sexta-feira, 3 de março de 2017

Inefável

Nairobe adormecera entre os lençóis da cama desarrumada.
A mãe, parada na porta, recostada no batente, trazia aquele expressão que sabemos bem qual é quando perdemos algo que nos era importante.
qualquer um de nós já deve tê-la repdito algum dia.
A boca curvada para baixo, e o olhar distante, acompanhando os pés, os braços, os cabelos longos e anelados da menina se esparramando no travesseiro.
Não era mais uma menina. Nairobe deveria estar quase do seu tamanho ou maior.
Se aproximou suave, como sempre fazia.
Sentou-se sem ruído algum, ou mesmo pesar sobre o colchão ao lado da filha.
E a olhou.
As mãos magras enroscaram um dos cachos em seus dedos finos e ela poderia ter suspirado. Não suspirou. Mas era como se o tivesse feito.
Não era tristeza... Era... Era a sensação de que algo escapara por seus dedos.
Dedos em garras ou não, não importava, nada poderia reter por mais tempo aquela sensação.
Parada, respirando um pouco do que se havia perdido naquele quarto entre a noite e o amanhecer, ela permaneceu assim até os olhos escuros da menina se fixarem nela.
- Bom dia, Nairobe, o café já está pronto.

E saiu do quarto, sem fazer alarde.

Implacável

O aparelho apitou mais uma vez. A mulher deitada na cama permaneceu inerte. O peito manchado de vermelho e algum resto de grama em entre os anéis dos seus cabelos.
Um outro choque. Nada.
Outro, e mais outro, e mais outro, e a mãe de Nairobe apenas se jogou da janela do oitavo andar.
As asas se abrindo plenas logo após o salto, e agitadas furiosamente, velozes e vorazes.
Num telhado próximo dali, um homem encarava o vazio.
Olhava para as pontas dos pés, sentindo o vento batendo forte em seu rosto e o empurrando, sussurando "Vá". Era o que a voz do vento lhe falava aos ouvidos.
Rodolpho fumava tranquilo, alguns metros dali, sentado em um tubo de ventilação.
Ela poucosu suave, andou a passos rápidos até ele e estendeu a mão, firme.
- Preciso da minha foice.
Rodolpho apenas ergueu os olhos.
- Agora? - ela elevou minimamente a voz, mas poderíamos supor que gritava a plenos pulmões.
Ele fumou o cigarro até o fim.
A mão esticada à sua frente permaneceu aguardando.
Ninguém disse nada.
O homem no parapeito permaneceu sem se mover.
- Para quê?
- Nairobe.
A menina puxou o ar como se se afogasse. Ou como se voltasse à vida. Ou como se tivesse acabado de nascer naquele instante.
Quem visse poderia escolher a partir das próprias experiências.
O quarto permancia exatamente igual, mesmo no escuro da madrugada quente de verão.
Ela estava transpirando, o pulso acelerado, o medo lhe corroendo as entranhas.
Sua mãe. A foice. "Nairobe".
Seria isso? Ela seria ceifada pela pessoa que mais amava no mundo?
nairobe afastou o pensamento, mas como uma mosca, no final de uma tarde úmida, ele voltava.
Ela queria vomitar, mas não arricaria um único movimento.
Estava paralizada numa redoma de suor e pavor.
Algo mudara.
Acostumando os olhos à escuridão, Nairobe pode perceber a camisola um pouco mais justa nos braços, um pouco mais curta.
Olhou para suas mãos e elas já não estavam do mesmo tamanho. Nem seus pés.
Sim, Nairobe deveria estar do tamanho de uma criança de 10 anos.
Mas não tinha acabado.
Sentiu seu pequeno ser diferente, o corpo sofrendo mudanças, a mente se abrindo de uma forma que ainda não experimentara. E o medo? O medo se alongando como tentáculos.
Foi então que Nairobe entendeu: ela estava crescendo.
Sem sono, aterrorizada, Nairobe se recostou na parede e esperou, no escuro, supondo que seriam algumas poucas horas, pelo final de sua infância.

