terça-feira, 31 de maio de 2011

Jornais - parte 14


... Eu devo tá te enchendo o saco cara... Desculpe...

Que é isso? Não tá me enchendo não...

É que só consigo pensar que se algo não der certo... Eu não vou saber o que fazer, eu tenho medo.

(Os olhos pesados de cansaço e preocupação. Rose atravessa a porta de vidro que os separa da recep¬ção e vai direto ao encontro deles)

Rafa, Paulo... Vocês já tem notícias?

Nada, ela tá na sala de operação...

Ah, meu Deus! Como ela foi se meter nessa? Tá tudo bem com você Paulo? Você não se machucou? Que é isso no seu olho?!

O policial que tava com a gente me deu um soco...

Por que?!

Quando levaram ela, eu fui atrás. Ele me segurou e eu insisti e ele me socou...

Jesus...

Mas eu tô legal. Tá tudo bem... Preferiria que não estivesse, mas está...

Rafa, calma cara, ela vai ficar vem, você sabe disso. Você vai ver, antes até do que você imagina vocês vão estar juntos de novo... Se acalme e mande uma energia positiva pra ela, vai precisar...

Eu tô pirando Rose, eu tô pirando...

...

Olha, Rafa, Rose, eu... Eu vou sair pra tomar um pouco de ar, se precisarem tô lá fora, qualquer coisa, me avisem.

(Ele se afasta em passos rápidos.)

Ele gosta muito dela Rose?

Muito.

Tá apaixonado?

Perdidamente. Mas ele sabe que ela te ama. Ele sabe que sempre será um amigo, um bom amigo, mas só isso. Tenho certeza que ele fez tudo pra protegê-la...

Eu também tenho, você viu o olho dele, o policial bateu de verdade, parece que ele ficou desacordado e foi retirado por uma tropa de resgate...

Quanto tempo ela está lá?

Quase duas. Ela tomou uns sete tiros e chegou aqui encharcada em sangue. Rose, que horrível...

Você viu onde ela tinha sido atingida?

Não, não dava. Os paramédicos já tinham feito transfusão na ambulância e estavam tentando estancar o sangramento. Sei que nenhum atingiu a cabeça. Ela chegou gritando e tentando espernear, dizia que queria ir embora, que não precisava que ninguém se preocupasse. Quase se levantou da maca... Toda ensangüentada.

Mas não tinham acertado a cabeça, menos mal...

É, mas ela teve uma parada cardíaca quando entrou, o médico me avisou e depois disse que ela estava estável e tudo bem e que esperariam pra começar os procedimentos, parece que uma bala se alojou... Começaram e não sei mais de nada.

Você já falou com os pais dela?

Com a mãe, ela não conseguiu nenhum vôo, vai vir só amanhã. E o pai dela tá no México, não consegui contato algum. A mãe dela disse que vai tentar se conectar, mas duvido que algum deles apareça aqui. O pai talvez, mas a mãe não, sempre foi assim.

É eu sei, a mãe dela é meio desconexa com relação à ela, não?

É, se fosse um dos irmãos, seria um drama, mas com ela... Ela foi super delicada comigo, me disse pra que eu ficasse calmo e que, com certeza, ela vai ficar bem.

E os seus pais?

Já devem ter chegado a Sampa, vão pegar o primeiro avião amanhã.

Ela gosta muito deles, você sabe...

Sei, ela sempre me diz, mesmo que prefira sempre estar meio distante, eles também a adoram.

É difícil não gostar dela, né?

É Rose, é difícil...

Hei, vamos tomar um café? Vai te fazer bem...

Vai, assim penso menos no assunto.

Podemos nos revezar para acompanhá-la quando ela for para rum quarto.

Será que ela vai ficar muito tempo na UTI?

Ela? Não! Você vai ver o trabalho que vamos ter para mantê-la alguns dias no hospital, porque imagino que ela precise ficar internada por um período. Você vai ver: Aí, eu quero sair daqui; não agüento a comida;  quem essa enfermeira pensa que é pra falar assim comigo? Me dá um cigarro! Eu quero voltar pro meu trabalho! Não preciso de ajuda!. Você, por acaso, não conhece a mulher que tem?

É, tenho certeza que ela vai reclamar um bocado de não poder fazer as coisas que quer, do jeito que quer...

Eu já avisei pro Elias, ele vai chegar daqui uma hora, mais ou menos, já avisou que chegou no aeroporto, mas o trânsito tá terrível. Eu também posso ficar e o Paulo... Assim você descansa um pouco.

Tudo bem. Obrigada Rose, você é ótima...

Rafa, eu a amo, ela é minha irmã. Não só por tudo o que passamos, mas porque ela sempre esteve ao meu lado, me ajudou em tudo, me estendeu a mão quando eu cheguei aqui, sozinha, brigada com a família, grávida. Rafa, quem com vinte e dois anos teria me dado o apoio que ela me deu? Tudo o que eu quero é vê-la bem. Vem, vamos comer alguma coisa, você já tá precisando...

Tá bom.

(E se dirigem para o refeitório)






quarta-feira, 25 de maio de 2011

Macaxeira era o nome da outra perna de pau

Marque com um x uma das alternativas: Você me acha louca ou eu já te machuquei bastante. Teve um que queria assinalar tudo. Deve haver uma legião com tochas querendo me queimar. E tudo por causa dessa coisa de feminismo. Começou com a Beth e vai terminar nem sei onde. Mas vê lá se sou maluca! Só porque eu faço coleções, isso não esclarece nada! Naqueles dias eu andava pensativa e foi exatamente quando ele apareceu. Um ele que não é você, antes que se importe muito e ache que tudo que eu escrevo é auto relativo à sua pessoa. Quase tudo, só nesse momento que não. Imagina que eu quase fiquei feliz? Aí o corpo ficou doente, esperneou, porque deve ser muita endorfina e o pobre não está acostumado. Você conhece outras pessoas assim? Talvez eu tenha hoje conversado com você pela madrugada, esperando dar um horário aceitável pra te chamar e você ainda discute comigo. Eu queria perguntar como era pra você. Essa coisa de ser e não ser, de estar e sair correndo, mas não perguntei. Eu imaginei a lua ontem à noite toda, me sentia elevada, mas paixão não é pra mim, tem um efeito emburrecedor sobre todo o conjunto. Você fica burro quando se apaixona? Esquece os dias, acha tudo menos trágico e acha que está pronto pra tomar um tiro? Eu não fico assim, mas é menos pior do que geralmente. Então eu sinto falta do peso e me desapaixono.
Faço isso pra me manter saudável, a rotina de duas xícaras de café pela manhã, um maço de cigarros pela tarde e mais uma dose de tequila à noite. Se não mantenho a dieta, sou capaz de sobreviver... Compartilho do seu amor pelas facas.
O engraçado é que ele nunca escreveu nada que fosse pra mim. Nem uma linha. Eu te jogo em tantas aventuras, você seria o detetive canastrão, o médico irresponsável, a aluna aplicada. Teria sempre um papel nas minhas tramas. Simplesmente porque me reconheço nessa coisa que você representa. Eu só não sei bem o que é.
A Madrugada respira fundo, os dedos ardem pelas cordas novas... Adoro quando algo funciona... O Estômago já não é o mesmo, mas eu também não sou a mesma, como posso cobrar alguma coisa dele?
Acredita que atravessei a vida até aqui sem cobrar nada de ninguém? É porque sou do time do pouco importa.  Mas eu queria dizer outra coisa. Queria contar um caso. Contar que uma moça amou uma vez, ah, sempre historinha de amor. Na verdade queria contar que há salvação para a humanidade, que somos parte dela e que não é preciso ter medo. Tenho medo de abraços apertados e de atravessar a rua, de avião, de afogamentos, quando eu ia dormir eu me imaginava morrendo afogada e tentava não respirar. Pensava comigo “É pra ir acostumando”. E quando dá essas coisas, não tem alprazolan que resolva. Na verdade, nada resolve nada e fica tudo por igual. Já pensou que somos exatamente o que dois foram um pro outro, ele com mais significância pra ela?
Uma relação de mesmice, mas não há nada de novo no mercado. Ah, eu queria contar outra coisa: quase dormi uma noite inteira, largada num ombro e achando aquilo bom... Deveriam alugar esse tipo de serviço: ombros pra insones. Será que era saudade? Acho que não, porque já conheço o gosto e não tinha esse não. Será que era eu mesma andando em passos tão levinhos que não pude me assustar a tempo de sair correndo? Eu acho que ando sorrateira.



sábado, 21 de maio de 2011

Jornais - parte 13


Oi, eu sou o Paulo

(estende a mão.)

Hum...

Pô, cara, você deve estar me odiando, a culpa é minha... Eu tentei voltar, mas o Gaspar me deu um soco, e eu tonteei, e quando vi, ela já tinha sido levada...

Eu não estou te odiando. Você não teve nada a ver com isso. Eu tô odiando o filho da puta que atirou nela...

Eu deveria tê-la protegido. Não era pra isso ter acontecido, não com ela...

Ela vai ficar bem, eu tenho certeza... Se eu pego esse cara, eu não sei o que seria capaz de fazer...

Eu também não...

Eu não sei o que faria sem ela, realmente não sei...

Eu também não.

Hã?

Não, nada, disse que ela é incrível.

Incrível? Ela é mais que isso, ela é alguém de quem é impossível não se gostar, sabe?

Sei...




