sábado, 27 de agosto de 2011

A Evolução de Eva

Eva começou como uma menininha de olhos escuros e cabelos com algumas cores. E caminhava à beira de uma estrada, ritmada pelos postes de luz. Detalhe: a estrada era de terra.
Não havia ainda um arranha céu nem mesmo um trilho de bonde. O máximo que se via eram os fios dos telefones nos quais os passarinhos se pautavam.
Eva continuou como uma moça, cortou o cabelo e agora usava óculos e trocou os chinelos por umas botas pretas, que logo ficaram avermelhadas pelo areão. A estrada ainda era de Terra. E Eva tinha dúvidas sobre aquele caminhos, sobre os horários de expediente bancário  e  sobre o que significava “expediente bancário”.
No caminho já era uma mulher dos seus 30anos. Marcou o corpo, usava calças masculinas e já entendia sobre quase tudo. E ainda caminhava.
Na beira da estrada, o acostamento era a sua passarela. E ela se maravilhava com as construções.
Eva tornou-se uma senhora. A visão falseava. Seu coração já não era pequeno, mas era fraco.
Andava devagar, desviando-se de carros modernos e voadores.
A estrada era a mesma, mas só. Ela não era mais a mesma, o mundo não era mais o mesmo.
Um dia, Eva cansou e morreu.

Na verdade foi descanso.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Redentor

Constantinopla se preparava para a queda, já que a fuga não era o propósito. Naquela época, ele avaliou, não se usava joelheiras.
Eu não me preparei pra mais nenhum tombo, andei elevando a alma e suspirando fundo, como se respirasse hélio. Como seu fosse voar. Ah, que inveja dos passarinhos.
Mesmo dos grandes, que com ossos ocos ou coisa que o valha, alçam vôo, permanecem no céu.
Anjinhos de um deus louvável por imaginar coisas bonitas.
Esse deusinho, que deveria ser criança, deve ter crescido, do tempo que inventou o bem-te-vi pra cá.
Agora já deve ter passado da adolescência e de tudo mais e trabalha mais de 14 horas por dia e vive sempre ocupado. Não tem mais tempo pra família.
Deve ser por isso que nunca vem e não atende aos telefonemas. Os pais compreendem. Os filhos não.
Mais uma biblioteca em chama e não consigo desculpá-los. Essa magoa de algumas décadas vai crescendo a cada exemplar novo que adquiro... Fico imaginando que, se não queimassem, eu teria mais, saberia mais. Minha vida seria a mesma só que com binóculos magníficos e cheios de aparatos. Eu saberia ler em sânscrito usando esses bifocais do exército americano.
Que nem americano seria. Talvez todo o continente fosse meu.
Aliviada, quando acordo, ando esperançosa sobre o encaminhamento de muita coisa. Ignoro solenemente qualquer dor ou pulmão, e procuro, numa caixinha, bandeirinhas para fixá-las num enorme mapa mundi.
Mesmo assim, mesmo conquistando e domando potros selvagens, e fazendo rendas, e cozinhando massas, e escrevendo livros, e passando roupa como na tinturaria extinta do lado de casa, sendo mãe, amiga, mulher e amante, e profetisa do pós-apocalipse, ai, que inveja dos passarinhos.





