sábado, 21 de janeiro de 2012

Because

O interessante é que sonhei com você. E pela manhã, a primeira mensagem era um aviso de que eu havia me conectado à rede.
Preciso te contar sobre a decepção da mensagem não ter sido sua? Acordei me sentindo roubada, porque no sonho era como se eu tivesse você sem tempo indeterminado. Foi assim, sabe? Engraçado porque havia os mesmos elementos que na vida real, eu sabia que deveria manter uma distância física o suficiente para não ser interpretado como uma traição qualquer abraço, ou beijo, mas quando te acordei, no sonho, que teve alguns dias, você me puxou por cima do seu quadril e tentou me fazer cócegas e eu te respondi “Não sinto”. E já levantei correndo pra preparar café. Você usava um pijama claro de gola em vê. Nunca vi, não sei se tem ou não, mas era engraçado que tudo funcionava como na realidade e quando você acordou já pôs os óculos.
E havia gatos e havia uma coisa chata que parecia a de setembro... Um de nós dois ia embora, acho que era eu porque a casa era sua, um apartamento super cool com uma sala com luz indireta... Eu ira embora na madrugada, você estava bravo, mas o pior foi acordar; não vou te contar o sonho todo porque era cheio de detalhes e o que importou é que acordei desesperada pra te ver, queria ter deitado no parque de novo, sem frio, sem chuva, sem essa coisa de que você tem pegar ônibus, ou sou eu que volto pro interior, ou qualquer  coisa assim. Todos nossos encontros foram com prazo de validade. Isso é doentio.
E a segunda mensagem do dia também não foi sua.
A terceira foi sua e me deu um aperto no peito, porque era pra eu sair de casa, caminhar alguns passos e te chamar no portão. Eu teria levado um pote com a torta que fiz, mesmo que não goste de doce, essa você comeria. Passaríamos a tarde conversando em voz baixa.
Não sei bem te explicar, só sei que te disse várias coisas na minha cabeça, te expliquei que deveríamos levar nossos projetos adiante e que tive uma visão naquele dia que acabei não te contando uma coisa. 
Hoje foi dia de faxina, tirei todos os DVDs da estante e caíram alguns no chão, adivinha qual foi o primeiro? Antes do amanhecer e naquele instante, de pé, no meio da minha sala, eu caminhei por Viena com você.



terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O Trago

Havia tanta tristeza, tanta tristeza naquela paixão, que eu resolvi fazer um filme. As vísceras não concordavam. Andavam incomodadas por causa da comida ruim e das péssimas condições de sono. Aí chegamos a um impasse. Como amar com tanta azia? Como descobrir o belo enquanto o estômago queima e barulhos espúrios escapam de sua boca?
Era o corpo se fazendo notar e o real dando um chega pra lá em qualquer lirismo imaginário.
Sim, porque o lirismo e a candura da vida são coisas que imaginamos para facilitar o caminho até a morte. São pequenos óculos coloridos que usamos numa cena de guera. O sangue mais vermelho, as tripas azuis-rosas ou violetas, parecendo tudo um quadro do Andy Warhol.
É isso que a poesia, que qualquer arte, fazia e que aquele amor insistia em fazer também. Dourar a pílula.
Então caminhou até o bar que ficava na esquina. Bar imundo, tarde por acabar e as roupas amarrotadas. Ele fumava e ainda por cima era o último cigarro. E pior, ele tinha consciência disso.
Só um fumante que não tenha dinheiro pra comprar outro maço sabe a angústia e a delicadeza de se fumar o último cigarro. Um misto de dor e prazer, de tragar e tentar reter a fumaça. É como ter um filho, é como defecar em uma fossa asquerosa e, mesmo assim, com muita vontade. É a retenção do momento ao ponto doer no corpo, se embrenhar na musculatura e começar a desfazer o corpo sólido.
Era assim que ele entrava naquele bar. 
Sabendo da existência de um fim. 
Só fumantes sabem disso.
E viciados em heroína.
Ele caminhou a contra gosto naquela tarde só pra se dar ao luxo de beber um gole de bebida barata e azeda. 
Era o que sobra.
Aqui cabe uma explicação sobre o tempo verbal utilizado. Se o ser é sempre passado, o “sobrar” continua. Continua restando para ele só aquilo. O trago amargo que ainda parecia doce naquela boca de dentes mal lavados.
Eu, o autor, sei disso, porque na minha forma atemporal, estava lá, provei a boca e lambi cada tártaro. Mas o meu maço ainda está pela metade.
Ele não queria acreditar no que aquela garota dizia. E ela falava, falava, apontava vitrines enquanto segurava o braço dele com força e urgência. Na cama, enquanto ele (e aqui me foge a intenção)...enquanto ele... . Ele nada. Apenas pensava num gozo mais satisfatório que a vida toda, Ela falava, contava histórias sobre um cão resgatado de um poço e pensava que ele iria pedi-la em casamento. O cão era ele. Mas os bombeiros demorariam.
Ele não acreditava quando ela dizia que o amava. Ele não acreditava porque não queria. Não era possível. Sem réstias de luz, por favor, foi o que disse ao acordar.
Agora se limitava a se escorar no balcão sujo como uma alma encardida.
Percorreu os olhos pelo bar e pensou que deveria voltar para o seu quarto e cortar os pulsos.
Não. Aquilo era algo tão feminino. 
Desde que vira os absorventes na lixeira, associara sangue a mulheres. O certo mesmo seria brincar de roleta russa.
Mas ele não lembrava mais de sua nacionalidade.







