quinta-feira, 28 de julho de 2011

Na arquibancada

Ela beijara o garoto imaginando o homem que ele se tornaria.
Do meio do estacionamento movimentado do shopping a tenda brotava como uma revanche a tudo o que os arquitetos poderiam fazer.
Nas pontas dos pés ela se pusera para poder abraça-lo pelo pescoço.
Recriemos o cenários e momento daquele abraço:
A luminosidade turva da cidade sem estrelas pareceu se ressentir com aquele cordão de luzes, como uma boca com alguns dentes amarelados e outros faltando.
Foram os astros daquele instante improvisado que só poderia ter ocorrido ali ou num palco de teatro de rua.
Um pisca-pisca sobre a lona sinalizava para O.V.N.Is e aviões, mas ela se lembrou de cenas e impressões de sua infância. Seria uma festa junina, ela de trança e se chamava Maria. Mas a rumba, que tocava alto, afastou qualquer coisa do campo ou tradição.
Aquilo era mágica.
O local, nem as luzes, nada daquilo existia no mundo.

Os dois se beijaram reafirmando sua condição de intrusos do imaginário.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Arlequim

Apoteose, meu carro de carnaval saiu antes da hora.
Era domingo ou terça-feira gorda, as mocinhas desfilavam entre saltos na avenida. O destaque se molhava na garoa fina de fevereiro.
Em São Paulo, a folia é outra.
Dois ou três Pierrots do bexiga dormem abraçados à uma garrafa de pinga, cuidando dela como Arthur e o santo Graal. Algumas diabetes mascam chiclete.
Eu disparo fotos e espero que elas durem, espero que a máquina não molhe... Tropeço no confete.
Caminhando entre ruas meio apertadinhas e calçadas rebaixadas, dessas de cimento misturado com areia, a cena toda já perdeu o som e eu acompanho as pessoas em slow motion. Até efeito de filme envelhecido alguém caprichou para dar e, por um instante, seria Veneza. Não fossem meus tênis, não fosse esse relógio, eu imaginaria que era 50 anos atrás e que me tornara viajante no tempo...
Alguém rodopia uma luz, me lembrando uma sirene. Alguém me manda beijos por detrás de uma máscara.
Os rolos de filme se acumulam na tira a colo, e eu acumulo as impressões do meio dia, do sábado seguinte, de todas as visitas a parentes que eu mal conhecia e que morreram logo em seguida.
Tem um gato magro no um terço do bueiro, como se tivesse enquadrado e fazendo pose para a foto. A bacia, ossuda e despelada, ainda guarda algo de negro e talvez ele capture ratos ou animais fantasiosos dessas festas à fantasia. Quem sabe seja um gato mágico e apenas me traga um duende de bueiro. Mas ele foge, assustado, quando o mestre sala reverencia a porta bandeira.
Alguma coisa rebate em minha perna, uma pedrinha que se soltou do asfalto ou algo longe e não se de onde veio. Eu me curvo, faço foco, vou disparar e o que vejo: seus olhos, claros, me acenando na multidão.



quarta-feira, 20 de julho de 2011

Jornais - parte 29

TRÁFEGO


Ah, nem tem como negar. Eu fiquei toda encanada com o tal papo da Ana. Putz, não que eu pensasse algo assim do Rafa, ele é a pessoa mais confiável que eu conheço. Mas é que é chato se sentir rejeitado... Bem, o pior é que ele também deve ter se sentido, né?

Eu adoraria ser desse tipo de mulher que inventa mil e uma coisinhas, compra flores, faz agradinhos, mas não sou...

E aí fiquei pensando que talvez o Rafa estivesse se sentindo sozinho, sei lá, meio abandonado na neve e resolvi fazer uma surpresa.