sábado, 20 de agosto de 2011

Shadow - parte 1 da Primeira Parte

Escrevo, não exatamente por vontade própria. Ela me pediu.
Da última vez que nos vimos, me disse que, se algo desse errado e perdêssemos o contacto, deveria enviar algumas explicações e um pedido de ajuda a você.
Hesito em fazê-lo já faz dias, desde que recebi um ...  com informações que fazem pouco sentido pra mim. E um diário. Na realidade um diário em três volumes. O que há nesse diário talvez não faça muita diferença pra você, mesmo assim eu o envio.
É um relato dos fatos que ocorreram no período em que estivemos separados e outros que se deram muito antes de nos conhecermos... Esperei... Acreditei que ela faria contacto, porém a total ausência de um sinal me forçou a tomar essa decisão. Sei que já sabe dos riscos que envolvem a continuação da leitura e do conhecimento do que tenho pra contar; sei também que, sobre muitas coisas, você já deve ter conhecimento, mas não tenho como fazer a seleção. Dessa forma você não receberá apenas um diário: serão dois. O meu e o dela. Talvez diários póstumos, mesmo que uma tola esperança me diga que não.
Conhecendo as implicações existentes, peço que considere a situação e caso não esteja disposto a enfrentá-las, peço que queime essa carta e o conteúdo anexo, antes mesmo de lê-lo. Entenderemos sua decisão.
E de forma alguma deixe que caia em outras mãos. Agora são dez horas da noite. Vou reunir ânimo. Como você, também vou precisar de coragem para continuar. Creio que tenho muita dificuldade para acreditar em outras pessoas a essa altura dos acontecimentos.
Ela me garantiu que devo confiar em você... É inevitável que eu tenha minhas dúvidas, mas vou acreditar.
Deixarei você decidir o que fará.
Continuarei ou não em breve.

2:15 da manhã- Bombaim, Índia.

Se estiver lendo essas palavras é porque decidiu atender a esse pedido de socorro. Já passa das duas e Bombaim está muito quente, até mesmo para os indianos ou para essa época do ano... Um enorme escorpião passou lentamente pela mesa onde eu escrevo e nem me preocupo mais em matá-los. Eles não nos atacam... Na realidade, parecem nem notar nossa presença. As crianças se assustam um pouco (principalmente Nicole), mas já aprenderam a conviver com essas criaturas enigmáticas... Somente agora os dois dormiram; Pietro dorme um sono agitado, provavelmente por causa do calor, mas sem pesadelos. Só se sente um leve tremor ao redor.
Esse lugar me parece muito mais próximo do inferno do que as visões perturbadoras de Dante. Pessoas mutiladas pela lepra na rua, corpos humanos e animais boiando em rios, a pobreza e a miséria se misturando às tradições, uma sujeira além de qualquer padrão de imundice ocidental... E mesmo assim, trombamos com pessoas sorridentes e alegres na rua, há noite e há dia... Talvez não seja o inferno, seja o paraíso.
Não sei o que irá nos acontecer daqui pra frente. Tudo o que ocorreu nesses últimos meses me parece um sonho do qual tento despertar furiosamente, mas em vão. Toda a minha concepção de realidade foi varrida. E duvido, duvido sinceramente, que sobrevivamos, pois nada faz sentido. Nenhuma das coisas parece se encaixar e somente a ameaça constante às nossas vidas ainda nos serve de guia nessa fuga.
Há quase dois meses espero por uma notícia dela e este é o maior espaço de tempo que fiquei sem contacto. Bem, eu propriamente não. Eles é que, de certa forma mantém um contacto com ela, Pietro e Nicole. Meu corpo já deixou claro não ser apto para isso. E só assim fico sabendo onde ela está e se está bem. Não tivemos nenhum sinal, não sei de nada e há uma semana, mais precisamente, recebi uma correspondência que só poderia ser dela. A data de postagem era de quase um mês atrás e havia vários selos de diferentes lugares, indicando o trajeto longo que ela fizera até chegar aqui. Havia uma carta escrita de forma rápida e um envelope contendo o ... que envio a você e os três cadernos que compõem o diário. Talvez nada disso seja muito útil, talvez seja um erro enviá-los, mas não tenho nada no que me firmar. Vou acreditar no meu instinto.
Na carta ela me pediu para aguardar aqui, em Bombaim, somente até o dia 25. Dia 25 é daqui duas semanas, provavelmente você já terá recebido essa carta.