A primeira vez que eu a vi foi numa noite de chuva, na rua. Eu tava voltando pra casa, tinha ido pegar uns filmes e tava chovendo muito e por isso o trânsito tava lerdo, eu vinha pensando na vida, quando vi algo que me chamou muito a atenção. Vi na calçada, entre um abre e fecha dos limpadores, uma garota, no meio da chuva, vestindo uma calça jeans rasgada e algumas coisas extremamente coloridas! Ela brigava com um cachecol azul turquesa e tinha um gorro listrado... Mas não era esquisito. Era algo mágico. Parecia ser de propósito, algo pra alegrar aquela noite toda preto-e-branco, nem os semáforos tinham cor direito e de repente, no meio de tudo isso, aquela profusão de cor, não se via mais nada além dela, tentando desesperadamente, em vão, recolher um monte de papel que o vento e a água se encarregavam de levar cada vez mais pra longe e nessa ela rodava, esperneava, corria, e as folhas iam voando, brincando com ela. E sem mais nem menos parei o carro, desci, precisava vê-la de perto.

Fiquei parado na calçada, olhando que nem bobo pra ela. Como ela era linda! Com aqueles olhos grandes, o corpo magrinho e todo feminino, parecia uma boneca. Não sabia o que fazer, fiquei sem reação, até que ela parou de pular atrás de suas folhas...

Que foi? Perdeu alguma coisa?. Me perguntou.

Eu acordei da minha letargia e apenas comecei a ajudar a juntar todos aqueles papéis, ela me encarou, toda ensopada, com os cabelos caindo pelo rosto e falou: Obrigada, mas pode deixar que eu cuido disso!. Ela continuou e eu parado, olhando. Depois de segundos, perguntei: Posso te ajudar?. Ela me olhou mais uma vez e concluiu que era o único jeito de recuperar suas folhas. Nem todas puderam ser salvas, mas a grande maioria pode ser juntada. Entreguei uma pilha de papéis encharcados à ela, que se sentou no meio fio e enfiou a cabeça entre as mãos.

Merda, merda, repetia.

Me sentei ao lado dela e tentei tranqüilizá-la, o que não foi uma boa tática. Ela se levantou rapidamente, me disse obrigada e preciso ir. Fiquei atônito, me levantei e não resisti.

Quer uma carona?

Não, obrigada. Eu preciso ir. Saiu andando rápido, sem olhar pra mim. Olhei para o carro estacionado no meio fio com o pisca aceso, pronto pra ser multado e ela indo embora, quase fugindo. Pensei um pouco e fui atrás.

Por favor, deixe eu te dar uma carona... Tá chovendo muito, eu te deixo em casa sem problemas.

Obrigada, mas não precisa... Ela já estava bem na minha frente, apertei o passo.

Hei, espere... é que está chovendo muito.. Ela parou e se virou para mim.

Cara, você está encharcado... Você não precisava ter me ajudado... Me desculpe, mas eu me viro, não precisa se preocupar. E me deu o primeiro sorriso, o que me deixou mais confuso ainda.

Eu faço questão... Por favor...

Ela inclinou a cabeça para o lado e me examinou por momentos, acho que pra ter certeza de que eu não era um maníaco homicida.

Eu não quero te dar trabalho.

Mas sou eu quem está se oferecendo para te levar e não seria trabalho algum... Eu já tô molhado mesmo.

Ah, eu também já tô ensopada mesmo.

E me acompanhou até o carro. Parou de frente à porta, meio sem graça.

Eu tô pingando, vou molhar o seu carro... Pode deixar que eu pego um ônibus... E já foi se virando... Eu a segurei, antes que sumisse.

Nada disso! Não tem problema...

Enfim, ela aceitou entrar no carro. Ia tentando se ajeitar, soltou o cabelo, longo e escuro, tirou as luvas e começou a examinar os papéis.

Estão muito ruins? Perguntei.

E como!

Onde eu te deixo?

Qualquer lugar perto da Paulista.

Como?.

Aquela resposta me pareceu tão estranha... Como aquela garota linda, exótica, poderia ir pra qualquer lugar? Eu era o tipo de pessoa que ia pra qualquer lugar, ela não. Parecia que aqueles graves olhos escuros estavam dizendo “Tenho algo muito importante pra fazer. Algo que só eu e mais ninguém pode fazer.”

É, qualquer lugar... Pode ser um restaurante ou coisa assim, eu vou comer alguma coisa.

Mas você não estava indo pra casa?

Mais ou menos.

Como assim “mais ou menos”?

É, eu tava indo pra qualquer lugar, queria me abrigar, aí meus papéis começaram a voar...

Você não tem onde morar?

Ah, tenho, é claro que tenho... Mas hoje não posso ir pra lá. Me respondeu, sucinta.

Por quê?

Por que o quê?

Por quê você não pode voltar pra casa?

É que eu divido uma quitinete com outra garota, mas como hoje ela está com um cara, eu vou passar a noite na rua... Eu até curto, mas aí começou a chover e complicou. E continuou com a papelada.

Passar a noite na rua? Não é perigoso? Hoje eu imagino a impressão que devo ter causado, ela sabia se virar perfeitamente bem.

Mais ou menos, depende de onde você for... Eu poderia ir pra casa de uma tia minha ou dos meus pais, mas tava com vontade de sair e não encontrar ninguém, senão teria ido pra uma república... Nem tava afim de ver meus colegas.

Colegas? O que você faz?

Jornalismo, último ano na USP.

Interessante, viu? Olha, você vai pegar um resfriado se ficar a noite inteira assim...

E para reforçar o que eu acabara de dizer, ouvi um atchim.

Viu? Ela emburrou um pouco, então perguntei se ela queria ir até a minha casa se secar e se quisesse poderia passar a noite. E sem que eu percebesse o que havia dito, ela abriu a porta do carro e se preparou pra descer. Eu brequei e ela já foi saindo, mas eu a puxei pelo pulôver.

O que foi?

Olha, me desculpa, mas eu não sou uma guria que você pega na rua e leva pra tua casa pra passar à noite... Sinto muito, não tenho nada contra isso, mas não é a minha praia. Se me permite, vou fazer qualquer coisa... Bem longe de você.

Ela estava uma fera.

Garota, você entendeu errado! Não foi isso o que eu quis dizer e eu não sou o tipo de cara que pega qualquer uma no meio da rua e leva pra casa pra passar a noite e, além do mais, eu não sou um depravado, corruptor de criancinhas...

Criancinhas!? Quantos anos acha que eu tenho?

Eu entendi que era melhor ficar quieto. Ela tinha 22 anos, mesmo parecendo ter 12. Sorri sem graça, e acho que isso a convenceu das minhas intenções, pois ela voltou para o carro e fechou a porta.

Desculpe, é que nunca se sabe, né? E eu não costumo ir para a casa de estranhos

Não liga, tá tudo bem, eu moro aqui perto.

Ela foi quieta o percurso inteiro. Chegamos à minha casa, abri a porta e ela entrou. E ali estava tudo, eu já sabia quem ela era, minha pequena Emília Art Noveau; olhava para tudo com curiosidade, mas não tocava em nada.

Muito legal sua casa...?

Rafael... Vou pegar uma toalha para você...

Rafael... Obrigada... Você mora sozinho?

Hum, hum... Quero dizer, tem a Rita e o Arnaldo... Esta serve?

Está ótima... Quem são?

Minha gata e meu cachorro, eles estão na lavanderia. E você?

Não, eu estou aqui... Fiquei sem graça de novo e ela riu um pouco.

Desculpa... Aqui moro com uma amiga na moradia, e minha mãe mora no Embu.Meu pai mora no México. Você gosta dos Mutantes...

Adoro, e você?

É minha banda favorita...

Tire o pulôver, eu vou pegar uma camiseta pra você, tá bom?

Tá bom... Onde eu poderia estender meus papéis?

Ah, desculpe. Quer estendê-los no banheiro?

Tudo bem.

Ela foi tentar salvar os papéis que pareciam ser muito importantes, e achei que seria uma boa idéia preparar alguma coisa pra comermos. Depois de um tempo, ela apareceu, penteada e vestindo minha camiseta... E mais nada! Meu coração engoliu em seco aquela batida e pulou pra outra, quase estraguei o jantar, respirei fundo e perguntei:

Precisa de mais alguma coisa?

Não, obrigada, já tô te dando muito trabalho... Posso me sentar?

Claro, sinta-se à vontade.

Ah! Isso é fácil... Você costuma sempre salvar garotas de temporais?

Só nas sextas...

Dei sorte, então... Em que número já estamos?

Tô brincando... É que você me chamou a atenção.

Eu? Como?

Você nem imagina?

Sinceramente? Não...

Acho que foi o seu pulôver... Você se veste sempre assim ou isso é um truque para forçar as pessoas a ajudá-la?

Ela sorriu sem graça, o sorriso mais gracioso do mundo.

É estranho, mas eu gosto... Não costumo perder muito tempo me arrumando... Não tenho paciência...

Não é estranho... É diferente, acho que por isso me chamou atenção... Você gosta de risoto?

Não.

Me respondeu rapidamente. Fiquei desarmado, eu já morava sozinho há uns quatro anos e a comida era sempre só pra mim e com a chuva que tava não poderia comprar nada.

Ah, é...

Não encana, eu não gosto de nada, só de porcaria, eu sei que sua comida deve ser incrível, eu que não tenho paladar... Desculpe... Eu tô sem graça...

Eu também, mas é melhor assim, pelo menos me disse a verdade, ao invés de fingir estar adorando e depois ir vomitar tudo no banheiro.

É, eu só devia ter tido um pouco mais de tato, né?

