sábado, 20 de agosto de 2016

nem teu riso era mais o mesmo
eu te catava em cavacos, te juntava num espiral
quando percebi que já não estava lá
saindo, eu, à francesa
na mala tinha um peito, coração, algo
que já tinha sentido tudo e se esquecido
eu de novo esqueci o que era saber de tudo aquilo
voltei aquele lugar como quem volta pra rever um amigo
você não esperou
eu não sabia o caminho pra casa.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Inigualável

Sua mãe estava separando o feijão e já se preparava para refogar o tempero.
Nairobe sempre gostava de se aproximar lentamente e farejar o ar impregnado dos aromas de cominho, orégano, salsa e manjericão. O alho fritando na panela e o som da colher rapando o metal enquanto a mãe preparava o almoço.
Um ritual.
A comida ali era sagrada.
Naquele dia, ela demorou um pouco mais para chegar até a cozinha e ouviu a voz de sua mãe, rindo.
Rindo não, gargalhando.
Nairobe nunca ouvira aquilo, e para transformar sua surpresa em total espanto, escutara uma segunda voz. Um barítono grave. Uma voz de homem.
Eles falavam coisas que Nairobe não entendia.
Não era seu idioma, e também era. Ela sentia que se esquecesse de tudo o que já aprendera, se deixasse de lado quem era, tudo o que vivera e seu corpo, compreenderia perfeitamente o que estavam dizendo.
Aquela língua estava presa dentro dela. Não, fazia parte do que ela era. Seus órgãos, o intestino, seu fígado, seus ossos e veias falavam aquele idioma. Não Nairobe.
Ela não compreendia nada.
Ou quase nada.
Algo lhe subiu à mente - sim, porque parecia ter passado como uma onda por seus pés, pernas, joelhos, ter escorregado por sua barriga e achado espaço entre as costelas até correr gelado para sua mente - algo como "Você é linda separando feijão".
Linda? Aquilo fora dito para sua mãe...
Naquele impulso que ela nunca compreendia, avançou  e viu sua mãe sentada à mesa, os potes ao seu lado e alguns grãos ainda sobre mesa.
Linda?
Nairobe amava sua mãe, mas nunca pensara além disso.
Os olhos cansados, as asas apavorantes, a roupa surrada comprada em brechós e tudo aquilo que era sua mãe... "Linda" nunca fizera parte do pacote.
Mas.
Olhando da porta, sem ser notada, observando sua mãe com um pano de prato por sobre o ombro, Nairobe vislumbrou uma criatura diferente.
O cabelo fino esvoaçando, escapando de um coque improvisado, os fios escuros refletindo a luz do sol que entrava pela janela sobre a pia, se tornavam pequenos filamentos multicoloridos.
havia um arco-íris que estava e não estava lá.
Os olhos estavam sem o alo arroxeado e ela parecia nova, fresca, como alguém muito jovem no seu primeiro dia de férias.
Os olhos.
Nairobe prendeu a respiração.
Sua mãe sempre tivera olhos escuros e graves até aquele momento. Nairobe não podia distinguir a sensação que a impedia de se mover.
Os olhos eram violeta.
Nem roxos, nem lilases, eram violeta como as flores mais claras dos vasos no beiral da janela. Grandes, brilhantes. Olhos violeta.
Nada tinha aquela cor, exatamente.
E eram tão lindos. E sua mãe era tão linda. Ela sorria e seus dentes pareciam cantas canções relatando antigas paixões de um povo das montanhas.
Sua mãe parecia uma joia.
Nairobe percebeu os cabelos mudando de cor, conforme ela sorria, e ainda não conseguia decidir se achava que sua mãe deveria sorrir mais.
Se aquela era sua aparência ao sorrir, seria completamente impossível manter-se alheio a ela. Seriam descobertos...
Essa foi a primeira vez que nairobe pensou sobre isso. mas não a última.
Poderia passar o dia ali, talvez um ano, talvez uma década ou quem sabe duas, porque tudo a maravilhava.
Só conseguiu pensar novamente quando escutou a voz de homem, ainda no idioma secular.
Ela olhou ao seu redor, aflita. Não havia ninguém com ela. Apenas...
Nairobe amava os animais, mas sabia que eles deveriam ser mantidos nos lugares adequados.
Empoleirada sobre a mesa estava a tal pomba de penas encaracoladas.
Nairobe sentiu um ligeiro incômodo e pensou se o feijão estaria próprio para o consumo.
Mas sua mãe... sua mãe sabia o que fazia, não?
Deu dois passos e os olhos violeta se fixaram nela. Nairobe abriu a boca e assim ficou.
- Nairobe, está com fome?
O cabelo estava voltando a ser escuro, mas os olhos continuavam violeta.
A menina se forçou a responder:
- Um pouco, mamãe.
- Em pouco tempo estará tudo pronto - a mãe respondeu, se levantando com a bacia de grãos selecionados.
- Mamãe?
A mãe se voltou, os olhos já estavam negros, mesmo que descansados.
- Sim, Nairobe?
- Ha... não há problema da pomba estar pousada na mesa?
- Nairobe, não se preocupe, eu sei me portar.
A voz do homem respondeu. Mas não havia homem.
Nairobe teve um sobressalto.
- A pomba fala?
- Hei, mais respeito com a pomba -  a mãe disse firme, sem estar zangada de fato -, ela é o seu pai.