Esperei para começar a escrever até hoje, pois imaginei que saberia mais sobre ela e o por quê da data, mas nem uma coisa, nem outra. Então eu lhe contarei o que sei e, na data combinada, partirei com as crianças. Destino? Ignorado.



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Carona

Antes de ontem eu sonhei que sofria  um acidente. Desses onde o ônibus explode, capota e você escapa, miraculosamente, ileso.
Me desvencilhava das ferragens com a coragem de um guerreiro depois da guerra. O rosto sujo de graxa e sangue, carregando uma velhinha nos ombros.
Os olhos perdidos nas lágrimas e contemplação.
E naquele instante, cara a cara com a morte, eu renasceria.
Valorizaria a vida, os minutos respirados, mais ainda os expirados, conseguiria mudar o mundo e adotaria vários bebês panda.
Esse seria meu ritual de passagem, já que não tive festa de 15 anos.
Sim, querido (te tocando no ombro para chamar sua atenção), a mente humana é doentia.

E a minha é a mais humana de todas.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

Beatle boy



As marquises choravam
em meio à algazarra
de fim de tarde
E eu presa naquela foto.
Na noite, você cantando
Beatles meio fora do tom.
E eu fui feliz.
Os olhos vermelhos
Capturados momentaneamente
Minha boca imensa
Querendo morder teus dedos
Até sangrar.
O céu vestido de chumbo
Eu vestida em andrajos
daquilo que eu já fora.
“Eu te vi rosada, angelical”
Pensou em dormir comigo
Hoje ostento olheiras.
Não sou mais dormível
Sorrio como quem engole
Espadas.
Abano as mãos
Como se espantasse as moscas
Que são pensamentos
incômodos
Indômitos
Cavalos da imaginação
Potros novos
Carregando o coração
Coroados os instantes
As flores tecendo
telhas.
A casa aguardando
Resfriados.
Os porcos devoradores de pérolas
Eu me torturando
Enquanto uma Billie
Me diz que não.
E a música percorre os
músculos
Fugaz
Eu precisaria que você
desistisse de ser sozinho
e me recebesse com gavetas
abertas e panelas no fogo
eu seria um cateter dos
mais delicados.
Pulsando
Punindo
Remediando o mal
Causado segundos atrás
Te condenando
A vinhos, filhos
Velas e tardes de preguiça
Chicoteando teu rosto
Com cabelos
Cheirando a flores
Dolorosas, doloridas
Como tudo que
Cai de dentro


Across


Se remexeu inquieta na cadeira. O sono fora embora e algo era como um espinho entre a carne e a unha. Mas não sentia.
O estômago doía, mas não era ali, na barriga, depois do esôfago, essas coisas. Era no passado. Estômago dolorido no pretérito imperfeito.
E será que ele saberia? Será que fora de propósito? Ou apenas a vida continuava com as peças, as mímicas, rindo baixinho para não incomodar a platéia. Ela não sabia. E não sentia também.
Talvez aquela coisa não fosse dor. Revirou a procura do que era. Talvez não fosse nada, ou um vazio.
Ela acordou vazia. Tirou os pregos das mãos, o peso das costas e o sorriso do rosto e usou algo que deixara de lado: lembranças.
Pela manhã, antes do sol, ele saía. Uma outra desculpa era o que não precisava... Ele voltava para o almoço sem saber dos espetos que andava tatuando por ela.
Agora foi igual.
Achou que tivesse jogado tudo fora, mas nesse dia ela caiu da cama e ele a estava esperando, braços abertos, olhos corroídos, morto como no dia seguinte, mas ali. Fiel, marital.
Não se sabe ao certo o que ela sentiu. Pela expressão vista de fora diríamos que era horror. Ou talvez medo, que é diferente quando se aplica a pessoas sem temores. Ela se sentiu igual.
Foi ai que tudo ruiu. Arrancou as marcas que haviam deixado sob sua pele, ainda branca, algum pedaço sem cor. Amassou o papel que não ficou.
Será? Ela tinha um pacote de “Serás” e respondia às dúvidas assim. “Se alguém disser uma palavra com m, agora, é porque eu devo cortar o cabelo”. Decidira quase tudo dessa forma.
Desmentiu a sensação de paz e gritou, baixinho, sussurrando: Eu não o amo. Essa era a oração principal, as palavras mágicas de proteção e vaticínio.
Mas o problema não era com ele, era com o que havia passado. A volta apenas se completara de forma parecida e ela não queria arriscar. Tadinha.