É, um pouquinho, pra não ferir meus sentimentos, mas não se preocupe com isso, eu já levei outros foras na minha vida...

Você?! Duvido!

Por quê?

Ela corou um pouco.

Bem... É que... Sabe... Você é muito... Muito gentil e muitas garotas adoram homens gentis... e além do mais, você sabe, os homens quase nunca são recusados, e como se não bastasse, existem 7 mulheres para cada homem no mundo.

É? Então tem um cara com quatorze, porque até agora nem ao menos uma veio me procurar.

Ah, tá...

É sério! Por que eu não posso estar sozinho? Tem uma lei proibindo isso?

Com relação a homens bonitos, tem.

Hum, então eu sou bonito? Ela corou mais ainda.

Ah...

Se é assim, você é bonita, e também está sozinha... Né?

Eu não sou bonita.

E deu o assunto por encerrado.

Eu não sabia como continuar a conversa... Ofereci um chá, então.

Com ou sem açúcar?

Sem, obrigada... Agora você já sabe quase tudo sobre mim... acho que é sua obrigação falar sobre sua vida, mesmo que você invente.

Não há nada de interessante sobre a minha vida e eu não inventaria nada.

Ah, não vale, conte qualquer coisa enquanto eu tomo o chá.

Bom, nasci aqui, mas me mudei pequeno pra Araraquara...

Você morou lá? Meus pais moraram, antes de se separarem, conheço um monte de gente lá.

É? Que coincidência...

Dizem que coincidências não acontecem...

Fiz o colegial lá e voltei pra cá, pra fazer a faculdade, me formei, tive alguns relacionamentos, o último há uns dois anos, depois apenas me envolvi com advogadas sedentas por dinheiro e sexo... Ah, desculpe.

Pelo que? Pelo Advogadas, pelo sedentas ou pelo Sexo?

Acho que pelos três rsrsrs.

Não se preocupe, eu não nasci ontem, posso agüentar mais uns dois Advogadas.

E abriu um sorriso que iluminou a sala cheia de penumbra. Conversamos um pouco sobre Araraquara, tínhamos amigos em comum, me contou as novidades e notei que ela começara a demorar para responder às minhas perguntas, conclui que ela deveria querer dormir.

Tô te enchendo o saco...

Não, que é isso?

Você deve estar cansada, eu vou preparar a cama pra você dormir... Eu vou ficar no sofá da sala, o que você precisar...

Não, nada disso, eu fico no sofá. Acha?! Eu não quero te tirar da sua cama.

Hei, fica pelo risoto que você não vai comer, tá bom?

Você tá querendo me comprar?

Não, quero me compensar.

Se compensar?

Ah, nada não. Eu também já to com sono. Como eu poderia dizer a ela que, na manhã seguinte, minha roupa de cama estaria com o seu cheiro e já que eu não a veria mais, poderia guardar os lençóis como recordação? Passamos pelo banheiro e ela olhou com piedade para as folhas penduradas, improvisadamente.

Será que elas secam até amanhã? Perguntou mais pra si do que pra mim.

Espero que sim... Desculpe perguntar, mas o que são?

As folhas? São os esboços para a ilustração de uma história que eu estava escrevendo... Ela estava constrangida.

É mesmo? Sobre o que é?

Super-heróis Sussurrou.

Nossa! É legal! Quero dizer...

Pode falar sério, é ridículo, né? Quem é que quer ler histórias de super-heróis? E já to meio gradinha pra escrever isso...

Mas eu adoro!

Super-heróis?

Sim! Tenho uma coleção enorme de comics, pode dar uma olhada antes de dormir...

Que legal... Valeu...

E como chama?

Shadow

E os desenhos são seus?

Não, são de um amigo meu que vai me ajudar, ele vai chorar uma semana quando souber o que ocorreu, ele estava trabalhando nisso há meses...

Eu tenho certeza que ele vai entender... Ela disfarçou um bocejo.

Bom, venha ver o quarto... Os gibis estão na estante e tem mais coberta se você quiser... Mais do que depressa ela disse: Eu quero!. Ela sempre morreu de frio. Peguei outros cobertores e ela sorriu pra mim.

Você tem um nome lindo...

Obrigado... Ah, descanse... Qualquer coisa é só me chamar.

Tá bom... Boa noite e... E, bem... Obrigada.

Fechei a porta e fui ficar acordado no sofá. Tentei dormir, mas algo não me permitia, era muito estranho, várias vezes levantei e fui até a porta do quarto, pensei em bater e chamá-la pra conversar ou sei lá, mas perdi a coragem e passei a noite em claro; só fui pegar no sono de manhazinha e quando acordei, ela já não estava mais lá. Tinha me deixado um bilhetinho azul com uma letra horrível, dizendo que não queria me incomodar, que agradecia muito e que se eu precisasse de alguma coisa, que a procurasse e me deixou seu endereço. Passei uma semana tentando me decidir se iria ou não procurá-la, até que não agüentei mais e fui dar uma volta perto da casa dela, como quem não quer nada.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Jornais - parte 12

E aí, tá animada com essa linda manhã de janeiro?

Tanto, que seria capaz de morrer...

Credo! Não fale assim, eu já todo encucado em ir fazer essa matéria na favela e você ainda me sai com uma dessas!

Nossa, o que aconteceu? Primeiro é o Rafa, todo cheio de presságios e agora você, Paulo! A intuição é privilégio das mulheres, sabia?

Não me compare com aquela montanha de músculos. Eu tenho cérebro!

Hei! O que é isso? Eu devo ter ouvido errado, não?

É, ouviu, eu disse que a intuição está disponível para todos, homens, mulheres, ou montanhas de músculos...

Paulo!

Tudo bem, desculpa, parei.

É bom mesmo, porque já chegamos, vamos deixar o carro aqui embaixo e subir a pé. Aquele cara parado perto do carro é o sargento Lima, ele está comandando a ação aqui, vamos subir com muito cuidado pela ladeira principal, segundo esse maravilhoso mapa que me deram. E não é difícil encontrar a casa do cara. Daí é só sentar e esperar, tudo certo?

Alguma alternativa de eu me manifestar contra?

Hum, não.

Então, tudo certo.

II


É aqui. Esse é o barraco... Não dá bandeira com o equipamento.

Será que vamos ter que esperar muito?

Não, só até o resto do batalhão começar a subir...

Mas já tá anoitecendo e nada!

Calma mulher... Você e seu amigo devem estar achando a minha profissão muito emocionante, né?

E como...


III


De repente ouvimos tiros.

Pareciam ser ao lado.

Gaspar (o policial que estava conosco) puxou uma sacola de feira que estava debaixo de sua cadeira, tirou duas pistolas e nos deu.

“No caso de precisarem...Nunca se sabe.'

Se encostou na parede e fez sinal para que fizéssemos o mesmo. Depois, lentamente, com o cano do revólver, abriu a porta do barraco, olhou pra nós e disse: No três, os dois pra fora. E venham atrás de mim!. Concordamos silenciosamente.

Três!

E saímos correndo. E ainda ouvíamos tiros muito próximos de nós. Corremos até que Gaspar fez sinal para pararmos e nos escondermos entre duas casas.

Tá escuro, é só ficar quieto, ok?

... Senti a respiração ofegante do Paulo... Suor escorria por sua testa, sua mão segurando a minha... Aquela não era a primeira vez que entrava numa favela, mas naquele momento me pareceu a última.

Aqueles inúmeros corredores... Tudo tão escuro... Não sei, mas mesmo com os tiros, tudo era tão silencioso que me senti sozinha. Me senti perdida sem saber o que fazer, pensei no Rafa. Ah! Rafa, havia me implorado para que eu não viesse... Paulo me puxava cada vez mais pra si e apertava mais a minha mão.

Gaspar estava quieto, apreensivo, a impressão que tive foi a de que estava prestes a estourar uma guerra... E não era muito diferente com aquela tensão louca no ar. Ouvimos mais alguns tiros e, em segundos, aquele silêncio estranho tumultuou-se de maneira incrível. O ar se encheu de gritos, som de balas e choro. Paulo me abraçou, me apertando contra o peito e disse:

Não se preocupe... Estamos bem escondidos, eu acho... não se preocupe, eu estou com você...

Não sei se foi por causa das palavras dele ou da situação ou de ambos combinados, mas senti quase como se fosse chorar. Me afastei de Paulo e ficamos quietos, olhando dentro da noite escura, os dois pensando em como conseguiríamos sair dali.

Percebi com dificuldade um vulto ainda oculto pelo escuro e ouvi, como vinda de muito longe, a voz do Gaspar me dizendo Corre! Só pude distinguir ele e Paulo se afastando rápido de mim e senti mãos fortes me agarrarem pelos ombros. Ainda tive tempo de ver o Paulo se virando para me ver e sendo puxado pelo Gaspar. Me debati com toda força que tinha, mas não adiantou. Minha arma caiu e fui levada.

Enquanto estávamos escondidos, havia se formado uma espécie de barricada ao pé do morro, muitos tiros trocados, policiais e moradores feridos. Os traficantes se protegiam nas casas, com muito armamento e conhecimento do território.

Fui levada pra um barraco, quase ao pé do morro. Havia uns dez homens ali e assim que me soltaram no chão e me levantei, levei um tapão na cara e depois uma voz bonita, com um português horrível, gritou comigo:

O que que essa vaca é?!

E preparou a mão para um outro tapa, mas foi controlado por um rapaz jovem.

Sou repórter_Respondi com um fiapo de voz que nem me pareceu minha.

