sábado, 24 de setembro de 2011

Boate Azul


Como se não bastasse nascer mulher, minha existência é brega. Vá lá que alguém se ponha em minha defesa e me diga que toda existência é brega. Não posso concordar. A minha é mais.
Já havia explicado sobre os dançarinos e a trilha sonora, apenas não havia dito tudo.
A trilha sonora, muitas vezes, é quase a mesma de uma boate azul. Ou vermelha, ou apenas uma casa de recursos. Uma vez fui à uma, mas depois. Agora não.
Vejam e analisem por vocês mesmos.
Voltando pra casa. Terminal Tietê. Aquele Tietê de sexta-feira. Cheio, muito cheio, mau, coração peludo, sem espaço para a minha janta. A não ser no Bob’s (tenho que pagar algum tipo de direito? Depois do que vou contar, acho melhor eles não cobrarem nada... na verdade, deveriam me ressarcir). Bob’s cheio, estômago vazio. Eu espero. A moça que me atente tem a voz igualzinha do atendente do metrô, na animação “Os robôs”. Reparo bem nos lábios pra ver se eu entendo o que ela me diz e se não estou comprando um lanche sabor Chow-Chow.
Ela pergunta o que vou beber. Não quero xixi de Chow-Chow, quero Coca-Cola, um  monte, rios e cascatas, quero ouvir o sabiá na laranjeira...Desperto do meu transe e junto comigo, a consciência. Alimentação saudável, caminhadas e exercícios. Vou de suco. Algo em mim diz que não, mas dou de ombros e finjo que não escutei. Continuo.
Pergunto “suco do quê tem?”. Manga, Uva, Pêssego e Limão. Ou seja: não tem suco. Não tem nenhum, isso não é suco. Pra mim, eu só consideraria se fosse algo como Laranja, Maracujá, Goiaba e até poderia ser Limão. Ah, Limão não! Pedi Limão (havia também Pêssego Ligth...).
O lanche e a batata eram sem vergonha. O suco (de limããããoooo) era sem moral. Mas como fui educada num lar comunista, comi tudo e não fiz cara feia. No primeiro momento.
Entro no buzão, me ajeito pra dormir e lembro da Tenente Ripley. Não vou explicar pra quem não sabe. Estou aristocrata hoje. E tem google pra quê?
Me acomodei e pensei “Ripley, eu sei como você se sente”. E dormi.
Tenho o poder supremo do sono em situações adversas. Só durante a noite, na minha cama, é que sofro de insônia. Mais um sintoma da breguice à qual estou submetida.
Dormi e acordei e não enxergava nada direito. Vista embaçada, cabeça girando, doendo, estômago pulando...Tudo, um carrossel de mal estar. Fiz o que pessoas como eu fazem em situações como essa. Corri para o banheiro.
Não vou descrever. Vocês querem? Claro que não. Mas foi assim: enquanto eu vomitava alface pelo nariz, com as mãos apoiadas na parede e as pernas afastas em frente ao Senhor Privada, concluí que eu me encontrava no patamar mais baixo da cadeia alimentar. E que seria muito justo que um tigre imenso saísse da cabine ao lado da minha e me devorasse. Era o que eu merecia. Mais alface e um pedaço de carne e o tigre não veio. Pior, da lixeira eu ouvia uma vozinha aveludada, crescente “De noite eu rondo a cidade a te procurar sem te encontrar”. Mais alface.  “Em meio de olhares espio, em todos os bares, você não está”.
Olho incrédula para a lixeira. Até o Wando cantando na porta daquele lugar na Augusta, com um anão como segurança na porta, ainda vai. Mas isso já era demais. Eu resolvo sair da cabine e ir lavar o rosto. Nelson Rodrigues vai atrás. Não, não me enganei. Não é o Gonçalves que canta, é o Rodrigues e bem abaixo da média. Ele vai atrás de mim, meio que flutuando, aqueles olhos de perdigueiro, e gesticula, quase interpretando a música. É triste. Porém, antes de qualquer coisa, é brega. Muito brega.
Lavo o rosto e tenho a sensação que só eu escuto o Nelson, o que por instantes me deixa meio insegura. Dou uma duvidadinha, mas percebo que isso não era possível.
Volto pro ônibus (abatida), desencantada da vida e o Nelson se senta do meu lado e continua a  cantar. Quer coisa mais brega que isso?