Não amava ninguém.


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Check in - Check up

Eu sempre detestei rodoviárias.
Depois de mais velha aprendi a detestar aeroportos.
Detestei a primeira vez que deixei a minha mãe.
Detestei aqueles guichês e a pista imensa. Mesmo quando fui buscá-la. Não havia gratidão naquelas paredes.
Rodoviárias eram portos de solidão. Você chega, você vai, você deixa, te deixam. Até os bancos são desconfortáveis o suficiente para nada ser permanente.
Naquele dia eu não deixara ninguém, nem ninguém me deixara. Era só mais uma de inúmeras viagens. Nem trabalho, nem a sonhadas férias, era só rotina.
São Paulo parecia engasgar. E era comigo.
A luz de hoje era como uma película argentina, cobrindo de bênçãos os cabelos escuros da população paulistana. Me perdi nos reflexos vermelhos, tentando entender o arruivamento desse povo.
Não carregava expectativa de retorno. Aceitei aqueles reflexos como lenços brancos me dizendo adeus, ao som da sinfonia delicada do motor do ônibus deixando a plataforma.



quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A Senha

Um senhor
De mãos
Informes
A senha racional
As palmas pareciam
Pés
Sabe-se
D’us lá o que
Não sabia
Contar o tempo
E perguntava a todo instante
Não me disse
O nome dos números
Não respondi
O sentido
Das horas
Acordo tácito

E a fila anda

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Crônicas de um puteiro II - A memória

