sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Che

Você me pergunta onde anda a minha revolução.
E em resposta: A revolução se esvai na necessidade do pão.
Quando o estômago ronca não é a fome, é o ruir das ideologias.
E me cago em D'us! E logo em seguida me persigno com medo de que Ele venha cagar em mim. Feita de barro e à imagem e semelhança, pobre criatura que não foi parida.
Ser esposa e operário deixa qualquer pessoa nos trilhos.
Só por isso que os homens não permitem que as mulheres abortem, para mantê-las sub judice, receosas pela segurança das crias.
Nessa situação é melhor ser loba. Latia, corria, mordia  e ainda amamentava Rômulo e Rêmo e fundava uma cidade.



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Alguma

Ganhei um presente essa semana: um puta dia de bode.
Sabe quando tudo tá cinza, meio bege, com cheiro de mofo? Então, minha semana tá assim, normal. E pra ajudar, chovia.
No único dia que saí de casa (caso não saibam, eu quase nunca saio de casa) estava mais frio do que eu imaginava (o que significa que eu estava com pouco agasalho e sentindo frio... não gosto) e caía uma garoa fininha, chata, chata.
Um cara veio me abordar sobre política no meio da rua, achando que eu sou uma sucursal do PCdoB ambulante e que adoro ser parada para discutir sobre as maravilhas feitas pela atual administração. Tentei sorrir, não consegui. O máximo foi um tapinha nas costas... Detesto vira-casaca.
E lá fui eu. Tinha quatro horas “livres”até a carona pra casa. Não tinha grana nem queria visitar ninguém, olhar vitrine não é meu forte e não estava clima pra sorvete (adoro sorvete).
Fui pro único lugar que me pareceu razoável... A livraria. Biblioteca seria legal, mas na livraria há livros novos, livros que ninguém tocou, me sentia o profeta com suas 72 virgens.
Gosto de livrarias grandes, de passar pelas prateleiras tocando de leve às lombadas sem dobras, sem marcas. Gosto de olhar pras capas que ainda não têm digitais impressas e fico triste quando vejo um livro asfixiado dentro de um saco plástico. Penso que é impossível um livro respirar se eu não posso tocá-lo.
A livraria (única) daqui é pequena, poucas prateleiras e muita coisa de auto ajuda e como fazer isso fazendo aquilo sem esforço. Eu nem folheio.
Me sentia particularmente triste e os exemplares me olhavam, perplexos. Alguns tentavam me chamar pra mais perto, mas eu simplesmente me sentei na sessão infantil e fiquei olhando pra uma capa de contos sobre o Rei Arthur. Me sentia a Morgana, pouco antes do fim do inverno.
Era uma sensação entre o salgado e o azedo, aumentada pelo fato de que eu não escuto direito e ultimamente ficou pior. Eu estava num aquário sozinha e os livros poderiam até gritar, eu teria dificuldade em ouvi-los.
Andei mais um pouco, até que uma vendedora ficou me olhando, suspeita. Eu não sou uma menina que rouba livros, eu os compro, mesmo que muito baratos. Resolvi me sentar novamente.
Às vezes sempre tenho papel e caneta na bolsa. Queria escrever sobre viver num aquário e a sensação de que os outros estão mudos... No melhor estilo “o problema não é comigo, é com vocês”. Mas naquele dia não. Acho que foi na terça.
Não tinha como escrever e a cabeça pensava um monte de coisas que choviam junto com o dia lá fora, mas não pensava nada claro, sons que se misturavam ao abafado da minha cabeça que só escutava direito os sons da minha própria respiração. Me levantei de novo, a vendedora como quem não acreditasse... E numa prateleira, lá embaixo, ele fez “psiu”. Não sei se na hora, se eu tivesse demorado um pouco pra olhar, se ele teria prometido feitos grandiosos, ou começaria uma conversa com “eu vi que você estava triste”, ou tentaria me convencer do seu valor. Acho que repetiria “psiu”. Nem precisou.
Algo no relevo do título, algo no “2”abaixo das letras, talvez o corpo delgado, fácil, fácil, mas havia palavras... Abri a esmo e me deparei com a frase “uma coisa era certa, a mulher era uma mentirosa”... E comecei a ler como leio, do meio para trás, trocando as páginas, até achar que é hora de ir pra frente. Tem vezes que essa hora só chega dez anos depois, tem uns que nem assim. A hora não chega e conheço apenas como comecei a escrever, de trás pra frente.
