terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Elephant Circus


Há um pequeno Ganesh sobre a mesa onde escrevo. Enquanto observo a chama da vela de citronela (meu escudo contra mosquitos), percebo que a fumaça se espalha, branca, ao redor dele, o envolvendo em uma nuvem etérea.
Meu Ganesh, num instante, está num céu imaterial, cercado de monstros-luminárias e deuses-caixas de rapé.
Um dos potinhos (os de rapé) é de cravo, o outro me disseram, menta... Mas eu poderia jurar que é canela. Adquiri o hábito quando parei de fumar.
É mínimo o elefantinho, com braços humanos e adornado por um minúsculo rubi. Quando a luz incide sobre ele, percebo aquele brilhinho vermelho, como se fosse um olhinho sonolento e avermelhado, piscando para mim.
A estatuazinha foi presente de um amigo que, sabendo que minhas viagens são sempre intelectuais e que, sempre há contas a pagar me afastando do oriente longínquo, me traz souvenirs de locais distantes que visitou. Um boneco de Praga, pulseiras marroquinas, livros americanos, alguns remédios alemães. Assim como alguém já me mandou um cartão da China, com o exército de terra cota estampado na frente. Coleciono lembranças dos outros. De Paris, me trouxeram uma caixinha de música.
Ela toca La vie em Rose.
Ganesh observa meu trabalho, como eu observava a fumaça, segundos atrás, mesmo antes desse texto existir.
Às vezes, posto meu ateísmo de lado, penso em comprar incensos, trazer um raminho de mirra, acomodando assim meu hóspede indiano. Ao lado dele há um pequeno mago, tão pesado quanto o outro, mas de metal prateado. Ganesh é dourado como o sol.
E entre os elefantes e magos, especiarias e rapés, embarco num trem para nova Deli.
O curioso é que mesmo muito branca e com cabelos azuis (e apesar das roupas ocidentais), quase ninguém nota minha presença. Talvez por causa do bloco de papel e caneta, ou então do bindi que, na medida em que nos distanciamos da estação, se transforma em um grande olho ciliado, bem no meio da minha testa. E, por entre as janelas, faces de deuses se sobrepõem, coloridas por pigmentos que eu desconheço e tenho dificuldade para identificar. Há uma mulher de mil braços, um rapaz azul, há jovens virgens totalmente envoltas em flores de lótus. Alguém toca cítara no vagão, e recuso, mais uma vez, a pasta apimentada que me oferecem como desjejum. Duas imensas montanhas se erguem no horizonte, sei que é para elas que me dirijo.
Pelo corredor, Ganesh vem caminhando; para ao lado de minha poltrona (herança da paixão ferroviária dos colonizadores ingleses) e sorri. Ou parece sorrir, mesmo com suas presas e sua tromba.
Eu deixo o bloco de papel e a caneta de lado e estendo a mão.
Ajeito novamente a estatuazinha sobre a escrivaninha, mantendo uma distância respeitável daquele boleto do qual não posso me esquecer, e reparo que a vela continua a envolver o elefante em fumaça.
Fico feliz. O pequeno Ganesh, pelo menos por enquanto, estará protegido dos demônios-pernilongos.
E me preparo para voltar a escrever.


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Ao Dan


Eu gostaria de viajar com você.
Gostaria de ter essas coisas que casais fazem, de querer casar, aliançar, de montar casa com coisas de casa e não apenas necessárias; essa coisa de querer contar tudo, de estar o tempo todo presente.
Eu gostaria de detestar estar sozinha, ser sozinha, de fumar um monte. Queria ser maternal, sonhar com vários filhos, queria não gostar de política, gostar de recitar poemas, de ganhar flores, de ganhar bombons, de comprar roupas, de gastar com sapatos, saber usar sombra nos olhos e batom. De ser leve, ver o lado rosa, suave, ser otimista, nunca brigar no trânsito, xingar muito menos.
Queria que as tempestades não me atraíssem e que eu soubesse ficar quieta, num dia frio, tomando chocolate e enrolada em cobertas.
Queria ser menos proletária, menos operária, deixar essa coisa de formiga de lado. Descansar um pouco, ter paz, dar paz; talvez gostar menos de gatos. Muito menos. E gostar mais de gente. Achar gente legal, achar barzinho legal, achar legal ir jantar em barzinho, ficar de bobeira em barzinho, me arrumar pra ir pro barzinho.
Eu queria mesmo era ter nojo de boteco; medo de viagem de mochila, horror a ser completamente independente.
Queria que essa coisa de ser livre não tivesse nascido comigo, que fosse algo que eu admirasse numa amiga maluca que vive solteira e usa tênis velho. Eu queria fazer tricô pra você e ficar desenhando corações com nossos nomes dentro e te pedir coisas, ficar esperando presentes, surpresas, fazer carinhas para tirar foto e nunca ter unhas curtas.
Desejaria não saber trocar pneus, nem pra quê serve uma chave de madril, e nunca ter usado uma furadeira. Queria ter menos músculos nos braços, mais peito, mais curvas, ter frequentado salões de beleza, planejar um dia ter um closet com várias roupas, com muitas coisas; usar bolsas.
Queria saber usar bolsas, carteirinhas, frasqueiras. Queria querer um York Shire., comprar um apartamento e ter sempre o carro do ano. Eu queria que saber dirigir fosse a maior conquista dos meus dezoito anos e não ter apenas sobrevivido. Aí eu teria também o meu carro do ano, com cheiro de tutti frutti, porque eu também iria querer um nariz menos sensível, mais apaixonado por perfumes, importados, aveludados, queria sonhar com camas fofas e sofás de veludo e travesseiros altos.
Teria estudado direito ou administração e diria que apenas fiz o meu trabalho, quando realizasse uma ação de despejo. Queria que a única tatuagem fosse o seu nome, tatuado discreto, no pulso, sempre adornado por pulseiras de pingentes.
Queria não conseguir dormir em qualquer lugar nem comer qualquer comida. Queria dormir em lençóis de seda, usar camisola, queria não ter esse sono inquieto.
Queria nunca ter enterrado nenhum animal, nem ter visto nenhuma pessoa morta e quase desmaiar se isso acontecesse.
Eu desejaria ser de plástico, que assim doeria menos.



Mentira.
O que eu queria mesmo era viajar com você...
(de carona).