Outro dia, sentado no bar de homens gordos, infelizes e solteiros, eu estava conversando com uns amigos sobre as vantagens de se estar só. O Samuca,um baixinho de óculos que vive reclamando porque nunca come ninguém, foi o primeiro a se opor à minha opinião.
_Você é um bosta. Já foi casado três vezes com umas gostosonas e foi tão merda, tão merda que perdeu as três e está sozinho.
Bom, nessa altura já estávamos muito bêbados, afinal, era sexta-feira e ninguém nos esperava em casa (com exceção do Samuca, que além de ser baixinho e usar óculos também mora com a mãe, o que nos faz pensar certas coisas suspeitas sobre ele).
Já fazia horas que estávamos discutindo e é óbvio, sem chegar a nenhuma conclusão. Mas isso pouco importa, o que importa é que me irritei com o comentário feito e não parti pra cima porque não sou o tipo que gosta de briga, sou um tipo cerebral e retruquei.
_O que você sabe da minha vida matrimonial mal sucedida, hein? Nanico.
O Samuca odeia quando o chamamos de nanico, mas como isso é verdade, ele desencanou de me bater e explodiu:
_Sei que você teve três mulheres, lindas e que você deixou as três sem ninguém saber por quê... Quer dizer, você deve ser viado, né?
Quando ouvi aquilo senti o sangue me subir à cabeça. Como aquele tampinha tinha coragem de me dizer aquilo? De achar que sabia da minha vida? Aí me lembrei (acho que graças à enorme concentração alcoólica no meu sangue) da minha primeira mulher: Lúcia. Há tempos não pensava nela, sua lembrança era por demais dolorosa e eu a havia trancafiado, junto com as das outras, num lugar sombrio e esquecido da minha memória, tão sombrio e tão esquecido que nem eu mesmo sabia onde era.
Lúcia fora meu primeiro amor, depois de Luíza, é claro.
Com as madeixas loiras, as opiniões formadas e tudo mais, enquanto eu era um moleque que mal sabia do meu próprio nariz. Estudamos juntos na faculdade, fomos amigos, amantes e seguindo meus instintos (já que minha razão gritava “NÃO!”) me casei com ela.
Tudo bem durante o primeiro ano, não pensávamos em filhos, nos amávamos e nossa casa era um refúgio aconchegante. Eu na faculdade e ela também. Nós juramos que ficaríamos juntos para sempre e patatí e patatá. Com o passar do tempo a idéia de um filho tornou-se agradável.
A gravidez correu tranqüilamente, até o nascimento de nossa primeira filha, Vitória. E nosso sonho dourado foi perdendo o brilho até se tornar um amarelo diarréia. Depois que Vitória nasceu nos distanciamos, como naturalmente costuma acontecer. Era hora do banho da nenê, da comida da nenê, do passeio da nenê, e até os peitinhos que eram meus, deixaram de ser. E Vitória crescia, Lúcia começou a trabalhar e três anos depois nasceu Endrigo, meu caçula. E se com o nascimento de Vitória, Lúcia havia se distanciado, com o nascimento de Endrigo ela havia mudado de planeta. Um bem longe sem contacto algum com o meu pobre e pequeno planeta Terra do Jorge.
Nessa época eu já trabalhava no jornal e estava tentando publicar meu primeiro livro.
Saíamos sempre com as crianças (eu não iria deixar meus preciosos filhos na mão de nenhum dos parentes tresloucados de Lúcia). Dormíamos, com as crianças. Nossos amigos eram pais de outras crianças. Nossos passatempos eram cinema e teatro infantil e a única bebida da qual eu chegava perto era leite (e geralmente dentro de uma mamadeira). Para se ter noção do que se tornara minha existência, a felicidade suprema era quando, por exemplo, eu comprava um chicle de bola para Vitória e outro para o Endrigo e a figurinha dos dois era igual, assim eles não brigariam.
Certo dia, numa Páscoa, depois de examinar dezenas de ovos para saber se eles eram iguais, se não teriam brinquedos diferentes, se não haveria a possibilidade remota de algum defeito ter embalado um bombom a menos em algum deles, eu sentei e chorei.
E Lúcia continuava não se lembrando de mim, me deixava largado num canto e nem à noite me recolhia. Eu amava meus filhos, como os amo até hoje, mas essa coisa de pai solteiro não era comigo. Sexo? Nem sabia mais o que era. Garanto que Lúcia nem percebeu quando arrumei as malas e fui embora.
Minha memória perambulou um pouco pelo bar, senti uma vertigem, um pequeno enjôo, mas passou. E quando percebi estava me lembrando da Tamara, minha segunda esposa.
