quinta-feira, 28 de abril de 2011

Jornais - parte 7

Você tá brava comigo?
Não, por quê?
“Grande com pelos em volta dos olhos...”
Desencana.
Posso ir com você?
Pode, o elevador não é meu.
(nono, oitavo, sétimo andar.)
Ó, eu tô me sentindo muito mal com o que aconteceu ontem, sabe? A história do gato e tudo mais?
Hum, sei...
Eu até tenho tatuagens também, nenhuma é um gato cor-de-rosa, mas...
(ela o olha com o queixo pro lado, ele en¬gole a seco.)
Tô piorando as coisas, né?
(ela concorda com a cabeça.)
Bom, deixa eu começar de novo.
(quinto, quarto...)
Acho que a gente começou com o pé esquerdo e eu não queria que ficasse assim. Porque eu achei você muito legal e vamos nos ver todo dia, e talvez a gente fique amigos e...
(ela o encara séria)
 Hã, que tal almoçarmos? Claro que não como um almoço tipo “encontro”. Um almoço tipo só almoço, entende? Já tá na hora, né? Pelo menos é o que o meu estô¬mago diz... Que tal, hein?
(térreo)
Eu pago!
(plin. A porta se abre e eles cami¬nham para fora pela porta da entrada do prédio. Ela:)
Almoço? Hum, sei lá...
Vai, eu vou me sentir melhor... Por favor.
Você é uma figura, viu?
Isso é um elogio?
Não, ainda não é...
Legal... Gostei desse ainda, significa que pode ser que mais pra frente...
...
Eu não paro de falar, né?
Não, não para mesmo...
E você não vai querer almoçar comigo?
Ah, tudo bem, tem um restô muito legal aqui pertinho.
Que ótimo, nem acredito...
Mas cada um paga o seu, tá bom?
Tá.
E você tenta ficar de boca fechada, pelo menos enquanto mastiga, pode ser?

Pode.




