quarta-feira, 15 de junho de 2016

amor, vem ver o mar!
subiu até aqui, tá chegando aos meus pés.
o frio que trouxe do escuro,
o véu que cobre esse meu rosto
não é mortalha,
mesmo que seja
vem escutar o som que chama,
vem tremer e perceber
que a vida, sem um bom punhado
de medos,
é um comercial de margarina.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

às vezes me surpreendo comigo
rins, baço
pulmões
fígado
vesículas
bexiga
ovários
pâncreas
e outras cositas mais
acho que esqueceram alguma coisa

o que será?
um ano inteiro
pra contar o que eu
sentia
uma
folha apenas
pra imaginar como seria
muita vida
pouca letra
no último dia ela foi
feliz
brincou com os filhos
limpou a casa
convém frisar:
não como crítica ao
papel feminino
mas a consideração...
Ter deixado a casa limpa
É como ter erradicado
A fome do mundo
Ele merece meu sentimento anônimo
Que pareia passos com os meus
Pela manhã
Na cidade que ainda dorme o sono da
Madrugada
Sou rei e rainha
Nessa hora
A calçada é o meu reino
E sua imagem,
Meu castelo em nuvens
Irrealidades são pesadas como malas.

Todo mundo ri

Todo mundo fala

Eu não meço nada

É madrugada e me apronto

Todo mundo na sala

Da sala para fora

Da boca para fora

Silêncio

Por favor

Recém morridos precisam de

Remédio

Remédio, remediação

Eu preciso de recheio

No peito

E nem é silicone
Era cinza
O dia no final da ladeira
Como restos de demolição
Em ton surton
Cinza dos céus à cabeça
A boca
Pálida como
Gesso em cantos e molduras
A fé abalada
Nas estruturas
Era apenas um adereço
Triste
Esclarecendo tudo
Sobre a estética do carnaval
Do interior
A rua
Seguia livremente
Hoje o asfalto combinava com
O dia
Acordei um dia e não amava mais ninguém.
Simples assim.
Depois de ter amado trocentas pessoas,
e sofrido,
e magoado,
e merecido,
me levantei
e não tinha amor.
Eu era um pano branco.
Não tinha gosto
e uma falta que não sabia onde era
flutuava ao meu redor
e por dentro,
como se minhas paredes fossem véus.
A pele,
os ossos,
tudo.
Tecido sem resistência.



Se você nunca me leu,
não me conhece.
Se levado pela sorrisaria, me supõe leve,
tenra e terna
Você não está entendendo nada.
Não sabe o talho profundo
que dou todo dia
em cada ramo
a planta, caule
as flores que eu empalho
Se não correu na entrelinha,
talvez espere.
Talvez acredite em cada "minha"
e como Narciso, 
de cabeça,
só naquilo
que é você mesmo.

às vezes senti vontade de expor num outdoor as mensagens que nós trocamos. Na sensação infantil de que talvez isso tocasse às pessoas. Porque você aí e eu aqui, desejando ambas que a vida nos trocasse com qualquer outra coisa e, ao mesmo tempo, olhe as palavras que nos tangem.
Querida, não sei o que reservo em mim para você, mas sei que as suas notícias ainda são minhas,e que ainda descubro coisas que me deixaram ignorante anos atrás ou a vida inteira, se for melhor (ou pelo menos mais honesto).
Te vejo mais suave do que fraca, menos galho e mais folha, aquelas folhas de jambo que são aveludadas e gentis, se curvam ao vento, protegem o fruto do sol. São folhas e não se partem...
E a saudade que me vem de você é dessas que nunca se sabe, saudade do país que se desejou visitar a vida inteira ou saudade do menino que sentava na carteira ao lado, quando só tínhamos sete anos. Eu nem me lembraria do nome dele, mas a saudade não se acalma. Deve ser um tanto ansiosa.
Penso em você todos esses dias e que talvez seu estômago se sinta como o meu. Que seu coração acorde assustado de noite, parecendo alguém num seqüestro relâmpago. Um coração atado, apertado dentro do peito, dolorido e sem qualquer merecimento desse susto.
Se não há mais medo, vamos sentar na praia na virada do ano e observar. Se o mar tragasse todas as mágoas, talvez cheguemos de almas lavadas, lavradas e terra e sal e semente e mais um ano pra tentar entender essas remendas na vida.

