quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Deixe-me ir, preciso andar
Eu demorei, tentando escrever. Não queria que soubesse que é pra você, porque, lá em algum lugar onde moro em mim todos os dias, uma parte me avisa que eu não posso, nunca. O mesmo lugar onde te pus pra viver comigo também.
O que escrevo é pra avisar que vou te deixar sozinho lá, comecei a debandada louca, a corrida de Pamplona. Sigo para ver a Rambla e sigo só. Só, solta, feliz e triste.
Porque eu não moro em mim mais, moro onde não sei. Você me ocupou espaços e não conheço a palavra pra chamar por essa perdição.

Amor é um suspiro distante perto dessa força estranha que força meus pés não se moverem. Permaneça, dizem eles. E eu me rebelo, busco asas, busco bocas, quero outras, quero tolas todas as que puder alcançar e deixar a tua, no formato exato da minha, no formato do meu medo do teu peito aberto.

Fiorde



Tudo o que ela queria, hoje, era te beijar. Forte, lento, com música ao fundo. Qualquer uma daquelas.
Se respirava fundo, era só pra afastar essa ideia, e outra, e mais uma.
Porque agora a moça estava dividida. Aquela paixão platônica, aquela pessoa que não olharia na direção dela, olhou.
Olhou, olhou de novo. Se esperavam.
Qual dos dois?
Tomou mais um gole, mais um cigarro.
Pensou que não importasse o desastre natural, a política, a polícia, no fim, no seu fim, tudo se resumia aquele contato de peles. Não era alguém que consumiria pessoas, ela só queria fenecer.
A sua placidez, essa coisa de lago calmo, que ela já sabe bem que é mentira. Não engodo. Só que há mais coisa abaixo da superfície. Ela desenhou tudo isso, colocou ao lado daquelas fotos, da visita ao Peru, dele sorrindo com o cão. Dele amando a paz e a violência, com a sede de quem vai morrer daqui há pouco. Com a ânsia que a queimava da mesma forma.
Mesmo que ela te ame, rapaz, mesmo, agora ela anseia por aquela boca, as testas coladas, o ponto sem retorno, aquele toque, aquela mente. Não consumia pessoas, consumia mentes, assuntos, ideais.
E ele simplesmente se encaixava como uma peça feita a mão. Rústica.
Dois rústicos.
E ainda assim, quando pensa no seu ar bem perto, a respiração fazendo coro, ela estremece.
Não sabe bem o que vai escolher.
Ninguém sabe, a história ainda não estava escrita e ninguém conhecia o autor.
A temporada de caça estaria aberta, e ela... ela se faz de presa... só até a lua sair.
Tudo o que ela queria, hoje, era te beijar. E a ele também.