quarta-feira, 13 de abril de 2011

jornais - parte 6

Oi.
Oi.
Pô, desculpe pelo que aconteceu ontem. Eu fiquei muito sem graça, não devia ter dito aquilo.
Tudo bem, você não era obrigado a saber que eu tinha um gato cor de rosa tatuado nas costas, né?
Eu sei, mas foi mal... Desculpa.
Desencana...
...
Então, onde você estudou?
Na USP.
Hum, também estudei lá... O que você está fazendo aqui?
Como assim? Aqui é o melhor lugar para se trabalhar, não é?
Não sei, pergunte para a múmia da mesa ao lado... Esse jornal já é pa¬trimônio histórico, foi tom¬bado pela secretaria da cultura...
Você é engraçada...
Imagino o quanto eu devo ser engraçada... Não creio que você veja pes¬soas caindo de cadeiras todos os di¬as...
É, isso é meio difícil...
...
Mas sabe? Até que você  caiu com classe
Com classe?
É, muita.
Isso é muito reconfortante...
É sério! Eu, por exemplo: teria ficado estatelado no chão. Pronto, ali, despencado como uma jaca... Uma coisa horrível...
É? Hum...
Mas você não. Levantou rapidinho, nem deu pra perce¬ber...
Vou fingir que ajudou, tá?
Mas é verdade, juro!
Cara desencana, tá?
Tudo bem... Tô atrapalhando o teu serviço?
Não, agora você é o meu serviço.
Eu devo me apavorar ou não?
Você escolhe...
...
Tô brincando... Acho que você sabe que eu fui esco¬lhida para ensinar as poucas coisas que você precisa aprender, um treinamento, sabe? Creio que a faculdade te ensinou alguma coisa, não?
Bem, digamos: pouca coisa.
Você trabalhou antes?
Fiz estágios em vários jornaizinhos da cidade, eles até me ofereceram emprego, mas nada me interes¬sava... Até que fiquei sabendo dessa vaga aqui. Eu não acreditei, nem pensei que pudesse preenchê-la, dei sorte.
Isso é o que você pensa... Por que todos querem vir pra cá? E você tem uma ficha exemplar, um currículo e tanto...
Eu me esforcei...
Tô vendo... O melhor da turma... Não pensou em ir pro exterior, ser correspondente, algo assim, assessor de imprensa? Você tem referências incríveis.
Eu morei fora por dois anos, no colegial. Estranhei muito, gosto daqui, sabe? E queria adquirir mais experiência.
Tá... Olha, eu fui escolhida contra a minha vontade porque acho que não sou a pessoa adequada para fazer isso, mas infeliz¬mente (e cara, não tem nada haver com você) meu chefe, que agora é seu chefe também, pensa diferente, então sei lá,  vamos ver o que a gente consegue, tá?
Por mim tudo bem... Mas antes me esclarece uma coisa. Por que todos ficam olhando pra cá?
Você quer dizer “todas”?
Quero?
Não sei, quer?
É, pode ser...
Bem, dá uma olhada nos outros caras...
Que é que tem?
O que é que tem? Ou eles são velhos ou são barrigudos, quando não são os dois e o Elias não é bem do ramo.
Hum, isso significa o quê, exatamente?
Significa que você é a carne mais fresca daqui. Elas estão te co¬mendo com os olhos, mas não fique muito convencido, viu?
Eu não vou ficar... E você?
Eu o que?
Gosta dos barrigudos ou tem namorado?
Por quê?
Só pra saber, não pode?
Pode...
Então?
Tenho namorado e ele é lutador de sumô.
Uou! É barrigudo...
Tô brincando... O Rafa é advogado e se ele souber que o chamaram de barrigudo ele tem um treco.
Tipo atlético?
E como...
Como ele é?
Que raio de pergunta é essa?
Ah, a gente vai trabalhar junto, não?
Sim, mas eu não preciso saber a cor da sua cueca pra trabalhar com você.
É branca.
Hã?
A minha cueca.
Eu vou matar o Elias...
Mas como ele é?
O Elias?
Não! O seu namorado...
Ai, meu Deus...
Vai, não é tão difícil assim.
Não, não é... É pior...
Não custa nada...
Tá. Olha, ele é uma mistura feliz de Billi Zaine e Keanu Reeves... Só que tem cérebro.
Hum...
Hum...
Sem chances então da gente jantar juntos hoje. Vou anotar isso... Preferia que fosse ele barrigudo...
