terça-feira, 17 de janeiro de 2017

As chaves de casa

Meu maior medo é que você venha 
Sem que eu perceba
É não conseguir mais me proteger de você
Do cheiro, dos dias,
É ter minha vida com cercas brancas novamente.
Meu medo maior é, além de te ver entrar na minha vida como névoa,
Que não se sabe de onde veio,
te ter de corpo e alma
É ouvir da sua boca
“Pra sempre”, depois de anos 
Ouvindo “de novo”
Isso me deixa em pânico
Imagine escrever pra você
e você responder?
trocarmos correspondência por décadas
Tenho pavor que seu olhar corresponda ao meu
Que saiba o que estou pensando pela forma que 
Eu deixo meus dentes debaixo aparecerem no sorriso
Eu tenho receio que você esteja pensando em mim nesse
Momento
Que esteja decidindo como me abordar
Me dá náuseas imaginar que posso te encontrar na rua,
Na casa de um amigo, numa saída pro bar.
Fico me protegendo e fingindo que você não existe
E me convencendo de que não sabe que eu existo
Meu medo é acordar ao teu lado
É envelhecer com você
É te ver esquecer o dia de ontem
Onde pôs as chaves, o nome do neto mais novo
Tropeçar no chinelo que virou
E esquecer os óculos de novo,
E de novo
E de novo
É esse tremor aí na sua mão
A tosse que demorou um pouco pra passar
Meu medo é essa tosse que não passa
Aquela que não passou
Foi essa receita maior dessa vez
Um remédio a mais
Meu medo é não poder ficar no quarto
O tempo todo porque o hospital não aceita
Acompanhantes
Só do mesmo sexo.
O medo foi voltar pra casa
Porque a cama quase me engoliu,
Eu também esqueci onde deixei o óculos.
O problema: não esqueci de você.
Meu medo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

ninguém nunca saberia
que choro sozinha
dores que cultivo no peitoril
da cozinha, da sala
que choro o tempo perdido
mordido por bocas estranhas
e de hálito, bafo, de coisas quentes
essas quenturas de entranhas,
de criaturas mordazes
que me assolam e solapam o chão
quando durmo
eu encostei meu pé no teu
o sono foi bom
o sonho não veio
foi fechar a janela no meio do temporal
a pergunta era clara
e se eu pedisse pra ficar?
mas ficar implica estar comigo
dessas gentes que choram
sem que ninguém saiba
que nutrem amores secretos
que guardam a última bolacha
achando que alguém vai chegar em casa
as dores eu escoo
o mar me escoa junto
de noite, todo pesadelo ecoa.
tenho mais que um mar aqui dentro

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O cientista

Meu amigo, eu só quero que você saiba que entendi
Sobre a minha pressa
Foi quase prece,
Mas no tanto que você estava perdido
Eu também me encontrava
E demoro muito pra mudar de ideia
Foi então, na noite densa,  sabendo que só você
Abraçaria
Eu entendi
Você me disse, de outro jeito: calma,
deixa eu juntar meus cacos pra me colar em outra coisa e me dar pra você.
Eu também estive, estava, permaneço desintegrada como
Uma granada
Alguém puxou o pino e me segurou forte na mão
Se eu tivesse cacos coloridos, te dava os meus
Todos eles
Embrulhava
Colava
Fazia a coisa bonita que tivesse pra te dar
Queria que você pudesse voltar ao ponto que perdeu o passo
Que eu voltasse ao ponto em que perdi o passo
E que mesmo assim,
Achando métrica entre nós mesmos,
A gente ainda se tornasse sem volta.
Só hoje eu vi o que você me disse
Ia te mandar uma mensagem te contando
Que daqui até pra sempre
Tem muito amor no coração
O formato não importa
Nem era pra ser assim
Senão não era incondicionalmente
Te amo