Na hora do almoço fui comprar umas velas, dessas perfumadas. Passei numa loja de perfumes e comprei uns óleos pra massagem e emendei com uma caixa de morangos, um pote de sorvete e uma garrafa do vinho branco que ele adora. Achei que aquilo fosse ser o suficiente pra deixar claro para o Rafa que eu só tinha sido baleada, tido uma parada cardíaca e depois fiquei três meses com uma gaiola nojenta no ombro, fui despedida do meu emprego e andava fumando e bebendo mais do que em toda a minha vida, mas que era uma fase. Uma fase ruim Bem ruim... Mas que iria passar e que eu me sentia do mesmo jeito com relação a ele.

Fui pra casa, deixei tudo arrumadinho pra só dar um toque quando chegasse.

De noite, quando voltei, tomei um super banho e vasculhei meu guarda roupa atrás de algo que não fosse jeans, all star e camiseta. Achei um vestido clarinho que nem lembrava que tinha, me arrumei, sequei o cabelo, acendi a velas. E me deitei na cama pra esperar. Achei que uma escada iluminada por velas e eu de vestido na cama era sugestivo o suficiente. Ele devia chegar perto das nove. Esperei um pouquinho, não queria ligar. E resolvi trazer os morangos e o sorvete pra cima. Arrumei tudo na escrivaninha no quarto. Passei um pouco mais de perfume. Então eu achei que trazer o vinho para o quarto também seria uma boa idéia. Trouxe da cozinha um baldinho com gelo e deixei o vinho junto com o sorvete. Aí achei que o sorvete tava um pouco mole e levei ele de volta para o congelador. Apaguei algumas velas, deixei só uma, ascendi um cigarro. Fumei e depois percebi que eu estava fedendo a fumaça, passei um pouco mais de perfume e usei um desodorizador de ambientes. O gelo do baldinho começou a derreter também e devolvi o vinho pra geladeira, voltei para o quarto, tentei ligar para ro Rafa, o telefone nem chamava.

Esperei um pouco, desci e resolvi esperar na sala. Tentei ler um pouco, não deu muito certo, ascendi outro cigarro, me arrependi de novo, mas já  que ia ter que escovar os dentes de novo, passar perfume e o desodorizador, fumei outro. Esvaziei o cinzeiro, achei que esperar no quarto ainda era uma melhor idéia, apaguei as velas que sobraram. Deitei na cama e liguei a TV. Zapiei e não tinha nada. Ascendi outro cigarro. Esperei um pouco e fui escovar os dentes. Lavei as mãos, passei o desodorizador, achei que o Rafa tava chegando, desci correndo, peguei o sorvete e o vinho, subi os degraus de dois em dois. Era engano. Tentei ligar de novo, não consegui.

Percebi que não havia trazido taças. Desci, peguei duas e voltei.

Sentei na cama. Resolvi escolher uma música pra criar um clima. Liguei o computador e comecei  fazer uma play list. Separei algumas coisas e deixei Billie Hollyday rolando. Ouvi um álbum inteiro. Acabou e o sorvete parecia uma sopa, desci e guardei ele de novo. Subi, procurei uns DVDs, coloquei um documentário do Scorcese.

A garrafa de vinho me olhou.

Eu desviei o olhar.

Ela continuou a me encarar.

Me sentei ao lado dela.

Abri, servi um pouco e comi um morango, deixei o documentário rolando. Achei que agora era o Rafa, mas era impressão de novo. Tomei mais um pouco de vinho, deitei na cama, tirei o vestido, pus uma camiseta branca, comi mais um morango, outro copo, outro morango, mais um cigarro, morango, escova de dente, morango, fui pra sala com os morangos e com o vinho, me esparramei no sofá, morango, cigarro, copo, morango, vinho, mais um copo... Acho que cochilei porque acordei com o Rafa todo molhado e sujo de graxa me beijando.

Rafa!

Amor, o que é tudo isso, hein?

Isso o que?

As velas, os morangos, a garrafa vazia de vinho...

Ah, ela tava cheia...

Eu acredito e até imagino onde foi parar o conteúdo...

Ah, desculpe, eu comecei e ...

E...

E por que você demorou?

Dois pneus furados na marginal, um único estepe e um namorado que não sabe trocar pneu...

E por que você não ligou?