...
Você gosta muito dele...
De quem? Do meu namorado?
Não, do Elias.
Gosto. Gosto sim e você também vai gostar, com certeza. Ou você acha que qual-quer cara iria pôr recém-formados pra trabalhar aqui? Ele curte apostar nas pessoas.
E ele deve acertar, não?
Sempre.
Foi assim com você?
Hum, você já vai começar?
Eu só estou curioso.
Foi, mais ou menos. Como sabe?
Ele me contou.
Ah! O Elias...
Como foi?
Você é terrível, sabia? Tem certeza que não curtiria ser auditor da receita? Faria sucesso...
Vai, vamos lá... Pra quebrar o gelo...
Há coisas bem mais interessantes...
Mas eu quero saber.
Ah. Eu não agüentava mais, tava semi-empregada e precisava de um traba¬lho, mas na minha área, porque nas outras, nossa! Já tinha tentado de tudo: garçonete, baby sitter, entre¬gadora de pizza, até tive uma banda. Mas não dava certo. E um dia eu tava no barzinho que costumo fre¬qüentar, o Hajid. Tava desesperada, cansada do bande¬jão, da mora¬dia e de um monte de coisas e lá apareceu o Elias. Pediu um café com pouco açúcar e me encarou. Me olhou com aquele jeitinho dele e me disse : “O que está acontecendo, jo-vem?”. Nossa, eu já pensei “Mais um sujeito empertigado que se acha no di¬reito de chamar de jovem”. E perguntei: “Você quer mesmo saber?”. Ele tomou um gole do café, me encarou e falou “Se eu não quisesse teria perguntado?” Fui pega desprevenida e acabei falando.
Falou o que?
Ah, que tava sem emprego, sem grana, detestando Sampa (o que me corroia por dentro) querendo que caísse um meteoro na moradia e que eu não precisasse voltar pra lá e para a faculdade, que pelo visto, não ia me levar a nada! Eu tava à beira de um ataque de nervos... Ele acabou de beber o café.
“O que você estuda na faculdade?.
Jornalismo.” Respondi.
“Hum, jornalismo... Sabe garota, eu não costumo me enganar com as pes¬soas. Você es¬creve alguma coisa?.
Escrevo... Quer dizer, é claro que eu escrevo! Ou você acha que entrei na faculdade por engano?
Muitos entram...
Mas eu não.
Você não?... Hum, então faz o seguinte, vem comigo... Você pode?” Naquela época eu podia tudo. E fui com ele. Quando cheguei na recepção e comecei a me ligar quem era o cara que estava falando comigo, eu não acreditei. Ele me le¬vou para sua sala e me pôs na frente do PC e me mandou escrever. Eu perguntei, meio espantada, se ele queria que eu escrevesse ali, na hora e ele disse que sim. Eu disse que poderia trazer alguma coisa já escrita mas ele falou que preferia assim, queria ver como eu me sairia sob pressão. Bom, eu me saí bem e cá estou eu.
Uau, que coisa, não? Você teve muita sorte.
Tive, muita mesmo.
Você tem mo¬tivos pra gostar dele, ele jogou alto com você... Você é muito jovem...
Nem tanto.
Posso saber o quanto?
Você não se cansa?
Não.
Isso lá é pergunta que se faça à uma mulher?
Não faço distinção entre os gêneros...
Trinta e três.
Não creio?
Não?
Não! De jeito algum, me deixa ver os documentos... Achei que você fosse da minha idade!
É o formol... E o veneno de rato no cigarro.
Você fuma?
Tentando parar, só não descobri como...
Eu tenho vinte e quatro, tô me sentindo meio oprimido...
Não se sinta... Logo isso vai passar, você vai ver... Bom, eu tenho que te explicar algumas coisas sobre o uso do material, essas bobagens, e também sobre os horários, mas nada muito difícil... Você pega logo.
Que bom...
Que bom o quê?
Pensei que você iria arrancar o meu braço e bater com ele em mim.
Você pensou isso?
Pensei.
Hum...
E ainda bem que você não é como eu imaginei...
Como?
Grande com pelos em volta dos olhos...
“Grande com pelos em volta dos olhos?”. Isso merece uma pausa para o café.     