Eu não acredito!

Ele disse e lá veio outro tapa, muito mais forte que o anterior e que me jogou no chão. Minha cabeça zunia. Não estava acostumada a ser esbofeteada.

Essa puta deve ser tira, vamo matar ela pra eles ver que não se brinca com a gente.

Eu respirei fundo e esperei o tiro chegar. Pensei no Rafa, nos meus pais e depois, reunindo ânimo para continuar raciocinando, falei:

Eu tenho credenciais, se vocês quiserem ver.

Eles riram e o cara que me trouxera até lá, encostou o revólver na minha cabeça.

Credenciais até a gente têm!

Mas eu tenho todos os documentos, estão na minha carteira, podem ver. Eu não tenho armas, não sou policial.

Eles pegaram a minha bolsa, reviraram tudo e se convenceram de que eu não era tira. O mesmo cara que havia me batido, gritou para os policiais:

Olha, só! Tem uma jornalistazinha com a gente. Que você acha da gente picar ela e mandar os pedaços aos pouquinhos, até vocês pararem de mandar bala?

Na hora o tiroteio parou. Acho que repórter picado não era o prato do dia.

Olhei ao meu redor e fiquei pensando no que poderia acontecer. Não queria ser picada, disso eu tinha certeza. Os policiais falaram com um mega-fone:

Imagina a opinião pública se você matarem uma jornalista?

Que se foda a opinião pública! Solta o nosso irmão e a gente manda a repórter.

Não depende só de mim. A voz do megafone argumentava.

É, mas depende só de mim pra que essa mocinha vire picadinho. Pensa rápido, seu filho da puta.

Silêncio.

Então era isso. Eu estava com mais de dez caras que queriam me picar. E eu não gostava da idéia. Tão pouco acreditava que os policiais fossem trocar um traficante por mim. Achei que era uma boa hora pra entrar em pânico, mas nem isso eu sabia como fazer. Fiquei quieta, muito quieta, de pé, prestando atenção.

E de repente, mais uma saraivada de balas. E sem que eu venha a entender, algo em mim estalou e eu saí correndo; eu preferia levar um tiro a ser picotada, isso era certo pra mim. E saí correndo de um jeito que eu nem imaginava que poderia. Virei às cegas as esquinas dos barracos, derrapando no chão rústico e pisado e ouvindo atrás de mim os caras gritando. Eu quase não tinha orientação no escuro dentro daquele labirinto de casas, a única coisa a qual podia me apegar como marco era a grande ladeira central que vinha, desde lá de baixo, cortando o morro como um rio petrificado.

Quando eu a avistei entre um barraco e outro, corri mais ainda. Os caras que estavam atrás de mim não haviam desistido. Acho que havia se tornado algo pessoal e estavam quase me alcançando, tenho certeza que se não fosse pelo emaranhado de ruas, vielas e casas, eles teriam me matado. Estava prestes a entrar na rua principal, quando senti uma picada na perna, titubeei, mas continuei correndo.

Ao pé do morro havia várias viaturas e isso me deu uma nova disposição e corri como nunca. Estava chegando perto dos policiais, prontos para responderem aos tiros, quando meu corpo estremeceu diante de um impacto impressionante. E mais outro e outro, uma dor metálica e em seguida minha camiseta empapada de sangue. Andei rapidamente mais alguns passos, até que minhas pernas afrouxaram e caí; o cheiro de sangue, meu sangue, me causando horror.

O tiroteio recomeçou. Uma mão forte me segurou com tanta facilidade que, por uns instantes, imaginei que eu estivesse morta e não me importou saber se era um bandido ou um mocinho.Ele me ergueu do chão, desajeitado e me carregou no colo, deixando pra trás uma poça de sangue e o rastro que me seguia. Me puseram numa viatura e conversavam comigo enquanto esperavam a ambulância chegar. Reconheci o Paulo, desesperado, horrorizado com o sangue, me segurou a mão, me beijou os olhos e pediu para que eu ficasse calma, que o Rafa tinha vindo para o Rio depois que vira na TV a situação do conflito e que já tinha chegado. Alguém começou a fazer pressão no meu ombro, e nem sabia se aquilo era dor ou não. Paulo só saiu do meu lado quando os paramédicos o empurraram.

Não sei quanto tempo demorou para chegar ao hospital apesar de estar lúcida (muita adrenalina corria nas minhas veias). Eu já não tinha muito controle do tempo e do que aconteceu realmente, minha última lembrança nítida daquele dia foi a do Rafa, logo que me desceram da ambulância numa maca. Ele me abraçou tão apertado que todos os meus ossos estalaram e as lágrimas dele molharam o meu rosto, enquanto sussurrou ao meu ouvido “Não me deixe!”, mas o afastaram de mim e de relance eu o vi, com a camiseta branca manchada de vermelho.


terça-feira, 10 de maio de 2011

Jornais - parte 11

FRAÇÕES


... Por favor, não vá!...

Rafa, desencana, cara! É só uma reportagem, sabe?

Eu sei! E é exatamente por isso que tô pedindo pra você não ir, eu tô me sentindo estranho, tô sentindo algo esquisito, um pressentimento...

Eu, hein? Não adianta me falar essas coisas, eu sou atéia praticante, graças a D'us, e não acredito em pressentimentos.

Eu tô falando sério! Por favor, peça pra alguém ir no teu lugar, inventa qualquer coisa, mas fica dessa vez.

Rafa, não existe a mais remota possibilidade de que eu faça isso. Eu consegui com muito custo esse espaço nessa operação, já faz um bom tempo que estou negociando com o correspondente no Rio, o jornal já pagou às passagens e o meu vôo sai em três horas.

Eu não vou fazer um papelão desses só por causa de um pressentimento. E eu sei que nãotem problema. E o risco é o que faz a minha profissão interessante. Já imaginou a mãe de um bombeiro dizendo “Não brinque com fogo, meu filho!”, ou se eu te dissesse “Não ande com pessoas que mintam”? É a mesma coisa e não vai ter perigo. Vamos estar junto com ospoliciais simplesmente documentando a ação. O Paulo vai comigo também e não teremosproblemas...

Grande coisa! E esse Paulo, eu mal conheço esse cara com quem você passa mais tempo do dia do que comigo. Eu não tô curtindo essa idéia... Por favor, fica.

Rafa, desculpa, mas realmente acha que eu vou ficar?

Não, eu não acho.

Então, pronto. Eu preciso ir, tenho que pegar o Paulo. Vou deixar o carro na redação e o motorista vai nos levar pro aeroporto. Quando chegar lá eu te ligo.

Por favor, liga sim.

Ligo, volto amanhã. Tá?

Pelo amor de D'us, se cuida! Não faça nenhuma loucura ou coisa assim. E volta inteira e linda, só pra mim! Te amo, mais do que tudo nessa vida, viu?

Eu também te amo Rafa E você vai ver, amanhã eu vou estar deitada ao teu lado pra curtir você, coisa que eu não faço há tempos, né?

Eu te adoro... Não vejo a hora de você voltar.

É?

É!

Hum, tô com medo... Mas deixa eu ir, se não for logo, não volto logo... Qualquer coisa eu te ligo.

Vou te esperar, hoje vou ficar aqui em casa, dando uma lida no processo, se precisar de mim, liga, vou estar grudado no telefone... Te amo.

Eu também, tchau.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Jornais - parte 10

PARADOXO


E assim começa o entardecer em São Paulo. Os carros com os faróis acesos formam um cordão iluminado que vai serpenteando pelas rodovias e se ramificam nas avenidas, ruas, vielas.

A cidade se ilumina, as lojas fecham, os bares abrem ou reabrem e as pessoas correm, quando não existe engarrafamento, para as suas casas, para sua comida quentinha, para sua cama acolhedora e para os braços de quem amam. E quando não têm nada disso, ficam vagando pelas ruas esperando que algo lhes aconteça.

Mas que coisa, nem cumprimentei vocês, Queridos Companheiros de jornada, mas afinal é hora do rush.

Vejo letreiros iluminados, letreiros apagados, gente indo e vindo. Todo anoitecer é a mesma coisa. Antes até dava pra ver gente nova, mas agora, parece que todas as pessoas fazem o mesmo caminho, que nunca mudam e isso só tende a piorar, também com a explosão demográfica, desemprego, violência e outras bobagens...

O trânsito não admite erros, só loucuras.