Um celular atropelado, tá na bolsa pra ver se você salva o chip... Mas o que é tudo isso, hein? E você só de camiseta na minha sala?

Eu tava com um cara legal aqui e esqueci de guardar tudo quando ele foi embora...

Sua boba... O que você estava pretendendo?

Nada, me embriagar com o vinho e atear fogo à casa.

É? À casa? Que pena...

Pena?

É, porque se fosse fogo em outra coisa que não fosse a casa...

Ah, não cogitei nenhuma outra possibilidade...

Não?

É.

Hum, e se eu dissesse que tenho outra garrafa exatamente do mesmo vinho? E que eu estava tentando desesperadamente voltar pra casa?

É? Pra que?

Porque eu sabia que a minha mulher estaria aqui e eu passei o dia todo com vontade dela, sabia?

Não, não sabia...

É, pois é... Então... Deixa eu te levar pra cama, deixa? Você já bebeu um pouco mesmo, eu levo  o outro vinho, levo um baldinho com gelo,  encho a banheira, te dou um banho, faço uma massagem e a gente faz amor bem gostoso, vai?

Você  está querendo me embebedar e abusar de mim?

Você já está embebedada e eu também vou beber com você... O que você acha?

Você  vai beber comigo?

Vou, acho que hoje merece...

Merece por quê?

Porque os dois passaram o dia pensando na mesma coisa... E depois desse tempo todo, é  bom comemorar...

Você  acha, é?

Tenho certeza... Vem, te levo no colo para o quarto... Vem?...

Ah, que bonitinho.. .Que romantiquinho

Você é uma coisa, viu?

Sou é?

É, mas é uma coisa da qual eu gosto muito... e avisa que amanhã você não vai trabalhar...

Por que?

Você vai entender...

Ai, que medo...


A Prece

Sim, D’us mora onde há alegria. Por isso nadava tão atéia. Se eu deixasse cores ao iniciar cada passo, começaria com branco e terminaria com bege, um fraco, quase branco também, porque não gosto de nenhum dos dois.
Tenho pensado em não continuar. Era isso.
Não continuar o dia, a hora, não continuar o emprego, as relações, amigos, e não continuar nenhum outro texto. Não havia um percurso que eu pudesse correr que fizesse sentido. Essa via de duas mãos que se tornou a vida era difícil de entender. Tudo baseado no “se” e já ouvia ele dizendo “IF”.
Ah, quem nasceu e se acostumou sozinho não pertence a tribos e não tem um brasão de família, sofre com idéias de aproximação. É como se eu me juntasse a um bando de gnus, ou que fosse um lêmure, ou usasse um cocar exótico, igual ao de todo mundo.
Agora as palavras saem arrancadas por um boticão e eu sonho que perco os dentes. Acordo desarmada porque eles são os meus troféus, dentes grandes, largos, cheios de ponta e eu adoraria que fossem venenosos para macular o alface...  Ou então matar de novo o presunto... Essas coisas que se faz dez vezes como um transtorno obsessivo compulsivo para se ter certeza de tudo.
O que os monges fazem melhor que todos nós?
Eles paravam tantas horas nos dias e rezavam, rezavam, aí pediam, não sei bem. Não sei como funciona a oração de um monge, porque quando eu ainda rezava, na verdade não era isso. Eu apenas me sentava e tentava sorrir com várias partes do corpo. Mas não conseguia e começava a imaginar coisas, formas, ia ouvindo uma música até acabar a hora da oração. Os monges não. Acho que eles têm coisas sérias e, mentalmente, começam a seguir um corredor imenso, um atrás do outro, em voz baixa, num túnel cheio de luz e o da frente sempre leva um incenso.
Acho que é isso.



Jornais- parte 28

NINFAS





... Nossa, vocês não vão acreditar! Ontem eu sai com um cara incrível, maravilhoso, alto forte e tão voraz! Acho que foram mais de quatro!

Não acredito. Esse tipo de homem é lenda...

E ele nem dormiu entre uma e outra...

Você  tá mentindo, Ana...

Tô  não, vocês é que estão com inveja.

