terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Valentine's day

Pã, hoje você faz 14 anos. Há uma música do Raul, que eu sei que você conhece, que começa com “Baby, hoje cê faz 13 anos”. Um ano a mais que você.
Ainda nem te dei os parabéns... Pela manhã te ouvi saindo pra escola e a única coisa que consegui pensar foi em você levar o lanche que eu comprei quando voltei do trabalho. Saí correndo da cama e gritei na janela “Leva o lanche” e depois te ouvi indo. Só quando deitei é que lembrei do dia. Tenho me acostumado a pensar no prático, no que precisa e no que não precisa, no trivial. E tanto e por tanto tempo que passou o “Parabéns” e ficou só o lanche, a hora do seu recreio, ou apenas a ideia de que não seria tão gostoso se ficasse muito tempo na geladeira. E matutei, pensei em você e te dei feliz aniversário na minha mente. Lembrei que aquele foi o horário que te vi, direito, direito mesmo, pela primeira vez. Mas não sou piegas, você sabe, então não me importei muito. Na verdade, comecei a escrever isso na minha mente pra te mandar, porque seria mais fácil que falar isso, mais legal porque você pode ler e ter a reação que quiser e com privacidade. E eu não saberia dizer...
Na verdade, pouco me importa se hoje faz justo 14 anos que você nasceu. Eu não me importo muito com aniversários, não me importo com datas, mas me peguei pensando que há tantas coisas que quero te dizer, mas que a rotina, o dia-a-dia e o que “é preciso ser feito” impedem que te diga.
Eu te desejo feliz aniversário por todos os dias. Que esse meu voto seja vitalício pra você. Que hoje, amanhã e todos os dias sejam dias pra você pensar “Mais um dia” e que seja uma festa, mesmo que contida, festa de um, de dois, de outros tantos, mas que seja celebrado. Te desejaria tudo de bom e que nada de ruim te acontecesse, mas estaria mentindo pra você e isso foi algo que optei não fazer. Nem tudo de bom vai acontecer na sua vida e é impossível que nada de mal te aconteça, o que às vezes me tirava o sono, às vezes ainda me tira. E provavelmente, de vez em quando, vou acordar e pensar se você está bem.
Eu desejo então que aconteça o máximo de coisas boas, na verdade, não que aconteçam, mas que você as perceba, porque coisas boas são corriqueiras, estão sempre ao nosso redor e muitas vezes não notamos porque são coisas boas, mas não as coisas boas que queríamos. Eu desejo que você note tudo de bom que aconteça com você. E que as coisas ruins, bem, que elas sejam amenizadas por um ombro amigo, pelo olhar do cão que espera você chegar, pela mãe, pelo pai, pela irmã, pelos tios, que seja amenizada por você mesmo e pela sua força interior. Que sejam obstáculos que te permitam se rever, se olhar, mudar um caminho, encontrar uma saída, ou vivenciar a experiência humana da dor e do desespero. Mas que ele tenha fim, que ela tenha fim, que não seja irreversível, que seja apenas um ponto a se diluir na sabedoria adquirida e na compaixão exercida. Tenha compaixão filho. Eu tenho me esquecido do que é isso e é um pedaço que arrancam de nós. Tenha compaixão apesar dos noticiários, dos jornais, dos programas de auditório, das contas pra pagar e do trânsito caótico.
A compaixão te afastará do banal, do olhar comum que embrutece, que vê só a carne e esquece de ouvir a canção.
Eu te desejo músicas.
Te desejo livros.
Desejo a você filmes e seriados.
Te desejo sofás, comida saborosa, caseira, fresquinha, desejo que o seu paladar seja aguçado e que você dê risada de boca cheia quando estiver provando algo delicioso.
Desejo Pã que você ria, sorria muito e que chore sozinho. Que saiba o que é chorar sozinho e que isso te permita valorizar quando chorar abraçado com alguém. Desejo que você tenha poucos motivos pra chorar de dor, poucos motivos pra chorar de tristeza, e mesmo que não chore, vários pra chorar rindo, chorar de rir, chorar de alegria que parece que vai ser uma onda e então você chora.
Eu queria que você conhecesse um mundo melhor, mas quando olho pra você e penso em quem você é e está se tornando, vejo que você fará um mundo melhor.
Eu desejo a você paz. Paz de espírito por confiar nas suas decisões, que não sejam tomadas pelo seu coração, mas pela sua mente. O que não significa que serão decisões sem alma, sem ternura, sem amor. Mas serão as melhores.
Eu gostaria de poder sentar ao seu lado, tomar um café, ouvir música e conversar com seu avô. Gostaria que ele estivesse vivo pra conviver com você. E sobre as perdas, filho, elas virão. O que eu espero é que elas demorem pra acontecer e que sejam no ritmo natural da vida. Desejo que não te despedacem e que a saudade não seja cruel, mas seja só o reflexo da qualidade da convivência que cessou.
E eu desejo conviver com você. Que quando você sair de casa, que não seja obrigação me visitar, mas que você queira muito e que eu tenha feito por merecer. Que você venha para o almoço e fique para o jantar, ou desmarque compromissos importantes e se apresse pra sair do trabalho, porque eu farei aquela torta. Espero que você tenha alguém ao seu lado, que seja fiel, que seja inteligente, que seja a pessoa que verá os seus melhores momentos e que verá suas melhores qualidades e que conhecerá bem os seus defeitos, mas que não te julgará por eles, mas com eles. Defeitos fazem parte das gentes. De mim, de você, de todo mundo. Pã, espero que você não veja só os defeitos dos outros e que saiba que há alguns dos quais precisamos abrir mão, pois machucam quem amamos.
Eu desejo que você seja amigo da sua irmã, por todo o tempo, que ela seja sua melhor amiga, que você seja o melhor amigo dela.
Desejo amigos, desejo animais, desejo que você não tenha frescuras, trabalhe com o que te fizer menos mal, porque trabalhar é chato, mas quem não trabalha perde a noção da realidade e começa a julgar todos os outros perdedores. Não desejo isso pra você. Desejo que trabalhe na medida certa, mas que tenha tempo pra você, pra ser você, pra sonhar, jogar conversa fora, ler um tanto, ler muito, escrever ou só tomar um banho demorado. Desejo que o mercado de trabalho não te massacre, enquanto corpo, enquanto alma. Desejo que o mundo globalizado não te reduza, que você se reconheça como pertencente à cultura da qual veio e que isso te traga sempre pra casa, mesmo quando estiver longe, mesmo quando o caminho for longo, porque eu sei que você ainda vai entender a frase do Mágico de Oz. Muitas vezes eu quis que não, mas ela é verdadeira.
Eu desejo plenitude, desejo amplitude, que talvez salte de paraquedas, com segurança, é claro. Desejo que fique velho, muito velho, mas com qualidade de vida, porque de nada adianta se não tiver qualidade.
Eu desejo que você se saiba. É isso. Que se conheça e perceba que às vezes a vida é aquilo que nos ocorre quando estamos fazendo outros planos. John ainda está certo. Desejo que você use aqueles óculos, mas que ninguém atire em você por você pregar a paz.
Pã, não só hoje, todos os dias, gostaria que meu amor por você fosse um escudo e que se não puder ser, que seja um apoio.
Feliz aniversário meu filho... você sabe o quanto.