Se eu tiver um guarda-sol, você foge e eu fujo também? Eu só preciso poder oferecer mais do que um protetor solar. Um dia, dois, acho que consigo rotas certeiras. A estabilidade do seguro e a idéia de que seguro sempre é incerto demais.
Traga o caderno, precisamos dele pra podermos rir...que pensem que morremos de dor, a caneta sempre vai provar que mesmo ao contrário, prefere-se morrer de amor, mas que o barato mesmo é viver bem e esquecer de quem foi. Ou pelo menos de quem não olhou pra trás.
Eu implorando secretamente que você nunca suma, que ... a abra a mão e me veja acenando educadamente que agora eu vou embora, pra continuar saudável, pra continuar com alguns pedaços e relíquias. Preciso delas por aqui. Quero te entregar uma caixa cheia de histórias. Meus gibis e minhas pedras. Daqui logo eu saio. Fuga nº2, ou três ou quatro. Mas eu te convido para o plano, para a estrada e para os postos. Sempre há um ou outro no caminho.
 Venha?
 Beijos, repletos de azul pra você se sentir no mar

terça-feira, 7 de junho de 2016

Não, a literatura nunca dá conta da solidão, da morte. Aliás, nada dá conta disso... Talvez, reafirmando a negação, só a morte daria um jeito na solidão. O contrário é impossível. Já foi começando o pensamento, negando. Era pela antítese que formulava essa dor. Também é impossível passar remédio em qualquer tipo de medo, com palavras. E não é porque elas são ocas. É porque não existem.  A Palavra dita é água que não chega ao chão. Ela sobe para uma nuvem, assim que sai da boca, mas não chove. E palavra escrita é um bom alimento para as fogueiras. Se a literatura é algo perigoso, estando inversamente ligado ao tamanho da liberdade, nascemos com as mãos amarradas aos pés. Eu queria mesmo era nem ter nascido, não ter passado de uma célula desacompanhada... Até mesmo para que exista vida é necessário mais de um. E detesto a dualidade. Vamos fazer o seguinte: escreveremos o mês inteiro e mandaremos nossas notícias pelo correio. Você não vai entender nada, porque a minha letra é feia, e eu vou me desinteressar antes de abrir o envelope. Vamos sucumbir ao tédio, por favor?  E a história da última dança começou ali. Ele se despediu da mulher que imaginou para a vida inteira. Se despediu com palavras, aqui está a comprovação da maldade desses entes.  Ela aceitou, entrou no carro e disse um adeus, sem palavras, vejam isso. Só no aceno de cabeça. Porque era tudo que restara a ela. O gato, a dor, a solidão e a morte haviam comido sua língua.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Meu bem, os livros não vão nos salvar.
Tentei, tentamos.
Farão peso na hora de afundar,
Cada palavra puxando a gente pelo pé,
Nos tornando comida de peixe.
Nem mesmo o brilho baço que temos depois da meia noite,
A saúde por um fio,
Ou a lembrança daquela madrugada.
Nada disso tá servindo não.
Nesses tempos de contra-mão,
Ter amor, nem isso,

Garante a salvação.

sábado, 4 de junho de 2016

Tebas

Indecifrável
Te devoro
Mais por hábito

Que por gosto
Não há trégua.
Não houve nunca.
Incessante coração aplicado ao ato de pulsar.
Da hora que fui feita à hora de deitar.
A última.
Não há trégua para esse vendo, essa neve, essa forma de falar.
Minha prece.
Difícil escrever.
Esvaziada e competente,
Recolhendo gotas e as acrescentando
Ao meu copo,
Transbordante,
Nosso cálice.
Meu calado jeito de dizer

Não quero mais mágoas.

Novelo

Tem uma curva ali na frente
Tem eu inteira tombando o corpo, fazendo hora
Fita
Fiteira era o que minha avó me dizia e aí eu pensava sempre na Ariadne. Me pensava segurando o novelo, Perseu correndo, fugindo do Minotauro. Se ela soltasse o fio, se ela tivesse uma dúvida.
Se Ariadne sentisse medo.
Então ela seria eu.
Nascida pra ser herói, de espada, capa, elmo, escudo, dessas mulheres cabra-macho, procuro por um fio entre isso tudo. Tem um labirinto todo meu.
Não cronometro, não espero mais, não entendi se é a proximidade ou a distância, se é de quem se aproxima a vida toda, esperando a mão, o vão que vai pra alma, mais sim, menos...
Ou quem tá longe, contido, encapsulado no tempo e no espaço. Inacessível.
Enquanto tocava a última faixa do disco, aquele brega que já ouvimos, eu pensei em você. Nele, em nós dois, pensei que era possível calcular qualquer disritmia apenas por esse olhar de corça, loba danada.
Não é.
Se ele dispara, só eu sei, só eu espero.
Conto de trás pra frente, 180, 21, 9, 2. Me perco antes do um e aí já foi.
Corrente, voltagem, amores.
Eu queria te achar, agora ou depois, um mês, três, dez.
Mas precisava de coragem.

Ah, se Ariadne sentisse medo...

Coitado do Perseu.