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Fundação

Hoje não me sinto cidadã. Cidadã de nação alguma, de país algum. Desejo esquecer o idioma que falo. Desejo me desfazer de qualquer coisa que me caracterize e que indique, mesmo que de forma remota, que eu compactuo com o mundo ao meu redor.
Enlouquecemos.
Essa é uma carta de repúdio. Repúdio à atrocidades, repúdio à conivência, repúdio à impossibilidade de se viver em paz. Peço que nenhum filósofo de plantão se levante esclarecendo que a paz é um conceito relativo e que isso e que aquilo. Respeitem a minha condição de ser vivo apenas, não quero racionalizar, não posso elevar meu medo à transcendência. Calem-se todos os que dirão que o ser humano é imperfeito e que nossa angústia é lírica. Vocês também sentem dor, também sentem medo e tenho certeza que correm ao ouvir um disparo. É ao estampido, à corda no pescoço, ao abuso sexual, ao desvio de verba destinada a erguer um hospital, ao mau professor, a falta de empatia e compaixão que eu dirijo minhas palavras.
Não é possível não se fazer nada.
Não é um problema da nossa pátria amada tão desgarrada e que nos pari aos milhões, é global. É a única coisa realmente democrática nesse mundo: a selvageria e a estupidez humana. Culpem quem quiserem culpar, isso não altera em nada. Se não é o governo, é a desigualdade, a condição humana. É tudo.
Não vamos culpar ninguém, foi dito, não fará diferença. Vamos nos responsabilizar pelo quinhão que nos cabe. Cada um de nós, brasileiros, americanos, suíços, japoneses, congoleses e todos os outros adjetivos pátrios que há, somos os responsáveis pelas dores individuais e coletivas. Em grande e pequena proporção.
Hoje me doeu ler que crianças foram mortas numa escola. E não sou uma fútil de me emocionar com o que é relatado, de forma sensacionalista e clichê, pela grande imprensa. Nem uma simplória de achar que essa é a pior coisa que possa acontecer. Sou uma hipócrita. Que hoje sentiu as bases de sua hipocrisia abaladas, já que a dissolução de nossa sociedade é tão clara, que nem mesmo eu posso fingir que não a vejo.
É evidente demais, é claro demais, é triste demais e é o suficiente. Não é possível viver de olhos fechados o tempo todo.
Ouvi culparem os islâmicos, a pobreza no país, a falta de segurança nas escolas, a existência de armas, mas alguém por favor desperte! Armas não se disparam sozinhas! Não é um problema terceirizado, não é um problema do lado de fora. É algo interno, é um problema humano, de conduta, de escolhas. Somos nós os problemas. Nossas escolhas, nossas postura enquanto indivíduos. Seria impossível descrever a bola de neve que uma atitude impensada pode ter. Mas são essas atitudes que nos remetem de volta à barbárie. De que adianta qualquer passo em direção a um futuro, se ele representa um retrocesso? Sociedades anteriores a era cristã eram mais equilibradas do que a nossa... E sociedades são compostas por indivíduos. O desequilíbrio é nosso. É seu, é meu, é de todo mundo. Nos tornamos um arremedo da evolução, crescemos ao contrário. Tecnologia nunca foi e nunca será sinônimo de evolução. É apenas poder.  Somos boçais.
Não há um único culpado por situações de atrocidades. Nada justifica o indizível. Hoje eu demonstro meu repudio ao indivíduo humano, à unidade transformadora que aperta o gatilho, que viola um outro ser, que se compraz na falta alheia, que se compraz com a dor alheia.
E a todos os organismos formados por essas unidades, aos meios de comunicação, aos governos e aos sistemas, às elites e massas dominantes, aos dominados e servis, aos bancos,aos mercados, aos carros, às sacolas plásticas, às igrejas, aos ignorantes, aos desumanizados, aos intelectuais, aos artistas, às artes, às necessidades, aos egoísmos, às instituições, a todos e todas: espero que daqui 500 anos quem olhe pra trás se arrepie com nossa brutalidade.