Inegável

Nairobe, de certa forma, percebeu algumas mudanças no ar.
Não, ela não era como as outras crianças que trocavam dentes, perdiam roupas e sapatos de mês em mês. Nairobe não se sentia diferente.
Mas era.
Contudo, desde todas suas recentes descobertas, sentia uma mudança interna. Ela não encontrava as palavras, mas sentida como sua mente fosse um elástico que fosse se esticando até muito longe dela e depois voltasse, num estalo , a ser exatamente o que era.
Se fosse com outra pessoa poderíamos dizer que estivesse crescendo.
Rodolpho passou a amedrontá-la a tal ponto que evitava permanecer perto dele.
A pior sensação é que Nairobe tinha quase certeza de que ele a detestava na mesma medida do medo que infundia nela.
"Perverso" foi uma palavra nova que aprendera na escola naquela semana e se perguntou como passara tanto tempo sem sabê-la.
Outra coisa que a deixara perplexa por aqueles dias foi notar, numa tarde, à contra luz, que algo surgira por detrás dos ombros do irmão...
Quase incolores de tão translúcidas: duas asas carmim.

Incompreensível

Nairobe passou vários dias pensativa.
Talvez a lâmpada da cozinha queimada, talvez a discussão com uma das coleguinhas de classe.  Mas ela sabia. Eram aqueles olhos cinzas e opacos que seguiam sua mãe com um estranho tipo de ...
Qual seria a palavra?
”Devoção” parecia simples.
Era o olhar de um capacho contente com a profissão. O que ficava mais assustador recoberto pela postura beligerante que ele sempre mantinha. Seu ar, também, de pouco caso, o cigarro sempre aceso e graciosamente pousado entre os dedos longos e torneados.
Tudo em Rodolfo deveria ser bonito. Menos aos olhos de Nairobe.
Para ela ele era apenas... assustador.
Ela percebera que Rodolfo dirigia agora um delicado desprezo mais a ela que ao irmão. Como se ele a detestasse por ter descoberto seu segredo.
A mãe não mudara em nada. A mesma tensão ao voltar para casa, cedendo espaço àquela delicada cerimônia de todos os dias.
Nairobe se sentia Amada. Porém, um tanto desprotegida.
Um outro fato inusitado ocorreu na semana que se seguira.
Enquanto a mãe terminava de lavar a louça e jogar um pouco de água nas plantas secas dentro dos vasinhos no parapeito do vitrô (todos os vasos de sua mãe continham pequenos tronquinhos retorcidos, sem folhas ou brotos, mas que pareciam se modificar de um dia para outro), uma pomba chegou e pousou na mão magra e ainda mais pálida à luz do dia.
Sua mãe não teve um sobressalto sequer. Enxugou a mão livre na barra da camiseta e acariciou a ave que voou e pousou no encosto de uma das cadeiras da cozinha.
Era uma pomba incrivelmente branca. Não como as asas de Rodolfo, que reluziam douradas, ou as de Anna que pareciam de neve. Era uma cor que não existe. Um branco absoluto, como feito apenas para cobrir aquelas penas. E havia também algo de diferente naquelas penas.
A partir daquele dia, a ave passara grande parte do tempo, ou pousada no ombros de sua mãe, ou nas redondezas do prédio onde moravam.
Nem seu irmão, nem sua mãe demonstravam espanto ou dúvida. E Nairobe teve a impressão de ouvir o pássaro conversar com sua mãe naquele idioma estranho no qual ela possuía um nome. Mas Nairobe era criança e sempre desconfiava de suas primeira impressões.
Até mesmo Rodolfo, no jantar semanal, não pareceu estranhar a presença da ave. Pareceu não estranhar, mas seus olhos cintilaram de ódio ao se dirigirem ao pássaro.
Nairobe não conseguia compreender como alguém poderia desgostar tanto de um animal. E também sentia um desconhecido mal estar, como se sua realidade houvesse sido subvertida.
Mal sabia ela que seus problemas apenas começavam, anunciados pela chegada daquela pomba.
Uma pomba de penas encaracoladas.



