quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Antes dele

"Apenas pra me fazer ciúme".
As palavras tamborilaram por sua mente, sem que de fato se fixassem a nada.
Não faziam sentido.
Como era sempre muito literal, aprendera que brincadeiras continham quase toda a verdade. Por isso não compreendia ironias. Era como se passasse por cima da máscara, por uma ponte que ligava imediatamente o sigificante ao significado.
Sentiu-se confusa. Depois magoada.
Tentara entender a gênese do comentário escrito no papel com baton e borrifado com um estranho perfume.Escrevera uma ou duas teses, de cem páginas, sobre a importância científica do ciúme como agente regulador social.
Fumara outro maço de cigarros.
Esperou.
Quando a tosse veio, cuspiu sangue. 
Era um sangue pisado, misturado a algum vivo, exatamente como seu coração.
Aquele capuz não lhe servia.
E lembrou da noite, quase anterior, que dormira abraçada por uma só pessoa. Lembrou da distância solene que os corpos mantiveram, da face tão próxima à sua e da boca, que após escrever tantos beijos, agora pedia para que eles fossem ditados.
Lembrou também da negação e sentiu um asco atroz de si mesma.
Naquele "não" ela empenhara tanto valor próprio, tanto sentido e uma bula como escrita para qualquer remédio para amor.
Viu os olhos se focarem em seus lábios e aceitarem, com um sorriso tácito, a decisão que tomara antes de ouvir.
Antes de saber.
Recostada na cama, que lhe pareceu enorme, relembrou a cena que passara num quarto, quase de hotel e sem água encanada. Ali também o sertão era bruto.
Da mão que tentou adivinhar-lhe o corpo e da sua, detendo-a antes que começasse o percurso.
E pensou nos sorrisos maliciosos das garotas daquelas fotos e das coisas que ela já sabia sobre ele, mesmo que ainda negasse.
Ela abriu a janela e puxou o ar em vão. Depois de 200 anos, o pulmão a mataria lentamente.
E ainda pensando na negativa daquela noite, concluiu: "Se arrependimento matasse, o pulmão perderia a vez."