domingo, 1 de janeiro de 2012

O Divórcio

Ele/Ela andava nem suportando o cheiro de sua urina. Muito menos a consistência de seus excrementos. Ele/Ela andava em desconformidade com o seu todo, tentando divorciar o corpo da sua mente. Nenhum observador, mesmo que treinado, conseguiria pressupor a batalha travada entre aqueles dois.
A mente havia concluído que não poderia continuar sendo enquanto atrelada aquele corpo. Os movimentos peristálticos, os flatos e outras peculiaridades tornavam o fardo por demais pesado. Enquanto aquela mente desejava alçar alturas inigualáveis do conhecimento em sua essência, muitas vezes pela livre associação ou por um ócio baseado na inércia permanente, o corpo lhe punha grilhões. Havia outras coisas.
A mente já tentara, em vários e distintos momentos de sua vida, se localizar em outros pontos. Tentou se manifestar nos joelhos, em outras articulações, no omoplata, num rim. Aquela solitária na qual permanecia a angustiava. Fora confinada à cabeça. E o desgaste do nervosismo ela sentia no corpo, o que fazia com que ela se ocupasse com ele.
Aliás, esse era uma das principais queixas que ela (mentalmente) detectara.
O corpo lhe tomava muito tempo.
Durante seus instantes entre o questionamento sobre um teorema matemático, a apreciação de um belo HaiKai, era necessário se ocupar com coisas básicas. A preocupação com a higiene das partes íntimas, a limpeza bucal, uma correta alimentação, a feitura da barba (sendo ELE) ou a depilação (sendo ELA), os exercícios, o coito, a hora das pílulas, a necessidade de vestir-se, a combinação entre assessórios, o deslocamento da casa ao trabalho, o cuidado e a destreza no trânsito... Tudo isso lhe roubava um tempo precioso, o qual ela (a mente) não estava mais disposta a perder.
Ela queria poder ser num outro nível de existência. Ela tinha um plano.
Num momento de distração, ela  se livraria do corpo de forma clássica  até mesmo  histórica: ela  o faria bebendo cicuta.
Todo o plano já havia sido cuidadosamente revisado.
A mente gostava de chamar esse plano de “Plano F”, de Freedon, já que era uma mente poliglota.
E construiu, nos últimos dias, uma série de castelos imaginários, todos muito interessantes.
Ela estaria livre.Um dia, porém, a mente acordou morta. Completamente morta.
O corpo também tinha um plano. E duas coisas sobre ele a mente não sabia.
1º O corpo chamava seu plano apenas de “O Plano”;
2º O plano do corpo, este sim, dera certo.