terça-feira, 9 de outubro de 2012

Rita


A previsão é que me atendam em duas horas. Só há um médico hoje. Na verdade, todas as vezes que vim aqui, só havia um médico.
Minha cauda ficou presa (de novo) na prensa de biscoitos. Eu já falei pro Frank que ele precisa aumentar aquela joça. Ele ralhou comigo um bocado, mas como já havia uma pequena poça de sangue, acabou deixando pra lá e me trazendo pra cá. No meio do caminho ele balançava a cabeça e tragava aquele charuto barato dele, vinha resmungando. Mas eu nem liguei.
Na portaria a atendente nem olhou direito pra mim. Pediu meus documentos perguntou se eu tinha cartão social. Eu disse que não (o Frank reclama, mas ninguém mais quer trabalhar na ilegalidade). Ela continuou “motivo da consulta”...
— Minha cauda está sangrando.
Aí ela me olhou, por cima dos óculos, e soltou um “hein?”.
Nem precisei repetir, ela olhou pra mim e escreveu, dizendo em voz alta “raposa com cauda sangrando”.
Poderia ao menos ter escrito “raposa fêmea”. Detesto quando me olham e perguntam “você é mesmo uma raposa?”. Eu sempre tenho vontade de dizer que não, que apenas me visto assim.
O Frank não pode entrar, não permitem acompanhantes (nem para humanos, nem para raposas). Ele disse que me esperaria no estacionamento.
Duas horas. Ainda tenho esperança de chegar a tempo na boate. Mas com essa cauda... O dono de lá diz que é isso que atrai os clientes.
“Eles adoram ver essa sua cauda ruiva balançando, baby!”. Credo, tenho nojo dele... Frank é um boçal, mas é gente; aquele lá não.
Mas é só um bico. Um dia consigo um papel de verdade e me mando daqui. Aí eles vão ver... Sempre que paro, depois de uma dança, pra tomar alguma coisa no bar, algum cliente vem com aquela mesma conversa “Você já ouviu aquela música ‘Fox Lady’?”; incrível como eles conseguem se repetir... E quando perguntam meu nome e eu digo “Rita”, já perdi as contas de quantos “Lovely Ritas”eu ouvi.
Mas como eu disse, é só um bico.
Esse lugar não é pra mim, não sou esse tipo de garota que de trabalha dois turnos numa cafeteria e depois vai para um clube de dançarinas exóticas, chacoalhar semi nua ao som de Bangles. Não, definitivamente não.
Isso aqui é como essa sala de espera. Duas horas e estou curada.


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Amadeu


Eu sou um pequeno gato e caminhei o dia inteiro. As mãos no bolso e o cigarro apagado na boca. Ainda não achei quem me emprestasse um pouco de fogo.
Se não tivesse saído apressado... Mas ela falava tanto, miava... Achei melhor caminhar.
De novo não me deixaram entrar naquela loja, aquela do posto perto da rodovia. Justo lá onde há os melhores sabores!... Toda vez que chego perto, a mulher gorda do caixa grita “Xô!”. Outro dia me chamou de animal imundo.
Eu já tentei dialogar, já tentei explicar, mas o máximo que consegui foi uma cliente (dessas loiras com muitos dentes que lhe deixam com cara de idiota) tentar puxar meus bigodes e gritar para o namorado “que lindinho! Ele fala!”. Engraçado que foi exatamente o que pensei dela... Ela fala. Mas poderia relinchar que daria no mesmo.
Os dias andavam difíceis. Eu tentava explicar, em casa, que aquilo era antinatural, que eu precisava de mais espaço. E ela ainda deu pra se incomodar com o meu cigarro... Na semana passada, enquanto caminhávamos, voltando do cinema; ela emburrada, perguntando se eu gostaria mais dela se ela fosse uma freira, cada vez que eu tentava acender o cigarro, assoprava o fósforo. Depois de cinco tentativas, desisti. Guardei no maço e seguimos em silêncio pra casa. Ela me diz que faz mal, que faz mal para minha saúde e que é mau exemplo pras crianças. Como se eles prestassem atenção.
Tenho que caminhar até a biblioteca para poder escrever, dentro de casa, com todos gritando e brincando de índios é impossível. Ela já me olha com desdém e pergunta se vou arranjar um emprego... “Você era um bom apanhador de ratos, às vezes até trazia alguns pra cá e eu os preparava ao molho, como você sempre gostou”... “Poderia conversar com a mulher da loja...” (a mesma à beira da rodovia).
Conclui que dizer que já tinha profissão e que era um escritor, seria ignorância minha. As crianças não precisam de outra cena. Ela gritando, o avental queimado na frente... Já disse que eu poderia cozinhar, mas nunca me deixa.
Não é um bloqueio, não deve ser um bloqueio. Isso nunca me aconteceu. Acho que só preciso de uma caixa de fósforos ou de um isqueiro. Pena não me deixarem fumar na biblioteca, seria tão mais produtivo.
Só um isqueiro e um daqueles sabores... Aqueles, da loja à beira da rodovia.
O sol avança para o poço. Já é noite.