sexta-feira, 3 de março de 2017

Inesgotável

Nairobe entendera que as respostas que queria não viriam no tempo que desejava.
Alguns dias se passaram e ela ainda aguardava.
Numa tarde, a mãe a buscou no balé, um pouco antes, pedindo para que a professora a liberasse.
Vieram caminhando na rua, quietas, muito quietas, até que sua mãe falou:
- Nem nós sabemoscomo tudo começou. Havia poucos denós, muitos, mas mais espalhados do que hoje... Não, não, Nairobe. Não é exatamente assim que me lembro.
A mãe parou num abulante e pediu dois sorvetes de creme.
Nairobe adorava sorvete, e caminharam mais um pouco.
Nairobe esperou, inquieta, que a mãe prosseguisse.
Haviam chegado ao parque, um lugar com muitas árvores, e também um lago, cortado por uma ponte longa.
Nairobe sempre se perguntara se ele seria fundo ou não... o lago.
Sua mãe se debruçou no guarda corpo da ponte. Nairobe fincou os pés na grade para poder ficar um pouco mais alta e olhou para a água que corria. Não, não era um lago. Era um rio.
Ele sempre estivera ali?
Um mintuo, dois, uma certa alfição caia sobre a menina como a noite chega suave.
Será que ela falaria?
Nairobe esperou.
- Não, realmente não foi assim - a mãe continuou, estreitando os olhos como se revirasse suas memórias mais antigas para contar aquela história.


"Não havia nada. Nem tempo, nem espaço, não consigo me lembrar exatamente.
Sei que havia tempo... mas não o vivíamos, Rodolpho e eu.
Sim, Nairobe.
Rodolpho e eu.
Estamos juntos desde que nossa consciência despertou.
Aos poucos houve luz e conseguimos entender que havia algo sobre nós, algo que entendemos ser o céu.
Era um mundo quieto. Silencioso como se toda a criação dormisse um sono imemoriável e perpétuo.
Havia o sol, havia luz. Sentíamos como se o espaço entre nós fosse se preenchendo lentamente. Quanto tempo passou?
Não poderia nunca saber.
Poderia ser um dia, poderiam ser anos, poderíamos estar ali por toda a eternidade.
Nairobe, você precisa entender uma coisa. Não é como Rodolpho e eu realmente existíssemos. Não havia nada material em nós."
A menina sentiu algo perturbá-la e lançou um olhar de soslaio para sua mãe, depois para o rio. Ele continuava ali.
Conhecia as placras e sabia o que elas significavam, mas era custoso imaginar sua mãe como uma... como uma "presença" somente.
Sem corpo, sem forma, vagando num mundo silente.
A mãe continuou:

"Não posso divisar quando foi que tive um corpo. Mas estávamos lá.
E foi assim por um longo tempo, que também não consigo medir. Tudo parece hoje um eco de um passado tão distante, como se fosse uma história contada por outra pessoa.
Vivemos assim.
Acho que isso é o que melhor define.
E aos poucos foi como se o mundo acordasse, devagarinho, preguiçoso.
Se movia novamente depois de uma vida inteira adormecido.
Num dia, tão claro como todos os dias costumavam ser, vimos algo passar por nós.
Um outro ser, tão diferente de nós dois que só pudemos admirá-lo.
Não me lembro mais a maneira como o nomeanos, mas parecia um pouco com um unicórnio.
Após aquele instante, que pode ter durado milênios, em que vivíamos, somente Rodolpho e eu, havia uma outra criatura conosco.
Não tínhamos forma, tão pouco tocávamos o chão. Mas não havia asas.
E então, numa manhã que não saberia nunca dizer qual, encontrei algo brilhante na relva fofa e intocada daquele mundo.
Dourada, brilhante, imensa e sombria. Uma foice.
Não sabia ainda o que era, mas sabia que seria minha. Eu a recolhi.
Se eu soubesse...
Talvez Nairobe... Talvez eu a tivesse deixado de lado, não abrindo mão da imaterialidade que nos cercava.
Também não sei exatamente explicar - entenda, eu já me fiz essas perguntas por um tempo que eu não tenho como contar, e não tive respostas, depois de um tempo, não tê-las se torna a própria resposta -, mas Rodolpho e eu erámos felizes. Sim, acho que felicidade poderia ser usada aqui.
Tentei entregar a enorme foice a ele, mas ele simplesmente não podia segurá-la.
Ela parecia não ter matéria, quando ele a tocava, ou como se fosse gasosa, ou uma miragem, sem forma nem peso.
E era pesada em minhas mãos. Nesse instante eu percebi que eu as tinha, assim como um corpo, olhos, boca, e ele também. Existíamos.
E a foice... Simplesmente não era para ele.
E então, as noites mais curtas, os dias mais curtos, o tempo passando de forma quase palpável e a criatura ao nosso lado deixava de ter o viço, o brilho , a beleza que sempre tivera.
Quanto tempo tudo isso? Nem ouso imaginar.
E num dia... Eu simplesmente sabia o que deveria ser feito.
Quieta, me concentrei, ciente do meu dever, e ergui a foice. E ele não estava mais lá.
Rodolpho também sabia o que deveria fazer.
Ninguém nos dissera nada, também não havia mais qualquer outro ser vivo conosco no mundo.
Ele apenas recolheu aquele brilho azulado que se desprendera e o segurou dentro de si.
De noite, deitados ao relento, Rodolpho suspirou e vimos a luz se dissipar no manto escuro que nos cobria. Naquele suspiro entendemos que estávamos sós. E houve tristeza.
Somente muito tempo depois, após aquele dia e a sensação estranha de perda, percebemos que mais alguma coisa surgia.
Os seres cresciam, outras vidas surgiam."

Nairobe não conseguia acompanhar a história sem sentirr um ebaraço estranho subindo até o seu pescoço, como se fosse um bolo alimentar prestes a ser vomitado.
Algo em tudo aquilo a nauseava. Sua mão, Rodolpho, sozinhos por toda uma eternidade, a criatura definhando, o recomeço...
- Acho que preciso ir ao banheiro.
A mãe assentiu com seu sorriso inexpressivo e ofereceu a mão à filha.
A menina não queria ir ao banheiro, apenas precisava de um tempo para digerir tudo aquilo.
Foram embora, caminhando juntas e em silêncio. Aquele mesmo silêncio que envolvera sua mãe antes da criação do mundo.


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