Crianças vendendo coisas no semáforo, prostitutas e garotos de programa, quase a luz do Sol, que teima em nunca aparecer, só se pôr... Gente pedindo esmola, o rapaz levando um tapa da moça, a bolsa com os documentos sendo levada, a risada entre goles de cerveja, um carrão de vidros fechados com alguém empertigado dentro dele, o lixo que se acumula na sarjeta, outro bêbado jogado na calçada, a mãe, a filha, a avó, os cabelos longos e as saias compridas, o chinês, o negro, mais um nordestino cheio de esperança, os estudantes com os livros nas mãos sem saberem que são o futuro da nação, os ônibus cheios, as árvores sobreviventes, a fumaça subindo no lugar do céu... Vejo sempre isso quando volto pra casa, pra minha comida quentinha, pra minha cama acolhedora e para os braços de quem amo.











quarta-feira, 4 de maio de 2011

Jornais - parte 9

Bom, isso aconteceu em outubro e o mês passou rapidinho e novembro também, e quando eu vi já era dezembro.
Festas de fim de ano... E mesmo que eu tenha tentado evitar, elas chegaram mais uma vez.
Todo ano penso que se eu ficar acordada no último dia de novembro até a meia noite, e virar o calendário para janeiro, direto, dezembro não chegará e com ele as festas de família. Costumo passar o Natal e o Réveillon em casa, escondida, evitando tudo e a todos. Ou então viajo (quando tenho grana) para lugares mais alegres e menos tristes. O natal foi motivo para eu conhecer a Chapada, Bonito, o Chile, Minas, as praias do sul, o Nordeste e alguns lugares legais, sem muitos atrativos... Adoro lugares onde não conheço ninguém... Nesses ambientes talvez eu até gostasse do Natal (bem pouquinho).
Faz algo perto de onze anos que moro com o Rafa e nos últimos anos consegui me desvencilhar, mas dessa vez não teria jeito e teria que passar as festas com a família dele. Eles são adoráveis, não foi por isso que resisti ao convite, mas pelo fato de que festas de fim de ano, estatisticamente, não costumam dar certo. Existem gráficos comprovando isso. Mas como o amor, além de cego, é surdo, burro e não dá atenção às estatísticas (elas nunca mentem) lá fui eu.
A família dele é de Araraquara e minha família morou um tempo lá, entre as mudanças inúmeras, antes de vir pra Sampa. E Araraquara não é tão grande assim.
Chegamos e eu jurei para mim mesma que não iria sair de casa de maneira alguma, mesmo que me pagassem meu peso em ouro. É, mas quando a mente relaxa o corpo padece e foi o que aconteceu. Tinha tanta coisa para ser pensada na hora de sairmos: Malas? Ok. Recado na secretária? Ok. Já havia avisado a Rose e ela alimentaria os gatos e a cachorra... Ok. Dinheiro, máquina, tudo? Tudo... É, quase tudo se encaixaria melhor. Porque esqueci os presentes em cima da cama, o que me impossibilitou de ficar trancada em casa e toda a história do peso em ouro... Lá fui eu pra rua para comprar presentes novos. Achei que não seria bem compreendido aparecer no natal de mãos abanando. Principalmente no primeiro natal no qual apareço, depois de onze anos (ou seriam doze?)... E então combinamos que, já como o Rafa também havia deixado para comprar algumas coisas naquele dia, sairíamos e voltaríamos logo. Muito logo. Muito mesmo.
Deixamos o jipe no estacionamento (derrubaram doze árvores para fazer aquele estacionamento horroroso) e marcamos de nos encontrar ali. Até aí tudo bem.
O dia estava bonito, o céu azul, nem quente nem frio, muito agradável. Fui andando despreocupada, pois tinha tempo de sobra. Me sentia igual à noviça rebelde nos Alpes. Até pensei em ouvir uns odl layeiers cantarolando ao longe.
Despertei do meu devaneio. Costumo abstrair muito. E quando percebi, nem noviça, nem rebelde, quanto mais Alpes. Centrão (ou centrinho) de Araraquara. Cheio, lotado, apinhado, transbordando de gente suada, afobada, carregada de sacola, embrulho, caixinhas... Um calafrio frio, muito frio me percorreu. Tentei dizer para mim mesma que aquilo não era motivo para preocupação, mas não consegui ser convincente. Eu devia prestar mais atenção aos sinais... E aquele corvo esmagado pelos pedestres só poderia ser um aviso de tudo o que estava por vir. Mesmo assim segui a diante.
Olhei algumas vitrines e uma me chamou a atenção com echarpes muito bonitas que eu sabia que iriam agradar a dona Sonia (Rafa’s mother).
Entrei, comprei uma echarpe azul turquesa (ela adora azul) e saí toda felizinha da vida concluindo que havia sido bem mais fácil do que eu pensara, mas alguém já havia dito ”O atalho é sempre o caminho mais longo”. E como esse alguém estava certo. No momento em que me deleitava com a sensação de poder voltar para a segurança do meu jipinho sem precisar falar com mais ninguém, nem correndo o risco de encontrar algum conhecido que há anos não via, e que forçosamente iria me contar sua vida nesses últimos onze anos (com detalhes longos e dolorosos), e que eu me sentia tranqüila porque isso não iria acontecer e aproveitava uma emoção fugaz de ter encontrado o presente certo em tempo recorde, bem, eu fui punida. Lá veio o castigo divino (talvez por não ter levado a sério o corvo espatifado), e ele tinha o formato de uma mulher gigante (realmente gigante!). Ela tinha, só em peitos, o dobro de mim. E lá vinha ela, estremecendo a calçada... Tentei desviar, mas bingo!... Acho que eu estava no seu caminho.
E como uma manada de elefantes raivosos, que vai destruindo tudo por onde passa, ela desobstruiu a passagem e acho que não se importou que, para isso, tenha precisado me jogar longe (bem longe). O impacto foi grande e sem conseguir me segurar em nada (também não havia nada em que eu pudesse me segurar), lá fui eu pro chão e a caixa da echarpe voando pelo céu araraquarense, até se espatifar no meio da rua (igual ao corvo).
Me levantei correndo, mas se as calçadas estavam cheias, as ruas também estavam e como num filme, já era tarde demais. Só pude ver por alguns curtos espaços de tempo, entre um carro que passava e outro, a caixa esmagada e a echarpe... Bom, prefiro não tocar no assunto. Se fosse preta ao invés de azul, acharia que era o corvo... Respirei fundo, as coisas poderiam ser consertadas, não havia motivo para pânico. Esse tipo de coisa acontece, pensei comigo e voltei até a loja, para comprar outra echarpe. A mocinha que havia me atendido me olhou e disse com simplicidade: Ah, acabou... Uma senhora meio gordinha (decidi nunca mais dirigir a palavra a alguém que usasse eufemismos) acabou de levar as últimas que eu tinha... . E enquanto ela falava coisas como se você quiser pode encomendar... e etc., a voz dela me parecia vir de um sonho, um sonho bem ruim.
A seleção natural é assim, Darwin estava certo. Aquela mulher havia me descartado para poder comprar as echarpes e não deixar nenhuma... Sinceramente? Não gostaria de pensar no que poderia ter acontecido caso o que estivesse em disputa fosse comida. E sem dizer nada, com a minha FM pessoal tocando um blues bem triste cantado pela Aretha Franklin, saí e fui procurar algo que não tivesse marcas de pneu. Com a calça suja do tombo na sarjeta e com, quero dizer, sem uma echarpe atropelada, fui andando ou pelo menos me esforçando para isso, entre o monte de gente enlouquecida pelo espírito natalino e o anseio consumista.
Fui caminhando, meio irritada, meio cabisbaixa e de repente a música mudou.
Nunca, nos meus devaneios toca música de natal. Achei estranho o Jingle Bells. Voltei à realidade e percebi que a nova trilha sonora vinha de uma galeria (toda enfeitada), cheia de coisinhas de Natal, renas, papais-noéis gordos e sorridentes, caixinhas de presente, até tive a impressão de ver um floco de neve caindo... Comovente... Se eu não fosse tão ruim, chorava. Achei que talvez encontrasse ali algo legal, tipo a felicidade eterna. Entrei na primeira loja, pois tinha uma vitrine muito bonita (toda enfeitada), empurrei a porta de vidro (toda enfeitada) e corri os olhos a minha volta para ver a quem eu me dirigiria para ser atendida. No entanto, estranhamente, a loja estava vazia (toda enfeitada, mas vazia) e não parecia haver mais ninguém ali além de mim. Fui até o balcão e esperei... esperei... esperei... esperei... esperei... esperei... esperei... esperei... Putz, aí eu cansei de esperar.
Dei uma tossidinha pra ver se alguém notava a minha presença e resolvia me atender.
Não obtive resposta alguma. Tossi novamente e nada. De novo. Continuei tossindo, agora parecendo estar nos últimos momentos de vida, graças à tuberculose. Só ouvi, lá de dentro,um “Que saco!”. Uma porta se abriu de trás do balcão e uma guria surgiu com uma revista na mão (tenho certeza que era o RPtaz na capa). Me perguntou, emburrada: Que é que você qué?.
Respondi polidamente (sou muito educada): Gostaria de ver algo como... Um lenço (echarpe não!), um chapéu...
A garota, com a cara mais lavada do mundo torceu o nariz e disse: Não temos nada disso. Não tem?
Não.
Então outra coisa... Tipo... Brincos?...
Não.
Perfumes?...
Não.
Artigos para decoração?...
Não...
O mais curioso é que enquanto eu perguntava, apontava para as coisas da loja.
Atrás dela havia um cabide cheio de chapéus panamás; na vitrine deveria ter uns vinte tipos de perfumes, fora os brincos, os lenços e todas aquelas coisas para casa.
Enfeites?... Confesso que eu estava me divertindo um pouco.
Não... olha: nós-não-te-mos-na-da-dis-so, viu?!
Mas isso é impossível, uma loja que não tem nada!
Ah, é? Pois então trate de achar outra idiota pra te atender, eu tenho coisas bem melhores para fazer... E vê se não me enche o saco!.
Eu fiquei boquiaberta. Pisquei. Pisquei de novo e vi a garota virar as costas, passar pela porta por onde tinha entrado e batê-la, sem a menor cerimônia.
É, pois é, quando você pensa que já viu tudo, a vida prova que ainda há muitas coisas para descobrir. A minha primeira vontade foi a de subir no balcão, e gritar todas as ofensas que eu conhecesse nesse e em outro idioma e depois defecar sobre a caixa registradora. A minha segunda vontade me relembrou os tempos de infância, e nela eu ateava fogo à loja, à garota e ao RPatz, que estava na capa da revista da simpática balconista-de-longas-tranças-que-vai-todo-dia-ao-bosque-recolher-lenha. A terceira era vandalismo puro: encheria uma sacola com tudo o que pudesse, depois arrumaria os papais-noéis e as renas em posições comprometedoras e sairia, depois de quebrar uma vitrine.
Fiz a única coisa que alguém sensato poderia fazer:virei as costas e fui embora. E nesse estado de elevação espiritual no qual me encontrava, fui pras calçadas e antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa, senti algo gelado em cima de mim. Olhei e vi um garotinho chorando, sentado nos ombros do pai, segurando um copo de milk-shake vazio. Agora eu era o copo de milk-shake. A mãe do guri, com um sorrisinho amarelo no rosto, me dizendo: Aí, desculpa moça... É coisa de criança... Ele ficou nervoso.
É, era coisa de criança. Meu cabelo coberto de sorvete, minha camiseta, a calça, tudo. Pelo tamanho do estrago aquele milk-shake deveria ser de 1500 ml. Nesse momento eu já não acreditava mais na possibilidade de um Natal tranqüilo. Não, não foi nesse momento... Foi quando uma pomba parou na minha cabeça, atraída por algo misturado ao milk-shake. Ali eu desisti. Me arrastei, como pude, de volta pro estacionamento.
As calças grudadas nas minhas nádegas por causa do sorvete, o tênis quase caindo do pé e o cheiro enjoativo do morango. No meio desse quadro dantesco, eu erguia a cabeça, tentando manter um pouco da dignidade que me restava e, ao mesmo tempo, espantar a pomba, que não tinha a menor intenção de se mover de cima de mim.
O Rafa já estava me esperando no jipe e eu entrei sem dar muitas explicações e nem foi necessário, afinal eu tinha uma ave na minha cabeça, a roupa suja de sorvete e leite, as mãos vazias e nenhum resquício de felicidade no rosto. Ele riu um pouco e eu deixei, não havia como impedir e depois, com aquela carinha de dó que ele faz tão bem, pediu para que eu tentasse não deixar aquilo me aborrecer, já que não costumávamos ter muito tempo juntos como dessa vez e que iríamos nos divertir muito à noite e que ele tinha uma surpresa pra mim.
Uma surpresa?
Nem começa! Dessa vez você só vai ficar sabendo na hora, não adianta tentar me convencer...
Ah, Raphinha, me conta, você sabe como eu sou curiosa... Por favor, eu não agüento de curiosidade... Conta...
Não. Dessa vez não... Eu jurei pra mim mesmo que fosse o que fosse que você fizesse... Ou prometesse fazer, eu não iria contar dessa vez...
Tem certeza de que nada vai te fazer mudar de idéia... Eu já tô toda suja mesmo.
Ah, como você é desprezível, não? Um monstrinho. Não começa, eu tô dirigindo e nem isso vai me fazer mudar de idéia.
Nem isso?
Nem.
Ah, por favor... E fomos assim até a casa dos pais deles.