Cinema Paradiso

Vou tentar explicar. Minha vida é como um filme. Não seria bem um filme, talvez um comercial, só que mais longo. Bem mais longo e em alguns momentos excruciante.
Agora mesmo, há um calendário enorme numa mesa em frente a minha, onde se lê “Setembro”. Essa é a legenda do mês, como se indicasse ao telespectador qual o momento cronológico da trama. E às vezes há um efeito de câmera lenta, às vezes há coisas que simplesmente são passadas numa velocidade estonteante (os finais de semana e os meus banhos: sempre mais rápidos do que eu gostaria... ah, e a grana também).
E ao meu redor, quando a câmera gira 180°, surgem pequenas flechas sobre as pessoas, com textos em Courier New, branco, bem despojado... Às vezes elas vêm riscadas e o texto aparece escrito a mão (quando as pessoas mudam e não deu tempo de mudar a fonte)…
“Good guy”, “Bad guy”, sim, algumas vêm em inglês, outras em francês, depende do item mencionado. E tem música. Nem sempre, mas tem. Que nem no dia que um professor de literatura deu um chilique porque ninguém prestava atenção à leitura que ele fazia de um poema. Tenho certeza que era um poema, mesmo que ele lesse como se fosse bula de remédio, mas como sou hipocondríaca e sempre leio bulas de remédio, sei que seria impossível (quase) que algum remédio contivesse Água do meu Tietê e luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas. Impossível. Eu espero. Era poema então.
E ninguém prestava atenção alguma, já que quem faz Letras não faz pra prestar atenção, faz como uma forma de dizer à família “Ok, estou na faculdade....
_De Letras?
_É, de Letras...
_Letras não conta.”
E o pai volta a ler o jornal. Claro que não conta. O que conta é matemática. Letras fala e escreve. Mal, muito mal. E lê poesia como bula de remédio.
Eu olhava pro teto, naquele dia. Deveria estar publicando um livro no meu universo paralelo imaginário ou apenas correndo atrás de pombos.
O professor se incomodou com a conversa e a falta de consideração pelo bulário poético que nos oferecia e jogou um livro na parede e começou a gritar. Mas não foi isso... Não foi só isso, pelo menos.
Ele segurou o livro com raiva. E olhou pra sala. Nesse momento um globo de espelhos surgiu no teto (lembram? Eu estava olhando pra ele, minutos antes). Ele ficou ali (o globo), discreto. Nem girava ainda...
O professor olha pro livro, olha pra sala, eu olho pro teto, a menina atrás de mim olhava pras unhas e meu amigo olhava pra nada (ele é cego). E o professor prepara o braço e joga o livro na parede. Mas antes dele se estatelar com a capa e a ante capa como asas, algo acontece. O globo começa a girar, a iluminação diminui, ouço Rosana cantando “Como uma deusa, você me mantém” e a Vera Fisher surge por trás da mesa do professor, dentro de uma concha, bem num estilo nascimento de Vênus, do Botticelli, depois que Vênus saiu da casa dos pais e caiu na vida.
E o professor gritando quase não escuto, porque “Como uma deusa” é um clássico e pelo menos não parecia uma bula de remédio... E a Vera Fisher... bem, fui percebendo que ela aparece várias vezes ao longo da vida. Sempre na concha, sempre com a mesma música, a variante está na presença ou não de bailarinos... Do Gugu. Bailarinas em roupas com véus e esvoaçantes e bailarinos de branco. Homo, muito Omo.
É assim que as coisas são. É assim que eu as vejo... Nesse exato momento há uma enorme seta sobre mim com dizeres “Loser – ela queria ser escritora... Mas fez Letras”.

