quarta-feira, 3 de julho de 2013

Malta

A poesia é uma subversão do sentido. Ela só pode ocorrer quando as palavras dizem “basta” e decidem ter outro significado. Uma porta deseja ser asas, asas se transformam em vestidos, vestidos viram nuvens e nuvens, elefantes.
Aí a poesia ocorre. Ocorre muitas vezes brava, noutras meio pequena, como uma discussão num parque. Mas há poesias que são verdadeiras revoluções. Um exército vermelho, ou azul, ou verde, podendo ser cruel ou libertador. A poesia é tão a gauche que até isso pode mudar... de leitor pra leitor, podemos ter, lutando juntos Mao e Gandhi, dependerá do dia, da hora, da cor da luz... Poesia também é sensível ao sol.

Poeta vai
E derruba aquele muro
E esqueça a concordância
Jure solenemente
Nunca mais respeitar nenhum subjuntivo
E logo depois se ofenda
Diga que estão matando sua língua pátria
Dentro da boca dos seus cidadãos
Porque o poema é um mundo, um país
Há quem more nesse continente, há quem nunca tenha saído
E há aqueles que não visitam

Porque não se vai para a beleza de avião.


Carta de uma mãe ateia para uma filha pré-adolescente (ou a reinvenção do mundo)

Quando você nasceu, eu já não acreditava em nada. Na verdade, nunca havia. Esperava que algum anjo passasse sobrevoando minha cabeça durante as missas e ele não vinha. Deixei de esperar. E depois, quando não eram mais obrigatórias, as velas eram só velas, acendidas por coincidência num sábado qualquer.
E na hora em que você nasceu, não disse nenhuma benção, não usei palavras bonitas, não tinha nada pra dizer. Tive medo de machucar você, e tive medo que você não estivesse ali, segundos depois. E você crescendo e eu tentando encontrar uma forma de estar ao seu lado, mesmo que não estivesse. Nix, eu queria ser um deus para te olhar com olhos atentos, mesmo quando olhasse noutra direção. Que meus braços te segurassem com força e enleio, te resguardando de perigos, que meu beijo te seguisse, que meu colo sempre fosse seu. Queria ter mãos invisíveis que te segurassem em todas as ruas que você tivesse que atravessar. Queria a onipresença do meu afeto, te cobrindo com um manto invisível de coisas que nem sei nomear.
E quando eu vejo você maior, meio triste porque o seu bife predileto já foi um boi e isso te entristece, desejo, como São Francisco, que o leão não coma o cordeiro, que o cordeiro não seja de carne, que os seus bifes não tenham sofrido, que nenhum animal prede outro ser vivo. E desejo que não haja fome, e no meu coração eu digo “porque Nix não quer”, e que não morram crianças “porque isso entristece Nix”, e que não haja guerras, e que não haja dor, “porque Nix é linda”, e que Nix conheça a melhor parte da vida, a melhor parte de tudo. Que meu amor desvie balas, farpas, tolos, farsas, que conduza onde houver escuridão, que acenda luzes onde não for mais possível. Que proteja o corpo e a mente, que desate nós, que desate mágoas, que proteja sempre, que acompanhe mais e mais, que vá onde eu não puder ou não for mais pra eu ir. Que esteja presente mesmo após nada meu restar, que olhe, guarde, que inspire, que faça respirar, que seja a boia no momento adequado, a chave da casa nova e do porta-joias, que guarde sentimentos, que mostre coisas lindas, que assopre machucados, que enxugue lágrimas e que as tornem passageiras. Um amor como um cobertor corta-fogo, uma existência além da minha, além da força e além da vida. Que meu amor continue a te olhar, mesmo, mesmo depois. Que o depois demore muito pra chegar.
E você reza a noite e me diz que acredita em anjos, em D’us e que vê sentido na reencarnação. Eu te ensino ciências, te falo sobre política, quero que seja uma mulher mais forte ainda do que sou, mas silenciosamente eu peço que você não precise ser forte, que tudo nesse mundo te trate com candura, não te obrigando a ser dura, a ser toda. Que algo te permita ainda guardar um resto de meiguice que a realidade que prego tira em nacos. Eu te desejo a ciência mais complacente, que não use cobaias e possa descobrir a cura de tudo, desejo que um milagre ocorra por dia em sua vida, que sua vida seja o meu maior milagre. Eu murmuro palavras mágicas, eu espero que elas te alcancem; eu sei que não, mas desejo que elas bastem.
Nix, na verdade, às vezes acho que você me ensina a rezar.




não só hoje, que já é seu aniversário, mas sempre: esteja bem e seja feliz... o resto chega junto.


Maratona

Ao Juliano, intemporalmente 



Era quinta, não?
E o que era quinta? Ele respondeu que não poderia ser hoje, que ela estava enganada porque era ainda quarta-feira. Mas a manhã despertara branca e algodoada, pouco importava o dia da semana, desde que aquele amanhecer tivesse um nome. Ele escolheu sem precisar pensar muito, “Ana”.
Ana seria aquela manhã translúcida, como andar entre chumaços, como estar preso em teias sem os movimentos detidos. Ela não escolhia muita coisa. Mãos para trás, chinelos de levantar cedo e ainda de pijamas, esquadrinhou o quintal pequeno, limitado pelo muro que impedia agora olhar para o horizonte. Se sentia bem na clausura. Naquele momento pode ver sobre o portão alto que tudo estava branco. A noite havia sido branca a manhã era. Se a impressão era de esquecer exatamente a data, a outra era de poder serrar um pedaço daquele ar. Ela o faria, se pudesse, cortaria com a serra um quadradinho e guardaria numa caixa de papelão, enfeitada com um botão, uma fita e uma flor. Voltou para a casa imaginando se o naco da manhã derreteria... Será que ela se dissolveria ou ficaria escura ou ficaria de outra cor, ou morreria dentro da caixa? Aquele ar precisava respirar?
O ar talvez não, ela sim, ele sim.
E ele corria. Talvez para alcançar o dia, talvez para despistá-lo, isso eram coisas que não eram muito claras para ela, mas tampouco para ele.
O que era líquido e certo era essa coisa de ficar imaginando o que não se pode imaginar... Que poucos também se perguntavam ou achavam razoável perguntar: “O que é o que não se pode imaginar?”.
A resposta?
Realidade.