sábado, 28 de abril de 2012

O espeto


Se lavou tentando retirar o resto de secreção.
Sentia tudo como se fossem carnes esponjosas e borbulhantes e olhava as mãos para ver se ainda tinha mais.
Usou o vinagre, se enxaguou de novo.
E se, se enrolou na toalha e se deitou logo depois, ou se, se fumou um meio cigarro que o cliente havia deixado no cinzeiro, não sabemos. A verdade é que adormeceu, mas não na cama.
Nunca conseguia dormir bem naquela cama.
Para isso tinha um canapé.
A cama era palco e representar o tempo todo é cansativo. O que explica o sono começado às sete da manhã que se prolonga até o fim da tarde.
Quando se pós de pé, já era noite. De novo.
Mas hoje não trabalha. O dinheiro foi mais do que suficiente para o mês inteiro. E além do mais o ventre lhe dói em cólicas que parecem madres superiores, gritando “Bem Feito!”, e ela se recorda de ter gritado, fingindo bem na atuação, “Bem fundo!”.
Fez os cálculos, pensou se gastaria alguma coisa com remédios e conclui que poderia comprar  até três vestidos, se economizasse no almoço.
A toalha não estava mais molhada, só algo levemente úmido tão verde escuro que onde ela deitara, ficara preto.
Somente se sentou, nua, com os bicos dos peitos um pouco inchados, pendendo moles e reparou  na porta que levava ao banheiro.
Uma tinta rosa, aplicada com cuidado (foi ela que fez) tentava disfarçar as lascas de madeira e todo o descascado. Algumas partes já levantavam, empenando, e se via a tinta bege que existia embaixo.
Meditando e sentindo frio, ela descobriu “A tinta bege sou eu”.