Indescritível


Nairobe respirou fundo.
O final daquela aula de balé se arrastava, incômodo. Já era o sexto ou sétimo ano em que se encontrava no primeiro ano. Como os anos passavam diferente para ela, estava presa aquele eterno início.
Ela se sentou entediada. Um, dois, três, um dois, três. Adorava brincar com outras crianças, mas hoje elas a perturbavam. O barulho, a agitação ou talvez fosse a própria Nairobe. Ela pensava em tantas coisas, presa naquela sala, rodeada de espelhos, era como se estivesse proibida de saber mais. A professora a chamou.
Geralmente ela se esforçaria para errar aquele passo, mas não se sentia disposta.
Executou com perfeição a pirueta. A mãe não a repreenderia por isso, mas Nairobe entendia sua condição.
Descalçou as sapatilhas e vestiu o agasalho sintético. A mãe a esperava do outro lado da rua e atravessou correndo quando viu a menina. As duas foram caminhando, o sol do fim de tarde ressaltando o dourado que às vezes surgia nos cabelos de Nairobe e reforçando as olheiras arroxeadas de sua mãe. Ela parecia especialmente abatida.
Não dormiu bem? – perguntou Nairobe, se esforçando para empregar um tom o mais natural possível. A mãe demorou para responder e quando o fez foi com uma sacudida de ombros.
“Não muito”.
Um outro tanto de silêncio.
Nairobe caminhou olhando do chão para o perfil de sua mãe.
“Nairobe...” – a mãe começou – “prefiro que não saia mais à noite, certo?”
Ela apenas concordou com a cabeça.
“Se estiver muito curiosa sobre algo, me pergunte.” - Nairobe não respirava – “você entendeu?”
A menina fez que sim com a cabeça.
“Há algo sobre o qual gostaria de falar?”. Nairobe sentia uma secura envolver sua garganta e quando falou, sua voz parecia muito mais fina que de costume.
“Naquela noite...” – ela se conteve.
“O que você viu, Nairobe?” – a mãe continuava caminhando, mãos no bolso do agasalho.
“Eu o vi indo”
“Hum” – a mãe olhou para o céu como se esperasse algo.
“Mamãe?”
“Sim?”
“Ele era bom?”
“O que é bom para você, Nairobe?”.
Nairobe não sabia o que dizer. O que era bom? Nairobe se calou e a voz de sua mente continuava. Ela nunca se perguntara sobre isso.
Continuaram caminhando, os braços encostados, de leve. A mãe lhe sorria algumas vezes e já avistara o prédio onde moravam. A pomba branca de penas encaracoladas sobrevoando sobre ele.
Nairobe ainda não sabia dizer  o que era bom.