O que foi? O que mais seria necessário ela fazer para você ter uma reação? Me agarrar na sua frente ou isso ainda seria pouco?!
Entrou no carro e bateu a porta com força.
Calma, não vá desmanchar o jipe... Eu não tô entendendo Rafa, o que você queria que eu fizesse, hein? Tivesse uma crise de ciúmes e armasse um barraco?
Isso me pareceria razoável!
Você não esperava mesmo que eu fizesse algo assim?
É claro que não! Mas pelo menos tomar uma atitude, sei lá, levantar e ir embora...
É, e foi o que você fez.
O que EU fiz, mas era você que deveria ter feito, e não eu.
Eu fiquei sem reação, isso nunca me ocorreu antes. Eu achei engraçado como ela se atirou em cima de você, fiquei observando, sei lá, pensei em escrever sobre isso...
Oh,oh, devo ter dito algo muito errado, porque o Rafa freou bruscamente, me olhou e disse “Desce”. Bom, achei que não seria muito prudente discutir, então desci quieta do carro e fui pra calçada. Ele deu partida, andou uns metros adiante e voltou de marcha ré para o ponto onde eu estava, abriu a porta e disse “Sobe”. Achei que deveria fazer uma explanação a respeito desse ponto de vista extremamente machista do Desce / Sobe, mas pensei melhor e resolvi deixar quieto.
Eu juro que não acredito, se você tivesse levado uma cantada desse tipo, eu nunca pensaria em escrever respeito, pode apostar, eu não consigo crer...
Ficou quieto e eu fiquei também. Quando já estávamos na metade do caminho,faltando pouco para chegar em casa, resolvi falar.
Rafa, eu fiquei completamente sem ação, parecia um filme, foi muito engraçado e chato ao mesmo tempo, desculpe.
Você não sente nada?
Como assim?
Ciúmes, sei lá?
É claro que sinto, mas acho que esse tipo de coisa não leva relacionamento nenhum pra frente, entende?
Eu também não acho que o ciúme deva ser a viga mestra de uma relação, nem sou nenhum ciumento incontrolável, se fosse assim, não teria convidado o André para passar o Natal conosco...
Foi inacreditável! O Rafa olhou pra mim com uma cara de bosta, do tipo Eu não acredito que falei.
Ah, então essa é a surpresa ?!
Era.
É claro que eu não podia deixar quieto...
Consegui de novo! E sem precisar insistir, yes, yes, yes...
Depois de comemorar a minha vitória sem esforço algum, olhei pro Rafa e ele balançava a cabeça, dizendo Não creio, não creio.
afa, desencana, eu adorei mesmo assim...
Mas era pra ser uma surpresa... Eu não creio...
Desencana, eu te amo...
Sério?
Claro que é sério!
É que você diz tão pouco esse tipo de coisa, sei lá, que fica até esquisito ouvir.
É? Mas eu te amo e adorei a surpresa.
E quando vimos estávamos rindo e nos divertindo juntos e nem lembrávamos mais do episódio do shopping e nem da pomba (ah, da pomba eu lembrava um pouquinho, me afeiçôo fácil). Sabe, na realidade, eu queria ter triturado aquela Lia, feito ela engolir o cigarro ou apagá-lo na testa dela, mas eu não diria isso ao Rafa, é claro.
Bom, deixem-me explicar melhor quem é o André. Ele é o meu melhor amigo. Ele estudou biologia, mas queria ser músico e desenhista. Trabalhamos num projeto juntos (se chamava Shadow), onde ele desenhava e eu escrevia, mas nunca terminamos. Fomos apaixonados um pelo outro durante muito tempo, mas nunca rolou nada (nos conhecemos
desde o ginásio). Foi sempre um relacionamento platônico, ponteado de desencontros. Ele se formou e decidiu se dedicar à biologia e à música, simultaneamente. Resultado: hoje vive na Amazônia, estudando o elemento música na cultura indígena local e já fazia uns três anos que nós não nos víamos. Ele e o Rafa acabaram ficando amigos.
Voltamos para a casa dos pais do Rafa, arrumei a árvore de Natal e fui consertar o chuveiro que havia queimado, enquanto o Rafa ajudava à Dona Sonia a preparar o jantar.
As coisas ficaram prontas e eu fui tomar o meu banho e me vestir. Achei que usar algo que não fosse uma 501 surrada e um tênis velho seria uma boa idéia. Lá pelas dez, a campainha tocou. Pude ouvir do quarto e ouvi também quando o Rafa exclamou André. Já estava quase pronta e me apressei um pouco para não deixá-los esperando. Bom, como eu disse, já fazia três anos que não via o André, e mesmo sempre nos correspondendo, não é a mesma coisa.
Quando entrei na sala, ele veio até mim, me pegou no colo e me abraçou apertado.
Que saudade, garota! Parece que faz séculos que não nos vemos... como você está? Deixe-me vê-la...
E recuou um pouco.
Você está linda!
Hei, não tem oculista onde você mora?
Você não muda... Nunca vai aceitar um elogio sem replicar, né?
Não.
Que bom, assim não deixa de ser a mulher mais charmosa que eu conheço...
André!
E ele me deu outro abraço. Fomos para uma salinha menor para podermos conversar. O tempo voou e quando vi, era quase meia noite. Falamos das nossas vidas, vimos que estávamos bem em dia um com outro, já que nos escrevemos todas as semanas, ele me contou mais alguns detalhes da vida dele na floresta amazônica com os índios, e das maravilhosas experiências que vivera. Eu não tinha muita coisa pra contar, só coisas sobre o trabalho e coisas que eu escrevera nos últimos tempos. Disse que ainda tentava tocar pra frente o nosso projeto, mas a passo de tartaruga, e ele me disse que iria adorar ilustrar novamente a história. Faltava muito pouco para a meia noite, quando a mãe do Rafa nos chamou para jantar. A casa estava bem cheia, vários parentes do Rafa, sobrinhos do Rafa, primos do Rafa... Me sentia um pouco deslocada e me parecia agradável poder conversar com o André. E jantar vai, jantar vem, fomos conversando, bebendo vinho e bem, o Rafa nunca bebe, mas parece que estava disposto a abrir uma exceção naquela noite.
Saímos da mesa e fomos abrir os presentes. Era um mar de papel a sala de visita, devia haver umas vinte crianças, todas elas muito animadas. Abri o presente do Rafa.
Rafa, eu não acredito! Você achou!
Custou muito, viu? Mas acabei encontrando... Curtiu?
Amei!
O Rafa me deu um livro que há muito tempo eu procurava. Eu o havia lido quando criança e havia adorado e depois tentei encontrá-lo para comprar, mas nunca o encontrei.
Era sobre uma múmia que falava francês.
Eu também trouxe algo pra você...
O André falou e mexeu numa bolsa grande que trazia a tira colo.
Espero que goste.
E me deu um embrulho improvisado numa folha de jornal.
Não deu pra embrulhar, eu não sei fazer isso... abra.
Um presente numa folha de jornal é bem do feitio do André. Eu abri e não conseguia acreditar no que eu via. Era lindo, cheio de tons de azul. Um colar indígena que cobria o pescoço e o colo. Todo mundo na sala ficou quieto, e ouvi comentários dos convidados, tipo: Nossa, é lindo, Impressionante, Você nunca me deu algo assim.
Até eu que não gosto de nenhum badulaque, fiquei boquiaberta. Na hora puxei o cabelo pra frente e pedi para que ele o colocasse em mim. Era pesado e tinha um cheiro forte e hipnótico de flor.
Que tal?Perguntei.
Ficou maravilhoso...
Lindo.... Todos gostaram... E eu mais ainda.
André, é lindo, eu amei...
Foi uma índia minha amiga que fez. Eu pedi para que ela fizesse o colar para a mulher que eu mais adoro; pedi que fizesse o mais bonito colar que ela já tivesse feito, e acho que ela conseguiu, pois disse que esse seria o último, que não faria mais nenhum, que havia chegado ao ápice da sua capacidade e não conseguiria superar o seu limite...
