segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Inadiável

- Nairobe?
A mãe esperava, ainda com o pano de prato sobre o ombro, poucos metros do tanque de areia.
Nairobe compreendeu que ela também viera correndo.
Parou de se balançar, mas só conseguia olhar fixamente para as pontas dos seus pés.
Nem percebera, mas ursava apenas as meias com pompons laranja. Estavam cobertos de areia.
A mãe chamou novamente.
Mas não se aproximou.
Os pompons ali, repletos de grãos, pareciam dentes de leão.
Nairobe pensou em assoprá-los e imaginou vê-los voando, leves, pelo ar.
E sem muita convicção, deixou uma pequena lufada de ar escapar de sua boca. Ainda sentia o olhar firme da mãe sobre si.
E quando pensou em olhá-la de volta, um pequeno dente de leão veio pousando lentamente, como que se balançando em sua direção.
Nairobe, de alguma forma, se alegrou com a coincidência.
Como sempre ao nos perdemos em pensamentos por demais perto da hora do almoço e sermos surpreendidos pelo inusistado, algo se quebra.
O ar se torna mais leve, um raio de sol incide por entre as folhas, uma música nos remete a outro estado de espírito.
Nairobe sorriu.
Não quis, mas sorriu.
Sua mãe se aproximou e colocou, gentilmente, as mãos em seus joelhos.
- Vamos almoçar? Está quase pronto...
Nairobe queria ouvir a mãe gargalhando novamente, queria os olhos violeta de novo e aquela dança de cores em seus cabelos.
Olhando para sua mãe, ali, como sempre, a menina sentia como se perdesse algo.
Não desviou o olhar.
- O que foi, Nairobe?
- Respostas.
Por um istante longo, sua mãe a encarou. Não havia nada em sua face, nem rancor, receio, medo. Nada.
O instante durou o tempo de uma nuvem mudar de posição e então sua mãe deu de ombros, como quem admite a derrota.
- Não as tenho... todas.
- Qualquer uma.
- Sabe? Se você tiver respostas, o tempo vai correr novamente.
- Vai correr?
- Você vai crescer - sua mãe respondeu monotonamente, como uma atendente de telemarketing. Mas havia um outro tom ali, por debaixo daquele som.
- Mãe, eu não quero ter 8 anos pra sempre...
Um suspiro cansado e, para um bom ouvinte, até triste, escapou dos lábios de sua mãe.
- Não sei se estou pronta, Nairobe. O tempo passa diferente para mim - parecia que a mãe ponderava enquanto sondava os olhos escuros de Nairobe. Por fim, assentiu com a cabeça. - Mas depois do almoço. Agora vamos.

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