E não é para estar? O cara que eu tô saindo dorme antes da gente começar!

É? Então você tem sorte, porque o meu namorado acaba antes de eu começar...

Bom dia, o que vocês estão fofocando? Posso saber?

E você lá se interessa por esses assuntos?

Que assuntos Ana?

A Ana tá nos contando que saiu com um cara ontem e foram mais de quatro...

Mais de quatro o que?

Adivinha?

Ah, sei... Parabéns...

Até  parece e você acha que a gente não sabe?

Não sabe o quê?

Você  tem um namorado maravilhoso, Rafael, não é?

É...

Meu bem, eu conheço um homem só de olhar, o seu deve ser do tipo antigo...

Tipo antigo...

É,ou tipo exportação se preferir... É o cara que sempre esquenta antes de começar, só vai depois de você, ainda quer mais e nunca falha, mas também pudera, com aqueles músculos, e aqueles olhos...

Ana, eu ainda estou aqui, espera eu virar de costas pra falar o quanto o meu namorado é gostoso, pode ser?

Ai, desculpe, não é isso, eu só tava falando e...

Tudo bem, parabéns pela noitada Ana, espero que isso melhore o teu desempenho no jornal...

Nossa, o que foi? Tá azeda hoje?

Hã, Rose, bom dia...

O que foi, hein?

Ah, essas gurias, falando do que só pra variar?

Mais uma noitada da Ana?

Perfeito!

E por que isso te irritou tanto?

Não me irritou não!

Irritou sim, se não você nem teria se importado como sempre faz... O que foi?

Nada...

Sei...

É verdade, não foi nada...

Tá  bom, eu acredito...

...

Mas achei que sendo amigas...

Ah droga, tá bom, me irritou sim!

Eu sei, quer me dizer por quê?

Sabe o que aconteceu, já faz umas semanas, naquela noite que eu fui jantar no Paulo, sabe?

Sei...

Então, quando eu cheguei em casa e conversei com o Rafa, ele me disse uma coisa... Que já devia fazer uns três meses que não...

Que não?

Que não...

Que não o que, criatura!

Que não fazíamos você sabe o que...

Ai, eu não acredito! Eu conheço você desde que você nasceu e você não consegue dizer a palavra 'transamos” perto de mim...

Ah, o  Rafa me disse que fazia mais ou menos uns três meses, mas eu nem registrei na hora, tava exausta, deitei e dormi... .Aí ontem eu me lembrei disso, que já fazia um tempão e sei lá, achei esquisito, a gente até um tempo atrás transava todo dia... Tá feliz agora que eu falei?

Tô...

Sei lá, todo dia sobrava um tempinho, mas já faz uns dez meses que não é assim, começou a ser dia - sim - dia- não, e depois que eu voltei do hospital a gente nunca mais transou...

Hum...

E bom, isso nunca aconteceu comigo e ontem, depois que eu tomei banho, me sequei, pus um vestidinho e fui ver o que o Rafa tava fazendo...

E?

Ele não quis nada comigo, disse que tava cansado, que teria muito trabalho hoje e virou de lado e pronto.

E daí, meu bem? Você não fez o mesmo com ele?

Fiz, mas eu fiquei com uma gaiola no ombro, praticamente uma ponte pênsil. E o Rafa nunca tinha dito não, ele sempre tava disposto... E como...

Ai, desencana, ele deveria estar só fazendo charminho pra você, só pra você ficar com vontade... Não precisa ficar assim...

Será  que ele enjoou de mim?

Ah, me poupa... O Rafa é doido por você...

Hum, problemas no paraíso, hein?

Ah não, Ana, cai  fora...

Nossa Rose, que gênio...

Não  é gênio não, é que eu te conheço e você vai falar um monte de besteira pra ela e é tudo que ela não precisa ouvir agora...

Rose, você está me julgando precipitadamente, eu só vim aqui porque não pude deixar de ouvir o que vocês estavam conversando...

E por que será , né?

Você  deveria parar de tentar protegê-la,  ela precisa saber...

Saber do que?