E a página seguinte, anterior, tinha outra pequena história, e na outra mais uma... E o livro mereceu ser folheado do início. Era outra coisa, não era a do meio, não tinha nem o mesmo fio de letra. Caminhamos juntos até uma poltrona meio achatada, dessas nas quais você se senta e depois tem dificuldade pra levantar. Ele foi gentil e esperou que eu me sentasse primeiro. Veio logo em seguida. Havia algo que era pra assustar, talvez o nome, talvez o fato dele se apresentar whispering (não existe uma tradução satisfatória em português), como se fosse um arbusto no vento. Mas de uma noite escura, com um vento ora morno, ora gélido. Sim, havia algo para dar medo, desse medo gelado, depois morno, como o vento no arbusto. E a voz era um tom abaixo, quase grave, o suficiente para eu acreditar.
Foi assim que ouvi Neil Gaiman, direito, pela primeira vez. Traído e traduzido, mas com algo ainda dele, ainda correndo pelas páginas. Me deixei correr atrás desse algo que não podia ver, porque cada vez que via sua sombra, ele saltava para a folha da frente. Já estava lendo na ordem capa-prólogo-livro.
A tarde passou, longe da livraria, longe do céu cinza e longe de mim, também cinza e ainda com jeito de bolor. Passou comigo de mãos dadas com um local que eu esquecera, quase por completo, aquele onde moram os monstros, onde há caixas com coisas maravilhosas, empilhadas em sótãos empoeirados. Passei onde eu lembrava só de infância, lembrança que quase nem acessava, nem queria mais porque ainda doía. Passei a tarde no alpendre da casa onde nasci, com pedras escuras, e sombras que andavam conforme o sol se movia também.
Diferente do medo de continuar doente, do medo de algumas outras coisas, do medo do final do mês sem grana. Diferente desse. Era o medo que abraça o maravilhamento. Como o que eu sentia aos 9 anos, deitada de bruços, olhando pela janela, esperando aquele homem de cartola alta e modos antigos e rosto putrefato. Quando ele chegava, ao menor sinal de sua cartola eu escondia o rosto e fechava com força os olhos. Mas eu sabia que ele continuava ali. Às vezes, sem olhar, eu corria para dentro da casa e gritava pela minha avó. Perto dela era sempre claro, quentinho. O homem da cartola não entrava em casa. Mas de vez em quando, eu levantava a cabeça um pouquinho, e espiava, e sabia que ele estava lá. Pensava se ele arreganharia a boca se dissolvendo e me mostraria profundezas infernais que carregava em si. Hoje creio que não, talvez ele também apertasse os olhos com força, com medo do que eu tivesse em minha boca. Ou apenas quisesse um amigo. Eu era criança, fazia amizade fácil com qualquer um, não seria o avançado estado de decomposição que impediria de perguntarmos tantos porquês, um ao outro. Não sei, talvez ele me desse uma flor e dissesse que já havíamos nos conhecido há muito. Qualquer coisa. Não descobri. Porque um dia ele parou de vir, ou eu parei de ver.
E a sensação do medo e do maravilhamento foi sumindo também. Até que o livro cochichou que não. Ainda há. As figuras nas paredes ainda correm pra se esconder, quando acendo a luz, o hesitar da respiração com o ranger das portas, minha vó na cadeira de balanço, o fogão acima dos meus olhos, a tentativa de descobrir o que havia no poço e o medo de que minha mãe descobrisse que acendi uma vela.
Eu tive de volta essa pequena parte minha. Que deve ainda ter uns 9 anos, que ainda dorme com a cabeça coberta. Mesmo que esse pedaço sumisse em seguida, eu o vi de relance, pulando pelas páginas com a outra coisa que eu perseguia. Eu soube que ele ainda havia.
Numa noite seguinte, eu acordei, quando não se acorda direito, meio dormindo, os sonhos todos grudados como chiclete e conclui que a coisa frágil era eu, não a outra parte.
Entre todos os outros, foi o “psiu”que me comoveu. Não terminei de lê-lo completamente, ele me pediu uns dias, estava acanhado.
Seis horas e precisava ir embora.

Deixei a livraria, no meu dia de bode e ainda chovia. Mas não tanto.