Calendário

Acabara de ler o que você escreveu. Um momento de silêncio me pareceu cair bem, mas eu não tinha mesmo com quem conversar então o silêncio perdeu o sentido... Ele já estava ali, não havia como trazê-lo. Pensei nas palavras agrupadas que me davam frio. A garoa e o enterro... Tenho medo de chuva e conclui, sabiamente, que sinto pena pela morte. É exceção. É o que confirma a regra e depois não podemos mais ser reinventados. Morrer é ter uma versão definitiva de nós mesmos e sermos impedidos de qualquer nova adaptação. Eu ando com medo de morrer.
De noite ponho a mão no coração e o sinto pifando de mansinho. Eu vou morrer como o meu pai, o diferente é que ele jogava futebol e eu, provavelmente, estarei me irritando por algo. Ou chorando com um livro ou me emocionando com um filhote de gato. Me tornei uma mistura de algo piegas e uma bailarina blasé. Nunca nada será tão blasé, para mim, como uma bailarina. Uma concentração desdenhosa.
Mas o que importa é que o coração tem dado problema mesmo. Não importa muito, na verdade, você já disse, mortos não têm problemas. Mas eu pensava nos vivos... Sou muito narcisista, imaginava que sentiriam minha falta.
Ontem precisei beliscar o meu braço para ter certeza que estava viva tamanho o breu no quatro e o barulho que se fazia ao meu redor e que era fictício. Era como passar por uma avenida enorme, uma via expressa e poderia ser assim o caminho entre o estar e não estar. Não, escuro sim, mas sem barulho.
E eu pensei em comentar o que você postara. Mas não. Dessa vez era impossível. Nem te direi que gostei porque alguém já disse e com melhores palavras. Me senti roubada.
Não seria eu nunca, porque não gosto do anonimato, mas foi pisar num caco de porcelana ler “evito cada dia me apaixonar por você”. Lá estava eu, de novo, joelhos flexionados a espiar pelo buraco da fechadura. Fechei a página com vergonha... Era escutar uma conversar particular no ônibus, roubar a senha do email de alguém ou apenas prestar muita atenção a um beijo entre dois desconhecidos... Devo até ter corado, porque sou tão ridícula que fico vermelha, denunciando facilmente qualquer constrangimento... Eu queria denunciar emoções. Queria eu poder evitar me apaixonar, não por ser fácil demais... Mas queria poder me apaixonar para evitar. Evitar e recuar e desmentir. E desejar.
Quando não se deseja é como viver numa constante neblina, vê-se o contorno de alguém chegando pela bruma, sabemos os olhos, a boca, às vezes tocamos o cheiro e essas coisas entre humanos, mas é tudo meio embaçado, meio irreal. Eu ando presa entre esses dois mundos... pode ser que eu ache que chegue alguém que me roube desse estado, mas é mentira. Tenho uma emoção sossegada, parada, parece um lago sem fundo, sem margens, escuro. Ah, eu já pensei tanto que um dia eu seria um mar... Também pouco importa, é apenas elucubração. Ela disse as palavras certas.
Ela.
Eu segurei a respiração pra ler de novo... E perversamente, procurei desenhar o que seria você pelas palavras que ela usou “Sujo, errado”. Aí ela emendou com “canalha”. Uma réstia de ofensa me percorreu porque o canalha sou eu. E pensei se você também seria e se seriamos irmãos, mas não poderia, não temos os mesmos traços e um canalha por família já estaria bom. Está.
Que juramento alguém dizer que gosta de nós como somos. Errado, mesmo errado... Eu já conheço as pessoas e entrego borrachas, talhadeiras, vai que não gostam do meu nariz.
Eu não teria como argumentar.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