Incompatível

Já fazia semanas que Nairobe tentava juntar as peças do estranho quebra-cabeça que era sua família. Não somente ela, mas os amigos de asas diferentes, os vidros e panos roxos. Ela sabia (sabia mas ainda não entendia) que tudo aquilo fazia parte do trabalho de sua mãe. 
Mas aquele episódio no beco, Rodolfo de pé com a foice, o homem no chão e sua mãe indiferente, deixou Nairobe pensativa e confusa.
A menina andava com a cabeça às voltas e nem tinha ao menos com quem conversar... Tentou perguntar alguma coisa para seu irmão, mas ele parecia aceitar tudo facilmente, claro, já passara mais de um século próximo daquelas pessoas, então deveria compreendê-las melhor que Nairobe. Era o que ela pensava. Se tivesse sido mais audaciosa e falado com ele... Mas não. Além de tudo, agora sentia necessidade de ser cautelosa, tinha medo que sua mãe descobrisse que a havia seguido naquela noite.
A mãe agira como se nada tivesse acontecido, continuava saindo em horários irregulares, a mochila nas costas, sem hora para voltar. Os vidros de maionese no peitoril da janela, as asas abertas nas noites de chuva.
Então chegou o dia do jantar. O sábado no qual os amigos de sua mãe se reuniam em sua casa. Era interessante o clima que ali se instalava, um pouco mais de som, alguns risos, mas eles permaneciam quietos na maior parte do tempo... O maior espetáculo era a variedade de asas. Todas elas diferentes... As de Anna ainda eram as favoritas de Nairobe. 
Todos reunidos, a imensa mesa no quintal ocupada e um céu sem estrelas, sem lua ou nuvens, como um pano pitado, servindo de tenda para uma festa à fantasia. Nairobe tinha que admitir, alguns dos amigos de sua mãe eram bem originais.
A menina tinha passe livre nessas festas, podia transitar pela casa sem ser advertida ou mandada para cama no horário. O irmão, geralmente, preferia o vídeo game. Se bem que ela já notara, ele muitas vezes já ficava sentado ao lado dos convivas, sem falar... Por horas.
Naquela noite algo aconteceu.
Acomodada numa das cadeiras mais altas, experimentando um delicioso ensopado de camarão que sua mãe fizera, Nairobe observou algo que lhe traria estranhas conclusões.
Enquanto sua mãe passava com os pratos, em silêncio, enchia copos, retirava e substituia talheres, Rodolfo, de longe, a acompanhava com o olhar. E não era um olhar de indiferença como o que ele usava para o mundo todo. Era um olhar quase humano.
Nairobe estremeceu, não entendia todas as mensagens que aqueles olhos acinzentados transmitiam, mas captou o essencial. Ele gostava de sua mãe.
A noite transcorreu como num aquário desde então. Qualquer som, qualquer movimento, tudo estava longe e desconectado. Nairobe só prestou atenção aos movimentos de Rodolfo, espelhando os de sua mãe.
Depois que todos se foram, ela se aproximou da pia da cozinha, com cautela e saudades. Sua mãe lavava a louça.
“Mãe?”. A menina sentia uma timidez que lhe apertava o pescoço.
“Sim, Nairobe?”. Foi a resposta calma que veio logo em seguida.
Nairobe arriscou “Você sabia que Rodolfo gosta de você?”. Ela queria que essas palavras tivessem saído em tom de troça, mas tinha tanto receio da reação de sua mãe que murmurou como num confessionário.
“Sim”. A resposta curta e displicente a assustou.
Um hífen inteiro de silêncio pareceu separar a conversa.
Ela olhava pros pezinhos...  Continuou.
“Vocês já namoraram?”
Sem se distrair dos garfos, a mãe respondeu:
“Já”.
Agora Nairobe não conseguia mais entender o rumo daquela conversa absurda e elegante, entre esponjas e detergente.
“E por que se separaram?”. A pergunta lhe soou idiota, mas já fora feita.
A mãe não respondeu de prontidão. Terminou de passar o rodinho na pia, enxugou as mãos e a olhou com carinho.
“Éramos incompatíveis... Satisfeita? Agora vamos deitar porque já passa da hora.”. E fez sinal para que a menina subisse no seu colo.
Deitada entre as cobertas quentes, a mãe sentada aos pés da cama, Nairobe pela primeira vez fantasiou uma vida em família. Ela, seu irmão, sua mãe e um pai... Mas ao imaginar Rodolfo como seu pai um calafrio de medo e pavor a percorreu, fazendo com que todo o quarto parecesse um bloco de gelo. Aquela imagem era terrível. Fechou os olhos no escuro e desejou que amanhecesse logo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Indizível

