segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O latim nosso de cada dia

Desde quando  você sabe francês?
Desde quando algo te interessa mais do que narrar os jogos da TV?
Porque como a rosa que ofereceu,
Rosa não de fato
Só foto porque as coisas se desimportaram
Você não vive mais em você
Se viveu algum dia, mistério que aos
Poucos se esquece
Como uma luzinha fraca no final do corredor
Agora são os dias de micareta
E de porno chanchada
Que é o que sobra mesmo
Pra quem não se saca em nada
E se por acaso alguém chegasse
E dissesse "que direito você tem?"
Talvez a resposta fosse
"Me conte somente o que aprendeu além "
De mim, eu sei que não houve um passo à frente.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

As chaves de casa

Meu maior medo é que você venha 
Sem que eu perceba
É não conseguir mais me proteger de você
Do cheiro, dos dias,
É ter minha vida com cercas brancas novamente.
Meu medo maior é, além de te ver entrar na minha vida como névoa,
Que não se sabe de onde veio,
te ter de corpo e alma
É ouvir da sua boca
“Pra sempre”, depois de anos 
Ouvindo “de novo”
Isso me deixa em pânico
Imagine escrever pra você
e você responder?
trocarmos correspondência por décadas
Tenho pavor que seu olhar corresponda ao meu
Que saiba o que estou pensando pela forma que 
Eu deixo meus dentes debaixo aparecerem no sorriso
Eu tenho receio que você esteja pensando em mim nesse
Momento
Que esteja decidindo como me abordar
Me dá náuseas imaginar que posso te encontrar na rua,
Na casa de um amigo, numa saída pro bar.
Fico me protegendo e fingindo que você não existe
E me convencendo de que não sabe que eu existo
Meu medo é acordar ao teu lado
É envelhecer com você
É te ver esquecer o dia de ontem
Onde pôs as chaves, o nome do neto mais novo
Tropeçar no chinelo que virou
E esquecer os óculos de novo,
E de novo
E de novo
É esse tremor aí na sua mão
A tosse que demorou um pouco pra passar
Meu medo é essa tosse que não passa
Aquela que não passou
Foi essa receita maior dessa vez
Um remédio a mais
Meu medo é não poder ficar no quarto
O tempo todo porque o hospital não aceita
Acompanhantes
Só do mesmo sexo.
O medo foi voltar pra casa
Porque a cama quase me engoliu,
Eu também esqueci onde deixei o óculos.
O problema: não esqueci de você.
Meu medo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

ninguém nunca saberia
que choro sozinha
dores que cultivo no peitoril
da cozinha, da sala
que choro o tempo perdido
mordido por bocas estranhas
e de hálito, bafo, de coisas quentes
essas quenturas de entranhas,
de criaturas mordazes
que me assolam e solapam o chão
quando durmo
eu encostei meu pé no teu
o sono foi bom
o sonho não veio
foi fechar a janela no meio do temporal
a pergunta era clara
e se eu pedisse pra ficar?
mas ficar implica estar comigo
dessas gentes que choram
sem que ninguém saiba
que nutrem amores secretos
que guardam a última bolacha
achando que alguém vai chegar em casa
as dores eu escoo
o mar me escoa junto
de noite, todo pesadelo ecoa.
tenho mais que um mar aqui dentro