Desencana, nada do que ela possa dizer pode vir a ser útil pra você... Ou pra alguém na face da Terra...

Você  me detesta, não é mesmo?

Você  nem imagina o quanto, Ana.

Tudo bem, eu não ligo, sou superior a isso, mas olha meu bem, fique de olho porque homem que rejeita sexo dentro de casa é porque está tendo fora... Pense nisso, viu?

Sai daqui Ana, vai pra lá e vê se morde a própria língua e nos deixa em paz por um tempo.

Tudo bem, já estou indo...

Obrigada, Rose...

De nada, meu sonho dourado é esganar essa perua... Olha, esquece o que ela disse, viu?

Tudo bem...

O Rafa te ama, mas você precisa dar mais atenção a ele, viu? Ele morre de ciúmes de você...

Acha!

Não acho, tenho certeza... E querida, com um homem daquele dentro de casa, você nunca deveria cogitar dizer que está cansada, aliás, se eu fosse você, não colocaria os pés pra fora, sorte do Rafa que tem você, porque qualquer outra já o teria desmontado...

Rose você não tem jeito...

Eu sei... Agora vamos trabalhar, tá bom? E não quero ouvir um pio a respeito de qualquer coisa relacionada ao que a idiota da Ana tenha dito, está bem?

Está... Mas será que...


Não!






domingo, 17 de julho de 2011

A Bela e a Fera

Meu último trago é esse beijo escancarado na sua boca, ao som de Charles Aznavour, chorando por compartimentos e me derretendo numa vida de impossibilidades.
É a dança com a bailarina da ponta à bituca, que me segura a cintura firme e me estrangula os seios quando encosta a cabeça no meu peito e dorme, tirando meu tempo, meus passos, me convidando para danças ainda não decoradas.
É você que me encanta e  me consome e me descarta e me embaralha, me distribui entre participantes da mesa e me reparte com qualquer pobre. Eu não entendo essa nossa afeição. Eu não julgo a estádia pelo café da manhã.
Porque na melhor das madrugadas, o desjejum foi um pão seco e o copo d’água, perfumado pela Virgem, descansando sobre a televisão.
Tive recordações, a moça cortando o salão, mãos nas mãos, o moço a segura e a rodopia, ela usa um tomara que caia e se preocupa. Não quer se despir antes da próxima  música e ama todos os cantores que tinham costeletas.

Ele apenas a olha, os movimentos vêm mecânicos porque ele nem sabe mais onde está, não vive nada além daquele momento que esperou por duas vidas e ainda barganhou a alma. Ele se apaixona a primeira vista quando ela pisca maliciosa. O nome dela era Souza Cruz.



sexta-feira, 15 de julho de 2011

P.F

Sinto saudade das conversas com o meu pai. Ando sentindo falta de ser filha.
Daquele tom de voz que usava para falar com ele, que guardei hoje para uma ocasião especial, quando ele virar uma esquina e nós dois trombarmos, de frente, um com o outro.
Vou dizer “bom dia” e ele vai sorrir de lado. Alguns minutos de silêncio para retomar o ritmo da caminhada e ele vai me contar as coisas, e concluiremos que não estou tão desatualizada assim.
Não sinto tanta falta da proteção, nem do ombro amigo, ou do quanto ele me amava, ou das grandes verdades que ele me ensinou e de todas as outras que ainda estavam por vir.
Sinto falta do trivial.
Meu pai era feijão com arroz.