É realmente maravilhoso... Bom, o Rafa não conseguiu esconder de mim que você viria, então eu também comprei algo. Espero que goste. E entreguei uma caixa num embrulho colorido pra ele. O que é?
Abra.
Tô com medo... O que será...?
E sacudia o embrulho.
É uma bomba? Não parece...
Abre!
Eu havia comprado vários conjuntos diferentes de lápis, papéis, crayons, tintas acrílicas, a óleo. Ele adora desenhar e pintar.
Assim você desenha seus índios da maneira que você os vê...
Ah, eu nem sei o que dizer.
Não precisa dizer nada, você me deu o presente mais lindo do mundo, eu só comprei material de educação artística pra você.
Ele abraçou de novo. Dei pro Rafa uma mochila nova para acampar (a dele tava um lixo) e um livro que eu queria muito ler. Acho que ele curtiu. Todos pareceram gostar dos presentes e um pouco depois, voltamos para a salinha e fomos escutar um pouco de música. O Rafa já com os poucos goles que havia tomado, já estava muito mais falante e
expansivo do que era, meio já mais pra lá do que pra cá, se aproximando de Bagdá. Sentei com o André no sofá (o rosa) e conversávamos e de repente, só por ele ter posto a mão no meu rosto, o Rafa se levantou da poltrona, falando aos tropeços, disse:
André, eu tenho muito carinho por você, mas é melhor você tirar a mão dela, senão eu serei obrigado a te meter a mão na cara.
Eu pisquei e olhei pro Rafa. Definitivamente, aquilo não podia estar acontecendo.
Calma Rafa, tá tudo bem, eu não vou arrancar pedaço dela...
O problema não é arrancar, é por...
Mas eu não vou fazer nada.
Eu sei, mas mesmo assim, é melhor
E eu no meio, olhando de um pra outro.
Rafa, você sabe que eu nunca faria uma coisa dessas...
André começou a argumentar.
Eu tenho certeza que não, André, mesmo sabendo que você sempre foi apaixonado por ela. Você é um cara muito bacana... Só procure me entender.
Rafa falava embolado e eu sem entender nada.
Eu entendo, entendo perfeitamente.
Como assim?
Eu perguntei sem entender nada.
Sim, eu te amo, mas você está com o Rafa. É isso o que eu pago por ter dormido no ponto.
Nossa, foi tudo muito rápido. Só ouvi o Rafa esbravejando:
Dormir no ponto?! Você vai ver o que é dormir!
E fui tentar separá-los, mas quando me interpus diante deles, levei um de direita, que literalmente, me fez perder o rumo. Demorei um pouco pra saber se estava sentada ou grudada na parede. Caí no chão e fiquei atônita, e quando os dois perceberam que haviam me acertado e não um ao outro, se puseram de joelhos, pedindo desculpas. Eu os encarei com o olho que ainda não estava roxo.
Me deixem, os dois! Não quero falar mais com vocês.
Levantei e fui pro quarto. Eu não sabia se ria ou chorava. A situação era tão absurda, e seja lá quem tivesse me acertado, tinha muita força e eu já sentia minha cara latejar. Eu não sabia o que pensar. Primeiro o André, que fora sempre meu amigo mais próximo, depois a atitude do Rafa. Acho que a festa acabou. Ouvi o seu Alfredo despedir-se várias vezes, e depois, quando tava quase conseguindo dormir, umas batidinhas na porta me acordaram. Ouvi a voz do Rafa perguntando se podia entrar, eu respondi que não. Ele pediu novamente, disse que estava muito envergonhado e queria se desculpar...
Se desculpa daí mesmo!
Ouvi um soluço. Pensei um pouco e resolvi abrir a porta. Vi aqueles olhos castanhos aveludados, avermelhados por causa do choro. Voltei pra cama e ele se sentou do meu lado.
Olha só o seu olho, o que foi que a gente fez?! Me perdoe, meu amor, sei lá o que me deu, por favor... Eu me sinto péssimo, você sabe que nunca encostaria um dedo em você, nunca...
Eu sei Rafa, isso é o de menos porque foi realmente sem querer, mas o problema é as coisas chegarem a esse ponto. Por que você foi dizer todas aquelas coisas?
Ah, o André havia conversado comigo há um tempo atrás. Disse que sempre fora apaixonado por você e que não achava justo que eu não soubesse.
Mas eu não sabia! Eu achei que fosse coisa de adolescente. Ele nunca mais havia me dito nada, ou insinuado...
Eu sei, eu sei. Ele disse que sabia que pra você as coisas estavam bem resolvidas, e que eu não deveria me preocupar. Mas que ele se sentia de outra forma e que se um dia eu não estivesse com você, ele tentaria se aproximar.
Por que ele não me disse nada disso? Eu não sabia de nada!
Rafa me olhou com ternura.
Se você soubesse teria mudado algo?
Não, não querido, não teria.... Não é isso. Mas não sei, é estranho. É estranho saber algo assim depois de tanto tempo, algo que eu nem imaginava. E mais estranho ainda do jeito que foi, com vocês dois se pegando como dois colegiais.
Foi horrível, né?
Foi.
O André também pediu desculpas, mas achou melhor que eu viesse conversar com você primeiro e que vocês se falassem amanhã, com as coisas mais esclarecidas.
Ah, querido, que situação ruim pra vocês dois, não?
Um pouco... Mas eu sempre imaginei, ele sempre te olhou com tanto amor, que era meio impossível que não fosse amor mesmo.
Eu nunca imaginei...
Você é assim, só percebe quanto o sujeito te lasca um beijo.
Tá me chamando de tonta?
Não, não... Mas você é muito aberta a todo mundo, muito receptiva, e acha normal as pessoas reagirem assim... Mas eu te conheci assim, não quero que você mude.
Não quer?
Não, não quero não... Você me aceita, mesmo que eu seja um ciumento psicótico incontrolável.
Até parece...
É, mas hoje eu fui...
Hoje é Natal, vamos dar um desconto, que tal?
Me parece uma boa... Você tem certeza que não prefere ficar com o André, que é um cara super interessante e que conhece o Brasil todo, que trabalha em prol das minorias e que, ainda por cima, desenha bem pra caramba?
Rafa, amo o André. Muito mesmo. Mas eu realmente tenho as coisas bem definidas. Você é o meu companheiro de jornada.
É bom ouvir isso.
Que bom...
Você está bem?
Examinou o meu olho roxo e voltou a pedir desculpas.
Tô bem, só dói quando eu rio.
Então não ria... Acho que você quer ficar sozinha, né?
Quero, preciso de um tempinho pra digerir a ceia de Natal.
Hum, você vai escrever?
É possível...
Tá, não vou te atrapalhar...
Foi até a porta e voltou. Me deu um beijo e disse Feliz Natal.
Sabem? Pensando bem, não foi um Natal tão horrível assim. Meio sinistro o lance com o André, mas conversamos e bem, apesar de inesperado, acho que há muito carinho entre nós. Me senti estranha ao ouvir que não poderia fazer alguma coisa para que um amigo meu se sentisse melhor, mas ele é muito sensato e não me cobrou nada. Garantiu que as coisas sempre serão assim e não duvido. É meio louco imaginar que eu nunca havia percebido nada, devo ser muito toupeira. Tivemos uns dias bem legais lá, e voltamos pro Réveillon. André voltou pra Amazônia e disse que voltaria no meio do ano. Acho que foi um dos Natais menos ortodoxos que já tive. E pelo menos não vou me esquecer dele tão cedo.
Hoje já é dia quatro e acordei desnecessariamente cedo, tô aqui escrevendo. O Rafa ainda está meio borocoxo, mas sei que logo, logo, estaremos rindo de tudo isso... Estão batendo na porta... Deve ser o Rafa.
Tchau.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Jornais - parte 8