Quando a seta surge, tenho a impressão que todos no escritório riem e que alguém se prepara para dançar... Como uma d...


domingo, 11 de setembro de 2011

O Elefante

Minha avó teve Alzheimer
Eu fiquei muito contrariada  na época, havia pouca coisa para se ler sobre isso, não sabíamos o que era, não sabíamos direito porque achávamos que era simplesmente esclerose. Ela não me reconhecia quando eu me aproximava e de noite gritava me chamando... Eu queria sumir, ficava brava, levantava, passava os dias fora.  Só hoje percebi que fiquei com raiva por ela ter me esquecido. Tinha a ideia de que a pessoa só lembraria das coisas mais importantes e que aquilo era a prova de que ela não me amava como eu pensava que amasse. Eu cresci acreditando que eu era a coisa mais importante pra minha avó.
Antes de eu nascer, ela havia ficado quase 20 anos num estado de depressão profunda, que havia se agravado ao ponto dela não sair mais da cama, não querer comer... E minha mãe me dizia que quando eu nasci ela começou a se levantar, ia me ver no berço, achava curioso o fato de eu não chorar... Foi se apegando. Ela foi a pessoa que eu mais amei nessa vida. Com certeza. Mais que meu pai, que às vezes me deixava brava por me deixar esperando e por não me deixar, como a minha mãe, me deixar fazer tudo o que eu queria. Foi a primeira pessoa que tive medo que morresse. Acordei no meio da noite, desesperada. Eu acabara de concluir que ela e o Binhoco (algo difícil de explicar, mas ...) iam se acabar... Ele eu poderia guardar na gaveta, como faço até hoje, ela não. Minha mãe me disse pra rezar pro anjinho da guarda, mas já tinha pego raivinha de D'us também. Meus bichinhos morriam.
Não sei. Queria que ela tivesse morrido agora, nessa época, eu já com trinta e tantos anos, podendo ficar perto dela e achando bonito o fato dela ter me esquecido,  mas de se lembrar do marido. Ela o amou. Eu queria ficar maravilhada com isso, sentar do lado dela e segurar a mãozinha magra e ficar girando a aliança dela, dela e do meu vô. Usava as duas. E achando lindo e me comovendo, me emocionando por algumas memórias permanecerem intactas, mesmo quando toda a construção desmorona. Eu poderia chorar.
Quando ela morreu não consegui sentir nada. Não chorei, fiquei alguns dias quieta, tinha uns maços de cigarros escondidos e passava as noites em claro. O quarto ficou grande... Uma amiga, logo que eu voltei do funeral, foi me abraçar e disse "Tadinha". Eu não me sentia tadinha, me sentia nada. Foi por aí que começou. Ela teve Alzheimer. Eu tive Alzheimer emocional.


A primeira - seis anos antes


Meu querido... Escrevo pedindo que você volte, volte a ser meu amigo, com se isso fosse coisa pra se pedir, mas peço. Esqueça. Esqueça o que passou, beijos, abraços, por favor. O que eu escrevi pra você antes de ir embora é verdade, mas esqueça, vai passar, vamos continuar daqui?
Não quero tentar esquecer...Quero reatar nossa amizade. Isso eu quero. Decidi seguir seu conselho...já será seis meses que não nos falamos direito e não sei por que, mas pensei todos os dias nisso. E dói. Dói mais do que eu aguento levar, é triste lembrar de muitas coisas que aconteceram nesses meses, do meu pai, de coisas que se foram. Eu precisava muito de você, pelo menos imaginava que sim, quando ele se foi. Bicho, por quê?
Te quero tão bem, tão mesmo, como carne da minha carne. Eu te fiz tanto mal assim ao ponto de você me ignorar como se eu tivesse te traído, como se não tivesse sido sincera com você? Eu errei exatamente nisso, você é (...) e não deveria, nunca, ter permitido que as coisas fossem diferentes. Mas mesmo assim, te quero bem, por demais, como amigo mesmo, lá do fundo do peito, para quem a gente pede toda noite que alguém, D'us, sei lá, cuide bem, deixe feliz, leve pelo caminho melhor e coisas do tipo. Volta bicho. Não jogue fora isso não, é tão raro encontrar alguém nesse mundo bobo e a vida é burra, acaba logo, passa rápido, vamos ser amigos de novo, ir ao cinema, nos escrever, ou então só responde, me deixa sentir que você ainda está do outro lado...eu estou aqui, sempre, para o que der e vier, desde dor de barriga até viagem de tonkinha...
Aceite meu pedido de desculpas... Mas não machuca eu não. Você não, deixa isso para o resto do mundo, você não.
Responde dessa vez, não me faça me sentir uma tonta, alguém que fala sem ser ouvido. 

Te quero bem...

beijos a granel