quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O cientista

Meu amigo, eu só quero que você saiba que entendi
Sobre a minha pressa
Foi quase prece,
Mas no tanto que você estava perdido
Eu também me encontrava
E demoro muito pra mudar de ideia
Foi então, na noite densa,  sabendo que só você
Abraçaria
Eu entendi
Você me disse, de outro jeito: calma,
deixa eu juntar meus cacos pra me colar em outra coisa e me dar pra você.
Eu também estive, estava, permaneço desintegrada como
Uma granada
Alguém puxou o pino e me segurou forte na mão
Se eu tivesse cacos coloridos, te dava os meus
Todos eles
Embrulhava
Colava
Fazia a coisa bonita que tivesse pra te dar
Queria que você pudesse voltar ao ponto que perdeu o passo
Que eu voltasse ao ponto em que perdi o passo
E que mesmo assim,
Achando métrica entre nós mesmos,
A gente ainda se tornasse sem volta.
Só hoje eu vi o que você me disse
Ia te mandar uma mensagem te contando
Que daqui até pra sempre
Tem muito amor no coração
O formato não importa
Nem era pra ser assim
Senão não era incondicionalmente
Te amo

terça-feira, 29 de novembro de 2016

balzaquiana

Ela acendeu o cigarro.
Os olhos arregalados deixavam clara a conclusão: perdera o amor da sua vida.
Não esse último. Esse a perdera e era o amor da vida dele. Ela. Ele não.
“Otário”, gesticulou com força, esparramando uma lufada de fumaça por tudo quanto era lugar ainda vago no ambiente.
Ela usava esses termos, “panaca”, “bananão”. Achava que definia bem a sensação da inconsistência do caráter.
Mas o outro.
Não, não!
Ela perdera o amor da sua vida e tinha entendido numa mensagem não enviada de quase oito anos antes. Ele sentira ciúmes. Ela percebera?
Na época?
Ah, que tolice, ela não percebia nada. Estava nublada, morrida, um negócio feio que só vendo. Só entendeu todas as atitudes depois.
E o pior, era um ciúme sem tanto fundamento. Sem tanto porque, depois que se separaram, até houve algo entre eles, mas ele era gay, ela sabia. Cansou logo e foi se divertindo com quem pode.
Mas o buraco estava ali.
Grande, vermelho, com bordas putrefatas e latejava.
Teria sido em vão?
Nada era em vão, mas não dava pra voltar atrás.
Ficou ali, assim. Olhos arregalados, a fumaça do cigarro subindo, fazendo voltas.
E ela?

“Otária”.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Duas ou três coisas eu preciso te dizer:
lave as mãos.
mas lave bem.
lave de novo.
mais uma vez.

elas estão sujas, sempre estiveram
não fosse mentira, seria a lama
tanta que nenhuma barragem poderia espalhar

Aquele cara lá foi tudo aquilo, foi ruim, do começo ao fim. Ele se vangloriou por tantas amizades, por tanta carne nova, fresca, mais no sentido de insuportável do que de novidade.
E naquele instante, a moça, aquela, a moça que tremia por dentro, parou.

Ela somente tirou a camisa, caminhou até a porta da casa e saiu.
Não disse onde ia, não disse que horas voltava, não informou direção.
Se era triste?
já fora.
Agora olhava até soberba para o que restava ao redor.
Como bomba,
como gás
como um campo amassado por um tufão
o que lhe cercava não lhe interessava mais.

Ele?
Ainda lava as mãos.
Mas lava bem.
lava de novo.
mais uma vez.

Elas ainda estão sujas.