quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ciranda

Aí você pensa em se matar.
Aí você pensa em e matar e se trancar no banheiro. Na verdade não, você pensa em se matar antes... Antes de se trancar no banheiro.
Você pensa em se matar cortando os pulsos. Quando pensa é como se já estivesse aquele sangue todo correndo para e pelo ralo.
Você pensa em cortar os pulsos e fica com medo da dor.
Aí você pensa em se matar tomando veneno, aí você pensa em se matar inalando gás.
Sobreviver deprimido não é viver sobre nada... Você não é devorado por cachorros porque eles têm dentes arredondados, é mais ser devorado por um ser ignóbil, que você desvia os olhos para não encarar, e ele continua lá, mordendo, mordendo.
Aí você pensa em se matar e é como ser devorado por um escorpião. Um grande e com dentes.
Aí você pensa em se matar e as pessoas te olham na rua e dizem “nunca te vi tão bem”, aí você pensa em se matar e alguém vai te dizer que é besteira, que você tem duas pernas.
Aí você pensa em se matar e não entende o lance das duas pernas.
Aí você pensa em se matar e enfiar uma espingarda na boca, mas não quer fazer sujeira porque a moça da faxina veio hoje.
Você pensa em se matar porque quer acabar com um tanto de si e libertar a outra parte para levar a vida boa e usufruir as duas pernas.
Aí você pensa em se matar e saca que se uma parte morre, a outra também.
Aí você pensa em se matar e acha injusto não existir botão de liga e desliga para dor.
Aí alguém diz que você não sente dor alguma, porque nunca foi para o Vietnã.
Aí você pensa em se matar e desiste.
Aí você vive.
E no final morre.