O ciúme

Tenho vivido perdida entre uma conexão e outra, entre a rodoviária anterior e a próxima, enumero as plataformas e confundo cidades.
Hoje tentei chegar a um bar, pra comer alguma coisa que ficou na minha memória, mas não era aqui, era noutro estado, ou país. Tudo depende de que língua acordo falando.
E tentei visitar um amigo que não mora aqui. Me confundo toda e misturo títulos de ruas com nomes de cinema e muitas vezes paro numa praça pra respirar.
Me chamaram de neurótica de novo. Mas se entendessem que sinto a carne tremendo um pouco, que meus dedos não se firmam, que outra gripe me ronda e que meu pulmão ergue as mãos dizendo que se rende, e que seria tudo mais interessante se não girasse sempre em torno do dinheiro... Se entendessem e me deixassem quieta um ano inteiro, talvez aí sim. Ou não.
Eu reli algumas coisas.
Pensei em você de relance, porque você não faz parte de nada concreto. Eu pensava sobre o “Eu te amo”. Quase disse isso outro dia, mas na hora, antes de abrir a boca, me achei tão falsa, porque eu não amo ninguém. Só um ou dois, mas não era naquela hora, nem naquele lugar. Me soou como um orgasmo fingido.
Tenho deixado de ser dissimulada e sentido mais ou menos dor. Na verdade, eu também não sinto nada. Sofro de uma disritmia emocional e se ainda escrevo é porque sei que você vai ler. De alguma forma, você me acompanha.
Essas eram as garrafas com mensagens, a tal prancha na qual devemos caminhar.
Olha isso: a você eu amaria. Talvez de corpo e alma, talvez dia sim e no outro talvez. Fico tão desorientada nessas cidades que se misturam e viram outra, que escrevo o nome das datas nas mãos. Para nos localizarmos em que ano estamos. Começaria amando esses seus olhos e depois eu te amaria, porque você é cheio de defeitos e de amargura. 
É quase impossível amar os que são muito certos. Nós não os queremos para nós, queremos apenas trocar de corpo, ganhar as certezas, é uma relação de possessão sem os efeitos especiais e o vômito verde na cara. Mas é a mesma coisa. É a intenção de espoliar e levar as virtudes para casa. Se eu as levasse para a minha, elas ficariam deslocadas, como um grupo de estudantes num chá beneficente. Mas de beneficente os chás não têm nada. São terríveis e também são amargos como você. É por isso que eu os amo tanto e te peço, gentilmente: entre na xícara. 





sexta-feira, 8 de julho de 2011

Na carne

Não, a literatura nunca dá conta da solidão, da morte. Aliás, nada dá conta disso... Talvez, reafirmando a negação, só a morte daria um jeito na solidão. O contrário é impossível.
Já foi começando o pensamento, negando. Era pela antítese que formulava essa dor.
Também é impossível passar remédio em qualquer tipo de medo, com palavras. E não é porque elas são ocas. É porque não existem.
A Palavra dita é água que não chega ao chão. Ela sobe para uma nuvem, assim que sai da boca, mas não chove. E palavra escrita é um bom alimento para as fogueiras.
Se a literatura é algo perigoso, estando inversamente ligado ao tamanho da liberdade, nascemos com as mãos amarradas aos pés. Eu queria mesmo era nem ter nascido, não ter passado de uma célula desacompanhada... Até mesmo para que exista vida é necessário mais de um.
E detesto a dualidade.
Vamos fazer o seguinte: escreveremos o mês inteiro e mandaremos nossas notícias pelo correio. Você não vai entender nada, porque a minha letra é feia, e eu vou me desinteressar antes de abrir o envelope. Vamos sucumbir ao tédio, por favor?
E a história da última dança começou ali.
Ele se despediu da mulher que imaginou para a vida inteira. Se despediu com palavras, aqui está a comprovação da maldade desses entes.
Ela aceitou, entrou no carro e disse um adeus, sem palavras, vejam isso. Só no aceno de cabeça. Porque era tudo que restara a ela. O gato, a dor, a solidão e a morte haviam comido sua língua.