jornais - parte 5

Bom dia... Que cara horrível!
Bom dia Rafa... Tô tão ruim assim?
Quer que eu seja sincero ou agradável?
Desencana.
E aí? Dormiu bem?
Mais ou menos, acho que peguei no sono no sofá... Não me lembro de ter ido pra cama...
Eu te levei...
Ah, obrigada.
Quer tomar leite?
Não, meu estômago não tá legal.
Foi tão ruim assim? Eu vi a mensagem que você mandou avisando que tava de bode e tinha ido pro Hajid... Nem quis conversar nem nada.
Sei lá, foi chato, sabe?
Quer pão?
Quero... O Elias contratou um jornalista novo...
Legal... Você vivia reclamando que a redação cheirava a mofo, alguém ouviu às suas preces... Geléia?
Não, manteiga... É disso que eu tenho medo, você conhece o ditado “Quando os deuses querem te punir, atendem às tuas preces”?
Toma, espero que goste...
Brigada, Rafa...  Me passa os jornais...
Mas e aí, como é o cara?
O cara? Sei lá, passei um carão que nem lembro da cara dele... Hum, o pão tá gostoso...
Tá, né? Hoje o padeiro tava de bom humor.
A noitada foi boa...
Pode crer, tava até assobiando alguma coisa que quase parecia música...
Ah! Rafa...  Nem todos têm o seu talento musical... Não seja tão crítico... Ele só estava feliz.
Tudo bem desculpe, eu não fui legal... Sou um menino mau... Devo ter acordado com o pé esquerdo.
Só espero que o Paulo não tenha acordado também.
Quem é “Paulo”?
É o molequinho que vou ter que paparicar...
Ah, então é por isso. Você tá brava por ter que ensinar as coisas de praxe pro cara... ISSO não é legal. Você entende pra caramba do que faz e não custa nada dividir com os outros...
Não fale assim, vou me sentir um monstro.
Mas você é um monstro... Meu monstrinho querido...
Rafa!
Nossa! Não se pode mais ser romântico?!?
Ah, não é só isso... E não foi por isso também que fiquei de bode... Ele vai ser meu parceiro de reportagens...
Como assim?
O Elias acha meu trabalho perigoso e que preciso de um homem para me proteger...
Mas você tem a mim...
Ai Senhor, me chicoteia... De repente virei uma menininha...
Minha donzela em perigo...
Nem donzela, nem em perigo, né? O cara é quase um policial!
Um tipo de segurança...
É, e intelectualizado...
Mas isso é uma boa idéia, por que você ficou tão chateada?
Gosto de trabalhar sozinha, nunca tive ninguém pra dividir o trabalho... Não assim, sabe?
Mas você vai ver, pode ser bom, não?
Não.
Querida...
Ah, e como se não bastasse, eu ainda tive a capacidade de cair pra trás, com a cadeira e tudo, quando o cara foi se apresentar.
Como assim?
É, desse jeito, fui levantar e algo não saiu como eu esperava e caí de costas.
Entendo...
Não ria!
E você quer que eu faça o que?
Tenha pena de mim.
Eu tenho, mas isso não me impede de rir...
Rafa!
Tá bom, eu paro... Mas garota, isso não é motivo prum bode desses, é? Dava pra sentir o odor tequila nº 5 lá do quarto...
Ainda não acabou...
...
Quando eu caí e o cara foi me ajudar e eu não deixei... 
Como já era de se esperar...
Para, é sério... Ele ainda zoou comigo e quando eu não deixei ele ver se minhas costas estavam bem, ele perguntou porque eu tinha tanto zelo com elas ou eu tinha um gato-cor-de-rosa tatuado e não queria que ele visse.
Que cara de sorte, né? Primeiro dia, duas dentro... Não queria estar na pele dele... Quer outro pão?
Não, já tô gorda demais.
Você tá um palito.
Não, não tô. Tô uma baleia, praticamente a Free Willy. E tenho que ir nadando pro jornal.
E eu pro escritório, mas não fique assim, tá? Foi só um tombo, uma brincadeira infeliz da parte dele, mas você vai ver, vai tudo ficar ok e vocês vão se dar bem. Te amo muito, viu? Sou o cara de mais sorte no mundo...
Eu também sou o cara de mais sorte no mundo...
Tonta.
Tonta, mas você gosta, né?
Amo.
Vai correr tudo bem, eu espero.
Qualquer coisa, liga pra mim.
Não se preocupe...
“Eu sei me virar”.
É...
Eu sei disso, mas é bom você saber que pode falar comigo a hora que quiser... Eu tenho que ir...
Eu também vou indo, a gente se vê no almoço, né?
Claro, eu te pego, quer?
Quero... Seria ótimo, não?
Me dá um beijo de “bom-dia-meu-macho-querido “.
Rafa! Você é incorrigível.
Eu sei... Te amo... Você tem mesmo que ir? Quero dizer, ontem você apa¬gou no sofá e bem, não nos vimos e...
Rafa, seu despudorado...
Ah! Tenho certeza que você iria gostar de um pouco de exercício pela manhã... Pelo menos iria melhorar o seu humor...
Ahã, ahã...
Mas ia mesmo...
Eu sei... Mas vai ter que ficar pra noite o nosso “exercício”, tô atrasada.
Tudo bem, vou ter que me contentar com isso, né?
Vai.
Tá bom então... Beijo.
Beijo... Tchau...
Tchau... Não esquece, vou te pegar pro almoço.
Não vou esquecer.