Bate a porta, deixa na mesinha a pasta e a bolsa, passa pela secretária e não sente motivação para ouvir os recados. Vira à direita, segue pelo corredor e entra na sala.
Ah! Rafa! Esqueci!. Bate com a mão na testa.
É, eu sei... Fiquei esperando... Aí comecei a achar estranho e resolvi ligar pra você, seu celular tinha ficado no escritório e me disseram que você havia saído há uma meia hora com um mocinho.
O Paulo, ah, desculpe...
Suspira e se deixa cair numa grande poltrona de braços altos.
...
Faz tempo que você chegou? Ainda tá de terno, sapato, até de gravata.
E vai apontando enquanto fala, franzindo o cenho devagar.
Eu fui te buscar, lembra? Talvez quem sabe você já tivesse terminado, devia ser umas oito, mas você ainda estava trabalhando, então eu vim pra casa, peguei uns filmes e resolvi te esperar. Esperei quatro horas! Você não acha que podia ter ligado ou sua mão iria cair se fosse discasse o  número de casa!?
Ai, Rafa, amor, foi mal. Eu me esqueci completamente. Não sei o que me deu...desculpa querido... Depois que fechei a redação fui até o Hajid com o Paulo pra ele se enturmar com o pessoal e perdi um pouco da noção do tempo, desculpa, eu devia ter ligado... Sabe onde tá o controle?
E dá a con¬versa por encerrada. Só ela.
Ah! Fantástico! Você MAIS o mocinho do almoço foram ao Hajid! Eu mesmo devo ter ido quantas vezes lá? Duas? Três? Em onze anos!
Você não curte... Só vai jornalista lá e...
E? E o que? Você tem vergonha de mim?
Hã? Vergonha? Algum dia eu me portei como se tivesse vergonha de você?! Eu tenho muito orgulho de você!
Ele se levanta, sobe a escada, entra no quarto e começa a tirar a roupa. Ela vai atrás.
Você é gentil, lindo, inteligente, é ótimo.
É? Então casa comigo...
Pega leve Rafa... A gente já mora junto...
Já mora junto... Isso é o bastante?
Pra mim é...
Pra você, pra você... Eu ainda quero me casar com você...
Eu não tô entendendo... Você tá bravo por que eu não quero me casar ou porque me esqueci por completo do que a gente havia combinado de manhã?
Pelos dois!
É muita coisa...
Tá, tudo bem... O casamento não vem ao caso. Agora. Mas a questão é que ontem você ficou no maior bode, se encheu de tequila, ficou largada no sofá de roupa e tudo, até sapato, porque um certo carinha havia entrado na redação e perguntado se você tinha um gato tatuado nas costas... E você tem! E eu adoro! E esse mesmo carinha, que parecia ser um estorvo pra você, logo no dia seguinte, por duas vezes (veja bem: DUAS VEZES) faz você esquecer da vida completamente... Esse é o caso!
Ele entra no banheiro e liga o chuveiro.
Rafa , eu sei que eu pisei na bola... Mas não é pra tanto... A gente sempre almoça junto e...
Que bom, né? Pelo menos eu posso almoçar com a minha mulher, sem ter que marcar hora ou perguntar pro Paulo... Ainda.
Rafa... Você tá com ciúmes?
Não, não tô!
Começa a se ensaboar.
Tá sim.
Entra no banheiro com uma toalha na mão.
Eu não tô com ciúme, entendeu?
Não, eu não entendi.
Eu estou indignado.
Indignado?
Sim, isso mesmo.
Você está furioso porque dei atenção pra outro cara, né?
Não é isso!...
É o que?
É.
É ou não é? Você tá me deixando confusa...
E se for?! Qual é o problema?
Nenhum, você só está tendo um surto sem nenhum motivo.
Sem motivo? Como você imagina que um homem se sente numa situação dessas?
Discurso machista não!
Não é isso...
Ela se escora no batente da porta e inclina a cabeça para olhá-lo...
Tá bom! Eu fiquei doente de ciúme, possuído, possesso, passando mal de raiva de imaginar que você tava almoçando com outro cara...
Credo, que horror... E eu já almocei com tantos caras?!
É, mas nunca se esqueceu de mim por causa deles.
Fecha o chuveiro. Ela alcança a toalha. Ele passa pela cintura e os dois saem do banheiro. Voltam para o quarto.
Eu juro que não sei o que dizer Rafa! Isso não é do seu feitio...
Ele abre o armário, pega um samba-canção e veste. Se deita na cama e liga a Tv, ela permanece de pé, encostada na porta do quarto.
Nem do seu, garota... Como ele é?
Como o que?
Como ele é?
Pra que você quer saber disso?
Eu quero só saber, não pode?
Mas pra que!?
Pra eu saber!
Ah, dai-me forças, Senhor.
Vocês conversaram sobre o que?
Um monte de coisas...
Que coisas?
Todo tipo, ele fala muito, não cala a boca nunca...
É expansivo...
Muito...
Hum, e de resto?
É bem jovem.
É, quanto?
Vinte e quatro.
É uma criança.
É, quase.
Quase?
Rafa!
Eu quero saber como ele é fisicamente.
Ai...
Ele a olha diretamente nos olhos.
Ela bufa. Ele não desiste.
Tá bom... Sei lá... o que você quer saber?
Sei lá, a altura.
Bem, ele é mais alto do que eu e mais baixo que você...
Quanto?
Ai! Sei lá, deve ser uns dez, quinze centímetros, um e setenta, um e setenta e cinco, por aí...  Amanhã eu levo uma fita métrica e te falo com precisão...
Hum... E o que mais? Cor da pele?
É branquelinho...
Branquelinho?
É, tem jeito de quem não toma sol nunca...
Como você?
É, só que menos verde.
Cabelos?
Castanho bem escuro...
Comprido ou curto?
Médio...
Médio?
É, médio, pelo ombro... Nossa, que coisa, como homem é esquisito, né?
Tudo bem.
Faz um muxoxo e puxa um travesseiro pro colo.
Tá, tem cabelo pelo ombro, cacheado, um pouco de barba, lábios bem carnudos, cara de mestiço sabe? Olhos amendoados e pômulos salientes... Tá bem feito o retrato falado?
Até demais... E os olhos?
Já disse, são amendoados.
A cor.
Hã... São azuis.
Ah!! Não!
Afunda a cara no travesseiro.
Eu não acredito, era tudo o que me faltava, um rival de olhos azuis. Pronto! Leva!
Rafa para! Esse surto é por causa do seu sangue italiano que resolveu se pronunciar todo de uma vez?
É!
Você ficou bobo? Não tem nada a ver e ele não é teu rival.
Senta na cama.
Vai me dizer que ele não te cantou?
Rafael, chega! E ele não me cantou.
Todos os homens cantam você...
Você é psicótico e ele não me cantou...
Duvido...
Não me cantou, não... Só perguntou como você era.
Viu!
Viu o que?
É o começo! Primeiro sonda pra saber como é o adversário...
Como você fez...
É, quero dizer, não! Eu só queria saber... Ele não. Ele vai se tornar seu ami¬guinho, indo aos mesmos lugares que você, se torna gentil e quando você menos esperar, ele vai estar abrindo a sua geladeira e comendo o que tem dentro!
Bela metáfora.
Mas é a mais pura verdade... E o que você disse?
Ela se deita também.
O que eu disse do que?
Como você me descreveu?
Hum. Eu disse que você era atlético e lindo, o dono dos mais belos olhos castanhos da face da terra, que tem um nariz lindo, uma boca macia e gostosa de beijar, simpático, inteligente, educado, cavalheiro, instru¬ído nas belas artes, amante da boa comida e da boa bebida, gentil, compa¬nheiro, agradável, que tem uma bunda linda, que é ótimo de cama e que perto do que nós dois fazemos, Marquês de Sade era fichinha.
Hum. Você disse isso?
E ainda mostrei uns vídeos nossos...
Boba...
Eu, né? Eu disse que você era atlético e inteligente...
Você acha?
Desde o primeiro dia...
Certeza?
Ai, ai, ai, tá rolando uma necessidade básica de confete... Vem aqui, vem... Hum, e agora tá mais calmo?
Deita-se e ele se recosta no seu ombro.
Tô... Tô mais calmo e no melhor lugar do mundo.
Que bom ouvir isso.
Desculpe, eu fiquei mais bravo do que devia, sei lá o que me deu...
Me desculpa, dei mancada mesmo.
Vamos começar de novo, tá bom?...
Vamos...
Oi! Como foi o teu dia?
Foi legal...
Você me disse o mesmo sobre o dia de ontem e de antes de ontem e dos outros anteriores nos cinco anos passados...
É, todos são basicamente... E o seu?
Legal.
É, e o que você fez?
Tô trabalhando em outro caso de uns desmatamentos irregulares, só de pensar me dá uma aflição, nem queira imaginar.
Por que, Rafa?
Você sabe como é complicado exercer direito ambiental, é quase impos¬sível. Tem sempre algo permitindo o que não deve ser permitido e, além do mais, temos que lidar com impasses burocráticos. É uma merda, mas quando dá certo vale a pena
Eu sei exatamente como você se sente, eu espero que esse dê certo.
Eu também.
E se eu puder te ajudar, não se esqueça do peso da imprensa.
É claro que você vai poder me ajudar... Só de pensar no trampo que vai dar, me dá uma preguiça e uma vontade de tomar outro banho bem quente...
Sabe que eu adoro quando você faz isso?
Faço o que?
Põe a roupa ainda meio molhado...
É?
É e você sabe e faz de propósito...
Não faço não!
Faz sim...  Aquela proposta ainda tá de pé?
Que proposta?
“Exercícios”?
O que você acha?
Então vou tomar um banho...
Desencana, deixa pra depois... Você vai suar mesmo...