“Ah, acho que podemos esperar mais um pouco”. Ninguém se moveu... O homem no chão agora sacudia a mão.
“Ele está te chamando”. A mãe de Nairobe apontou para o sujeito à sua frente.
“Não, ele enxerga bem agora, é a você que ele chama”.
Ela não esboçou nenhuma reação, ficou olhando com a cabeça de lado para o senhor que fazia um gesto débil em sua direção.
“Você não sente saudade do trabalho?”.  Rodolfo jogou a bituca longe.
“Nop”. Foi o único som que Nairobe ouviu sua mãe pronunciar.
“Imaginei que talvez você quisesse relembrar os velhos tempos...”. Agora ele se aproximava, as asas douradas se abrindo com vigor e lentidão.
Nairobe viu sua mãe pular da caçamba, tirar a mochila das costas, abri-la e retirar o vidro junto com o pano roxo.
“Você não quer fazer isso você mesma?”.  Rodolfo olhava para ela com um olhar maroto.
Ela continuou olhando de lado para o homem no chão. E não se moveu.
“Você deveria entender... Não sabe o estado em que ele deixou aquela menininha”
“Isso não é justiça...”
A mãe falou displicentemente enquanto procurava outra coisa na mochila.
“Esqueço sempre que você encara isso só como um trabalho”. Ele soltou uma gargalhada bonita e melodiosa. “Você agora só se preocupa com os seus humanos, não?”
“Não são MEUS humanos, são meus filhos”.
“Dá no mesmo. Você não poderá ficar com eles.”
A mãe de Nairobe se encostou na caçamba e acendeu um cigarro. Nairobe não sabia que ela fumava.
Eles ficaram em silêncio até ela terminar. 
Com um movimento da cabeça, Rodolfo pareceu se dar por vencido. Ergueu a mão e Nairobe vislumbrou uma foice radiante como as asas e assustadora como nenhuma outra coisa. Ele caminhou até o homem, sorriu para a mãe da menina e quando baixou o braço, Nairobe fechou os olhos.
“Pronto, pode recolher”.
Nariobe viu sua mãe se abaixar e encostar a mão, que agora parecia uma garra de um pássaro não catalogado, e puxar alguma coisa pelo topo da cabeça do corpo estirado no chão. Imóvel, completamente imóvel.
Algo muito parecido com o que Nairobe viu sua mãe vomitando no banheiro foi conduzido para dentro do vidro, que após ser fechado, foi devolvido para a mochila.
Nairobe não conseguia mais respirar. Sua saliva havia secado em sua boca, fazendo com que parecesse que ela havia comido areia. 
A mãe só se levantou e começou a se afastar.
******* Ela ouviu Rodolfo chamar por sua mãe, já de costas.
A mãe de Nairobe tinha um nome, mas a menina nunca conseguia pronunciá-lo. As sete vogais estavam distribuídas entre trinta e cinco consoantes, algumas que Nairobe nem ao menos sabia escrever. Rodolfo a chamara pelo nome, corretamente. Ela parou. Não se virou.
“Você não sente saudade do nosso?"
A menina viu a mãe olhar para os tênis velhos, depois para a ponta da asa que quase se arrastava no chão e depois dar de ombros. Continuou andando. 
Nairobe correu silenciosamente, como fazem as crianças. Se enfiou entre alguns sacos e caixas e viu sua mãe passar por ela, a mochila nas costas, as asas lambendo o chão imundo. 
Rodolfo não se movera. Apenas gritara do lugar onde estava.
“Eu tenho o nome de um deles na minha lista!”.
A mãe parou, se virou, abriu as asas completamente e pareceu estar pronta para lançar alguma coisa sobre Rodolfo. Os olhos tinham uma luminosidade estranha. Nairobe não o enxergava, mas sentiu que ele se encolhera ao vê-la assim. 
Ela disse algo que Nairobe não conseguiu entender, num som estranho e diferente e que chegou aos ouvidos da menina como “Eu também gosto de torta de frango, mas prefiro tapetes persas” ou “Confio na sua inteligência para não pensar em fazer isso”. A menina não sabia exatamente.
Ela se virou, fechou as asas e se afastou. 
Nairobe esperou para ter certeza de que sua mãe fora embora e saiu correndo, imaginando que teria que se apressar para chegar em casa, cortando caminho por uma galeria próxima.