Inesgotável

Nairobe entendera que as respostas que queria não viriam no tempo que desejava.
Alguns dias se passaram e ela ainda aguardava.
Numa tarde, a mãe a buscou no balé, um pouco antes, pedindo para que a professora a liberasse.
Vieram caminhando na rua, quietas, muito quietas, até que sua mãe falou:
- Nem nós sabemoscomo tudo começou. Havia poucos denós, muitos, mas mais espalhados do que hoje... Não, não, Nairobe. Não é exatamente assim que me lembro.
A mãe parou num abulante e pediu dois sorvetes de creme.
Nairobe adorava sorvete, e caminharam mais um pouco.
Nairobe esperou, inquieta, que a mãe prosseguisse.
Haviam chegado ao parque, um lugar com muitas árvores, e também um lago, cortado por uma ponte longa.
Nairobe sempre se perguntara se ele seria fundo ou não... o lago.
Sua mãe se debruçou no guarda corpo da ponte. Nairobe fincou os pés na grade para poder ficar um pouco mais alta e olhou para a água que corria. Não, não era um lago. Era um rio.
Ele sempre estivera ali?
Um mintuo, dois, uma certa alfição caia sobre a menina como a noite chega suave.
Será que ela falaria?
Nairobe esperou.
- Não, realmente não foi assim - a mãe continuou, estreitando os olhos como se revirasse suas memórias mais antigas para contar aquela história.


"Não havia nada. Nem tempo, nem espaço, não consigo me lembrar exatamente.
Sei que havia tempo... mas não o vivíamos, Rodolpho e eu.
Sim, Nairobe.
Rodolpho e eu.
Estamos juntos desde que nossa consciência despertou.
Aos poucos houve luz e conseguimos entender que havia algo sobre nós, algo que entendemos ser o céu.
Era um mundo quieto. Silencioso como se toda a criação dormisse um sono imemoriável e perpétuo.
Havia o sol, havia luz. Sentíamos como se o espaço entre nós fosse se preenchendo lentamente. Quanto tempo passou?
Não poderia nunca saber.
Poderia ser um dia, poderiam ser anos, poderíamos estar ali por toda a eternidade.
Nairobe, você precisa entender uma coisa. Não é como Rodolpho e eu realmente existíssemos. Não havia nada material em nós."
A menina sentiu algo perturbá-la e lançou um olhar de soslaio para sua mãe, depois para o rio. Ele continuava ali.
Conhecia as placras e sabia o que elas significavam, mas era custoso imaginar sua mãe como uma... como uma "presença" somente.
Sem corpo, sem forma, vagando num mundo silente.
A mãe continuou:

"Não posso divisar quando foi que tive um corpo. Mas estávamos lá.
E foi assim por um longo tempo, que também não consigo medir. Tudo parece hoje um eco de um passado tão distante, como se fosse uma história contada por outra pessoa.
Vivemos assim.
Acho que isso é o que melhor define.
E aos poucos foi como se o mundo acordasse, devagarinho, preguiçoso.
Se movia novamente depois de uma vida inteira adormecido.
Num dia, tão claro como todos os dias costumavam ser, vimos algo passar por nós.
Um outro ser, tão diferente de nós dois que só pudemos admirá-lo.
Não me lembro mais a maneira como o nomeanos, mas parecia um pouco com um unicórnio.
Após aquele instante, que pode ter durado milênios, em que vivíamos, somente Rodolpho e eu, havia uma outra criatura conosco.
Não tínhamos forma, tão pouco tocávamos o chão. Mas não havia asas.
E então, numa manhã que não saberia nunca dizer qual, encontrei algo brilhante na relva fofa e intocada daquele mundo.
Dourada, brilhante, imensa e sombria. Uma foice.
Não sabia ainda o que era, mas sabia que seria minha. Eu a recolhi.
Se eu soubesse...
Talvez Nairobe... Talvez eu a tivesse deixado de lado, não abrindo mão da imaterialidade que nos cercava.
Também não sei exatamente explicar - entenda, eu já me fiz essas perguntas por um tempo que eu não tenho como contar, e não tive respostas, depois de um tempo, não tê-las se torna a própria resposta -, mas Rodolpho e eu erámos felizes. Sim, acho que felicidade poderia ser usada aqui.
Tentei entregar a enorme foice a ele, mas ele simplesmente não podia segurá-la.
Ela parecia não ter matéria, quando ele a tocava, ou como se fosse gasosa, ou uma miragem, sem forma nem peso.
E era pesada em minhas mãos. Nesse instante eu percebi que eu as tinha, assim como um corpo, olhos, boca, e ele também. Existíamos.
E a foice... Simplesmente não era para ele.
E então, as noites mais curtas, os dias mais curtos, o tempo passando de forma quase palpável e a criatura ao nosso lado deixava de ter o viço, o brilho , a beleza que sempre tivera.
Quanto tempo tudo isso? Nem ouso imaginar.
E num dia... Eu simplesmente sabia o que deveria ser feito.
Quieta, me concentrei, ciente do meu dever, e ergui a foice. E ele não estava mais lá.
Rodolpho também sabia o que deveria fazer.
Ninguém nos dissera nada, também não havia mais qualquer outro ser vivo conosco no mundo.
Ele apenas recolheu aquele brilho azulado que se desprendera e o segurou dentro de si.
De noite, deitados ao relento, Rodolpho suspirou e vimos a luz se dissipar no manto escuro que nos cobria. Naquele suspiro entendemos que estávamos sós. E houve tristeza.
Somente muito tempo depois, após aquele dia e a sensação estranha de perda, percebemos que mais alguma coisa surgia.
Os seres cresciam, outras vidas surgiam."

Nairobe não conseguia acompanhar a história sem sentirr um ebaraço estranho subindo até o seu pescoço, como se fosse um bolo alimentar prestes a ser vomitado.
Algo em tudo aquilo a nauseava. Sua mão, Rodolpho, sozinhos por toda uma eternidade, a criatura definhando, o recomeço...
- Acho que preciso ir ao banheiro.
A mãe assentiu com seu sorriso inexpressivo e ofereceu a mão à filha.
A menina não queria ir ao banheiro, apenas precisava de um tempo para digerir tudo aquilo.
Foram embora, caminhando juntas e em silêncio. Aquele mesmo silêncio que envolvera sua mãe antes da criação do mundo.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Ela parou.
Fumou outro cigarro e massageou o peito.
Havia um espaço grande, aberto, por onde podia enfiar a mão e tocar, ainda que com nojo e medo de bactérias, o coração.
O nojo era por ele, não por ela. As mãos estavam sempre limpas, unhas aparadas, curtas, singelas.
O coração que poderia contaminá-la.
Mesmo assim, de tempos em tempos, realizava o estranho ritual.
Segurava com os dedos firmes aquela massaroca de carne e o apertava.
O contador dizia quanto tempo ainda restava.
Não era muito, perto ainda de tudo o que ela queria, o crônometro regressivo sempre deixava a desejar.
Mas se mexesse naquele peito do jeito certo, talvez ganhasse uns dias, talvez até uma década.
O que incomodava mesmo era os abutres.
Atraídos pelo cheiro doce, amendoado, que a decomposição exala (e um coração se desfazendo fede muito), sentavam-se, como rouxinóis, na beirada da janela, durante o dia todo.
Grata se encontrava por terem hábitos diurnos.
Noturna só ela e alguns do Chopin.
Em paz, se entregando em silêncio, a mais um sopro, ela continuava o exercício. Manter o peito aberto, e o coração batendo.
Ah, o nojo. Esse era outro exercício a ser executado, e o cuidado com as unhas era pra não repuxar nenhuma carne, nenhuma pele. As artérias estavam em dia.
O resto não estava não. Sem agenda, sem salário, sem mês algum que coubesse em seu ano, o planejamento era só usar algo que disfarçasse o odor.
Aquele odor, aquele cheiro.
Amêndoas frescas e putrefação.
E enquanto isso o contador: "mais 5 anos, e alguns dias".
Aquilo não fora ela que escolhera.
Viver com o coração na mão.
não há como impugnar
essas certezas
retas e claras
desse peito tão
aberto
que aberto, nunca sara
não remendo esses
meus pedaços
que não são mais meus
depois de tantos dedos,
tanto traço
peito sem descanso
que muitas vezes
acha
que num outro
encontra casa
e só tem esse vão
tão torto
onde guarda um pouco
um resto
torpe
novo
e índomito
um potro
que quer fugir
ligeiro
mas se acaba.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Impensável

