quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Ela parou.
Fumou outro cigarro e massageou o peito.
Havia um espaço grande, aberto, por onde podia enfiar a mão e tocar, ainda que com nojo e medo de bactérias, o coração.
O nojo era por ele, não por ela. As mãos estavam sempre limpas, unhas aparadas, curtas, singelas.
O coração que poderia contaminá-la.
Mesmo assim, de tempos em tempos, realizava o estranho ritual.
Segurava com os dedos firmes aquela massaroca de carne e o apertava.
O contador dizia quanto tempo ainda restava.
Não era muito, perto ainda de tudo o que ela queria, o crônometro regressivo sempre deixava a desejar.
Mas se mexesse naquele peito do jeito certo, talvez ganhasse uns dias, talvez até uma década.
O que incomodava mesmo era os abutres.
Atraídos pelo cheiro doce, amendoado, que a decomposição exala (e um coração se desfazendo fede muito), sentavam-se, como rouxinóis, na beirada da janela, durante o dia todo.
Grata se encontrava por terem hábitos diurnos.
Noturna só ela e alguns do Chopin.
Em paz, se entregando em silêncio, a mais um sopro, ela continuava o exercício. Manter o peito aberto, e o coração batendo.
Ah, o nojo. Esse era outro exercício a ser executado, e o cuidado com as unhas era pra não repuxar nenhuma carne, nenhuma pele. As artérias estavam em dia.
O resto não estava não. Sem agenda, sem salário, sem mês algum que coubesse em seu ano, o planejamento era só usar algo que disfarçasse o odor.
Aquele odor, aquele cheiro.
Amêndoas frescas e putrefação.
E enquanto isso o contador: "mais 5 anos, e alguns dias".
Aquilo não fora ela que escolhera.
Viver com o coração na mão.

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