Depois da minha incursão fracassada como membro do clube dos casados, decidi ser solteiro pelo resto da minha vida, como já fizera uma vez. Jurei nunca mais amar ninguém, muito menos uma mulher que não fosse a minha mãe ou minha filha (se bem que na época cheguei a cogitar se elas realmente mereciam o meu afeto). Mas um dia, desavisadamente, Tamara entrou no bar como os cachos vermelhos, uma saiazinha curtinha e dizendo que o carro quebrara ali por perto e que precisava de ajuda. Todos se ofereceram menos eu. Ajudar uma mulher com aquelas pernas seria suicídio emocional e eu sabia disso. Acho que ela também. Apenas olhou para mim e fez um sinal para que eu a acompanhasse e o resto vocês imaginam. Mais uma vez ignorei minha razão e me casei. Fomos morar juntos e tudo era ótimo, ou melhor: quase tudo.
Depois de uns dois anos de casado, creio eu que deixei de ser interessante (ou talvez tenha sido o meu bloqueio criativo), pois Tamara me deixava em casa e ia para as festas com os amigos e, quando voltava, estava cansada demais para qualquer coisa e ainda mais qualquer coisa comigo. E mais uma vez fui relegado ao segundo plano, minha atividade sexual caiu de 10 para -50 (com exceção das mocinhas das revistas), minha alto-estima teve um grave problema de nanismo e meu peso subiu dos 90 para os 120, mas essa foi a única coisa boa que me aconteceu. Terminei com Tamara... Bem, ela terminou comigo, dizendo: “Não é com você o problema, é comigo. Mudei muito, sou mais moderna e sofisticada e a sua personalidade cerebral (e fez uma cara de asco quando disse isso) não combina mais comigo”. E bateu a porta na minha cara, logo depois de jogar minhas malas escadaria abaixo.
E como se uma força sobrenatural estivesse fazendo com que eu me lembrasse dos momentos mais penosos da minha vida de simples minhoca, meu pensamento parou num rosto com aqueles olhos... Ah! Os olhos.
Novamente eu recorrera ao bar dos solteiros. Desolado, desamparado, com o orgulho no lixo, o coração em pedaços e os pedaços jogados na neve. E como se um vaticínio maligno me comandasse agora, um dia eu a vi. Sentada sozinha na mesa do canto, bebendo frappé. Miudinha, tão diferente das outras, desamparada, quase chorei ao vê-la. Quis confortá-la e me sentei ao seu lado.
Sua história era parecida com a minha, com algumas pequenas diferenças cruéis (o segundo ex-marido fugiu com o primeiro). Um mês depois e estávamos casados. Seu nome era Luíza e até que enfim eu teria uma só para mim.
E nada de errado com Luíza. Amiga, fiel, me acompanhava, gostava dos meus amigos, lia meus livros e à noite eu nem precisava mais sair de casa para me divertir. Dificilmente dormíamos. E esse hábito começou a se prolongar. De madrugada ela encostava o corpo esguio em mim e perguntava “Meu bem, tá acordado?”. E aquilo era incrível, era fantástico, tudo o que eu pedira a Deus. De manhã ela me acordava beijando os meus pés, subindo pelas pernas e bom, é íntimo demais para contar assim. A verdade é que nem em sonhos eu pudera imaginar algo assim. E quando eu voltava para casa na hora do almoço ou mesmo num intervalo de filme, à tarde e no fim de semana... E o trabalho começou a ser o meu refúgio.
De madrugada eu fingia estar roncando ou então inventava uma dor qualquer. E mesmo assim Luíza continuava a me acompanhar e demonstrar a mesma dedicação e afeto. Lavava minhas roupas, passava minhas camisas, fazia mil pratos diferentes e nem ligava se eu fumava ou tinha colesterol alto. Ela me amava.
Morávamos num prédio, aliás, morávamos num prédio rodeado por um milhão de outros prédios e como Luíza era belíssima, não nos importávamos em fechar as janelas. Em pouco tempo viramos atração do bairro, as pessoas ficavam em suas janelas ou varandas com plaquinhas e quando terminávamos, elas erguiam-nas e olhávamos as notas: 10; 9,5; 9; 10. Nunca menos que isso. Mas meu preparo físico nunca fora dos melhores, como eu já disse, sou do tipo cerebral. E depois de três anos de uma vida conjugal feliz, eu já não era o mesmo. Os olhos fundos, a barriga que eu tanto cultivara com apreço e carinho havia sumido e eu estava quase atlético. Chegava sempre atrasado à redação e um dia, quando meu desempenho pareceu ser comprometido pela tamanha exigência feita do meu físico, recebi uma nota 7. Levantei e fui embora. Aquilo foi demais para mim.
Pensei mais um pouco, olhei para o Samuca e seus olhinhos vermelhos de raiva, os amigos me segurando. Respirei fundo e pedi para me largarem, que não iria fazer nada.

“Sabe Samuca”, falei calmamente, surpreendendo a todos, “Você tem razão”. Virei as costas e saí rebolando pela rua.