Corpo fechado

Ela resolvera mandar três recados num só.
“Senhorita Fulana, Senhorita Beltrana e Senhora Sicrana, agradeço os presentes enviados, mas, no melhor estilo Dona Beija, eu os devolvo e desejo em dobro todo o carinho que me desejaram. Ou isso aí que me deram.
Como todos sabem, cada um dá o que tem.
À Senhora Sicrana aconselho que cuide do seu primogênito de forma decente e atenciosa, poupando-nos de suas caraminholas e cabritagens. À Senhorita Beltrana, tem um trabalho, não? Honre-o sendo uma mulher cordata. Duas coisas que não têm sido ao longo da vida, nem mulher, nem cordata. À Senhorita Fulana, não escreva mais essa bobagem que chama de poesia. É um lixo.”
E clicou em Enviar.
Sabia bem do destino daquelas palavras e se cansara de ter o nome escrito na boca do sapo, entregue para pai de santo rezar, a sorte lida na cartomante e todos aqueles bonecos vodoos. Precisava de uma trégua.
Se ajeitou na cadeira de espaldar alto, as almofadas protegendo as costas magras dela das costas magras da cadeira.
Se olhássemos de trás, veríamos que se preparava para escrever um diário. Se voltássemos no tempo, pela manhã, saberíamos que escarrou sangue novamente. Nos manteremos no mesmo foco.
Ela praticaria o jornalismo Gonzo paralelo ao seu trabalho cotidiano.
Tomou fôlego, o quanto pode. Era só um pouco. Não se chamaria “Medo e Delírio”. Seria apenas “Medo”. Coçou a nuca e pensou no que sentia. Não era medo.
A falta de ar, o desconforto com a postura ereta, a consciência plena de que aquilo só iria piorar não a assustavam.
Nova tentativa, mesmo que algo doesse com insistência.
“Dia não sei qual de um mês de um ano qualquer...
Ao atravessar a porta daquela lavanderia, tive a noção de que essa dor, esse vazio físico me acompanharia durante todo o próximo ano. Não respirei fundo porque não posso, mas já idealizei às próximas palavras desse diário.
Aquele seria meu último ano como cavalo de corrida.”

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Aqueles homens

Como eram detestáveis aqueles homens que zombavam da morte. Riam-se dela como se fosse um brinquedo ridículo na prateleira. Não temiam e sentiam o gosto de anjos.
Asquerosos homens que cortavam os pulsos, pulavam de mesas com cordas nos pescoços, injetavam uma quantidade enorme de ar nas veias, bebiam venenos e se atiravam de prédios.
Planando, voando contra a corrente de ar, tocando os abismos com as mãos, sentindo a vida com a ponta dos dedos, de unhas arrancadas.
Execráveis e duradouros.
Para eles, o espaço era um loop sem fim. Não havia um ponto final.
Esses homens horríveis amavam e desamavam, atiravam em aves e se enfeitavam com suas plumas. Alguns criavam quadros e faziam literatura, eram médicos e bons pais de família.
Estranhos e malévolos esses homens sem temor.
Todos eles. E havia uma mulher.



quarta-feira, 6 de julho de 2011

Pra ele

Ela atravessou a rua com pressa.
Esperara, com o coração batendo em locais desencontrados, por esse dia.
Olhou para o café e rapidamente voltou ao primeiro convite, que havia se estendido até aquela esquina.
“Um café”.
Olhou para o relógio no braço magro e ajeitou as luvas. Deveria ter usado um par mais formal, mas era primavera e não fazia sentindo aquele tempo. Chovia e ela se encolhia nas roupas meio largas e molhadas.
Respirou, tentando reduzir o vermelho das bochechas e a respiração entre-cortada.
Se ele se desapontasse com ela e se tudo mais talvez ela até esquecesse de como voltar para a casa do amigo. Mas são riscos, pensou. Ela sempre se esquecia de tudo e se atrasava, por isso o relógio. E nesse instante percebeu que não usara um grampo para fixar a boina no cabelo liso e solto. Tudo dançava dentro dela.
Examinou o trajeto que fizera, mentalmente, até ali e reparou nos tênis velhos que calçava. Viera de botas longas, mas no metrô as trocara porque machucavam seus pés.
Pés.
Divertiu-se com esse pensamento.
Decidiu que já era hora.
Entrou no café, música ao vivo. Era ele no sax. Um sininho na porta denunciou sua entrada. Eles se olharam, ele ainda no palco. Se reconheceram.
E sorriram.