Na mesa, o silêncio estranho.
Nairobe percebera que perdera completamente o apetite e que a comida tinha gosto de barro. Não tinha temperatura, não tinha sabor.
Aquilo havia sido roubado naquela refeição.
A pomba bicava satisfeita o prato à sua frente.
Nairobe evitava olhar em sua direção.
À sua frente, seu irmão, quieto, as assas ainda quase imperceptíveis, mas ainda lá. Rubras, vermelhas, translúcidas e horrendas, faziam Nairobe pensar em um dragão.
Sua mãe parecia preocupada.
A hora parecia não ter fim.
Nairobe decidiu: não queria comer a sobremesa.

Inadiável

- Nairobe?
A mãe esperava, ainda com o pano de prato sobre o ombro, poucos metros do tanque de areia.
Nairobe compreendeu que ela também viera correndo.
Parou de se balançar, mas só conseguia olhar fixamente para as pontas dos seus pés.
Nem percebera, mas ursava apenas as meias com pompons laranja. Estavam cobertos de areia.
A mãe chamou novamente.
Mas não se aproximou.
Os pompons ali, repletos de grãos, pareciam dentes de leão.
Nairobe pensou em assoprá-los e imaginou vê-los voando, leves, pelo ar.
E sem muita convicção, deixou uma pequena lufada de ar escapar de sua boca. Ainda sentia o olhar firme da mãe sobre si.
E quando pensou em olhá-la de volta, um pequeno dente de leão veio pousando lentamente, como que se balançando em sua direção.
Nairobe, de alguma forma, se alegrou com a coincidência.
Como sempre ao nos perdemos em pensamentos por demais perto da hora do almoço e sermos surpreendidos pelo inusistado, algo se quebra.
O ar se torna mais leve, um raio de sol incide por entre as folhas, uma música nos remete a outro estado de espírito.
Nairobe sorriu.
Não quis, mas sorriu.
Sua mãe se aproximou e colocou, gentilmente, as mãos em seus joelhos.
- Vamos almoçar? Está quase pronto...
Nairobe queria ouvir a mãe gargalhando novamente, queria os olhos violeta de novo e aquela dança de cores em seus cabelos.
Olhando para sua mãe, ali, como sempre, a menina sentia como se perdesse algo.
Não desviou o olhar.
- O que foi, Nairobe?
- Respostas.
Por um istante longo, sua mãe a encarou. Não havia nada em sua face, nem rancor, receio, medo. Nada.
O instante durou o tempo de uma nuvem mudar de posição e então sua mãe deu de ombros, como quem admite a derrota.
- Não as tenho... todas.
- Qualquer uma.
- Sabe? Se você tiver respostas, o tempo vai correr novamente.
- Vai correr?
- Você vai crescer - sua mãe respondeu monotonamente, como uma atendente de telemarketing. Mas havia um outro tom ali, por debaixo daquele som.
- Mãe, eu não quero ter 8 anos pra sempre...
Um suspiro cansado e, para um bom ouvinte, até triste, escapou dos lábios de sua mãe.
- Não sei se estou pronta, Nairobe. O tempo passa diferente para mim - parecia que a mãe ponderava enquanto sondava os olhos escuros de Nairobe. Por fim, assentiu com a cabeça. - Mas depois do almoço. Agora vamos.