. Porque toda família é um reino. O homem ou o menino? Escolhi o varão!
Porque a guerra não era só do lado de fora.
E se na Dinamarca neva... Pás e pás de neve retiradas do meu leiro para sepultarem o finado. Preparei minha cama de gelo.
Compreendo se não entendem... Nessa pele só cabe um.