terça-feira, 29 de novembro de 2016

balzaquiana

Ela acendeu o cigarro.
Os olhos arregalados deixavam clara a conclusão: perdera o amor da sua vida.
Não esse último. Esse a perdera e era o amor da vida dele. Ela. Ele não.
“Otário”, gesticulou com força, esparramando uma lufada de fumaça por tudo quanto era lugar ainda vago no ambiente.
Ela usava esses termos, “panaca”, “bananão”. Achava que definia bem a sensação da inconsistência do caráter.
Mas o outro.
Não, não!
Ela perdera o amor da sua vida e tinha entendido numa mensagem não enviada de quase oito anos antes. Ele sentira ciúmes. Ela percebera?
Na época?
Ah, que tolice, ela não percebia nada. Estava nublada, morrida, um negócio feio que só vendo. Só entendeu todas as atitudes depois.
E o pior, era um ciúme sem tanto fundamento. Sem tanto porque, depois que se separaram, até houve algo entre eles, mas ele era gay, ela sabia. Cansou logo e foi se divertindo com quem pode.
Mas o buraco estava ali.
Grande, vermelho, com bordas putrefatas e latejava.
Teria sido em vão?
Nada era em vão, mas não dava pra voltar atrás.
Ficou ali, assim. Olhos arregalados, a fumaça do cigarro subindo, fazendo voltas.
E ela?

“Otária”.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Duas ou três coisas eu preciso te dizer:
lave as mãos.
mas lave bem.
lave de novo.
mais uma vez.

elas estão sujas, sempre estiveram
não fosse mentira, seria a lama
tanta que nenhuma barragem poderia espalhar

Aquele cara lá foi tudo aquilo, foi ruim, do começo ao fim. Ele se vangloriou por tantas amizades, por tanta carne nova, fresca, mais no sentido de insuportável do que de novidade.
E naquele instante, a moça, aquela, a moça que tremia por dentro, parou.

Ela somente tirou a camisa, caminhou até a porta da casa e saiu.
Não disse onde ia, não disse que horas voltava, não informou direção.
Se era triste?
já fora.
Agora olhava até soberba para o que restava ao redor.
Como bomba,
como gás
como um campo amassado por um tufão
o que lhe cercava não lhe interessava mais.

Ele?
Ainda lava as mãos.
Mas lava bem.
lava de novo.
mais uma vez.

Elas ainda estão sujas.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Deixe-me ir, preciso andar
Eu demorei, tentando escrever. Não queria que soubesse que é pra você, porque, lá em algum lugar onde moro em mim todos os dias, uma parte me avisa que eu não posso, nunca. O mesmo lugar onde te pus pra viver comigo também.
O que escrevo é pra avisar que vou te deixar sozinho lá, comecei a debandada louca, a corrida de Pamplona. Sigo para ver a Rambla e sigo só. Só, solta, feliz e triste.
Porque eu não moro em mim mais, moro onde não sei. Você me ocupou espaços e não conheço a palavra pra chamar por essa perdição.

Amor é um suspiro distante perto dessa força estranha que força meus pés não se moverem. Permaneça, dizem eles. E eu me rebelo, busco asas, busco bocas, quero outras, quero tolas todas as que puder alcançar e deixar a tua, no formato exato da minha, no formato do meu medo do teu peito aberto.

Fiorde



Tudo o que ela queria, hoje, era te beijar. Forte, lento, com música ao fundo. Qualquer uma daquelas.
Se respirava fundo, era só pra afastar essa ideia, e outra, e mais uma.
Porque agora a moça estava dividida. Aquela paixão platônica, aquela pessoa que não olharia na direção dela, olhou.
Olhou, olhou de novo. Se esperavam.
Qual dos dois?
Tomou mais um gole, mais um cigarro.
Pensou que não importasse o desastre natural, a política, a polícia, no fim, no seu fim, tudo se resumia aquele contato de peles. Não era alguém que consumiria pessoas, ela só queria fenecer.
A sua placidez, essa coisa de lago calmo, que ela já sabe bem que é mentira. Não engodo. Só que há mais coisa abaixo da superfície. Ela desenhou tudo isso, colocou ao lado daquelas fotos, da visita ao Peru, dele sorrindo com o cão. Dele amando a paz e a violência, com a sede de quem vai morrer daqui há pouco. Com a ânsia que a queimava da mesma forma.
Mesmo que ela te ame, rapaz, mesmo, agora ela anseia por aquela boca, as testas coladas, o ponto sem retorno, aquele toque, aquela mente. Não consumia pessoas, consumia mentes, assuntos, ideais.
E ele simplesmente se encaixava como uma peça feita a mão. Rústica.
Dois rústicos.
E ainda assim, quando pensa no seu ar bem perto, a respiração fazendo coro, ela estremece.
Não sabe bem o que vai escolher.
Ninguém sabe, a história ainda não estava escrita e ninguém conhecia o autor.
A temporada de caça estaria aberta, e ela... ela se faz de presa... só até a lua sair.
Tudo o que ela queria, hoje, era te beijar. E a ele também.