terça-feira, 5 de julho de 2011

Fogo fátuo

Ela se desapaixonara outra vez.
Seus amores vinham com data de validade. Um mês, quinze dias. Nunca duravam mais tempo.
E dessa vez como as outras.
Sentada na ponta do sofá, como se desse lugar para outras pessoas e se espremesse entre elas, os joelhos junto ao peito, o casaco enorme cobrindo as mãos, olhava a fumaça entre os dedos.
Prendera o cabelo em coque. Parecia uma bailarina Greta Garbo. I want to be alone. Era a legenda permanente na parte debaixo da tela.
Lembrava das histórias de criança. Tinha ela uma alma guardada em outro lugar? Quando encontrava alguém, o que lhe perguntava, antes do beijo, antes da cama, era: “Você guarda a minha alma?”. Até hoje não tivera uma resposta positiva.
Pensou nos olhos azuis que fuzilavam com a angústia e a mansidão.
Teria ele também uma alma em outro corpo? Ou dentro de um ovo, no fundo do mar?
Seria ela quem guardaria a alma dele, e ele que guardaria a alma dela?
Anotou mentalmente para perguntar depois.
Quando mais tarde, numa roda, entre amigos, alguém lhe perguntou “Você escreve sobre você?”, ela respondeu que não.

Ela escrevia sobre “todas as mulheres que eu poderia ser”.



segunda-feira, 4 de julho de 2011

Jornais - parte 27

NINGUÉM  É DE FERRO




Sexta passada as coisas, definitivamente, saíram do controle.

Tudo começou (ou acabou, não sei ao certo) quando eu liguei pra ela. Devia ser umas oito da noite. Nós sempre nos falamos pelo telefone e liguei pra saber se tava tudo legal e ela me pareceu tão chateada! Perguntei o que tinha acontecido e ela me disse que o Rafa (urgh! o que se pode esperar de um cara de trinta e quatro anos, lindo, forte e advogado?) iria sair e ela teria que ficar em casa sozinha. Bom, sem pensar muito ou duas vezes, eu a convidei pra dançar e (ai Jesus!) ela aceitou. Quando ela disse sim, o idiota do meu coração deu um pulo e desmaiou. E ficou aquele silêncio no meu peito (acho até que ela percebeu). Eu nem sabia o que fazer, achei que o mais apropriado seria buscá-la em casa (assim também evitava um furo). E às onze em ponto lá estava eu. Eu já havia ido à casa dela, mas nunca dessa forma. Era sempre pra pegar alguma coisa ou levar, mas nunca para apanhá-la para sair. Toquei a campainha e, justamente nessa hora, meu peito resolveu se pronunciar e voltar à vida. E batia com tal velocidade que eu comecei a cogitar um ataque cardíaco.

Eu não agüentava esperar e ali, parado, de pé, em frente à porta, pensava desordenadamente. Pensava no caso do Rafa atender, o que eu diria?

Oi, vim pegar sua maravilhosa namorada para ir dançar comigo...

E nessa altura ele me dava um murro e eu desmaiava. Ou talvez se ela aparecesse de bobs, com a cara cheia de creme, dizendo Sabe Paulo? Desculpe, mas eu havia me esquecido que hoje é o dia de tratamento de beleza... O que é bem mais importante que sair com você... Bom, dessa vez não tinha murro, mas eu desmaiava do mesmo jeito. Mas não.

O que aconteceu foi que depois de alguns minutos a porta se abriu e um aroma de flores exóticas (que já conheço tão bem) evadiu-se do interior da casa e me envolveu... A partir daí comecei a ficar bobo... E de repente lá estava ela, mais perfumada do que nunca, cabelos soltos, levemente molhados, um sorriso no rosto, a carinha de menina sempre ressaltada pela falta de maquiagem e um vestidinho preto (que vestidinho filho da puta!) todo molinho, fresquinho, que combinava tão bem com aquela noite de verão, um vestidinho com uma estampa de florzinhas claras e nos pés uma sandaliazinha de couro deixando à mostra aqueles dedinhos incrivelmente brancos. Bem, sabe, pra reparar em todos esses detalhes foi preciso um pouco de tempo, então fiquei olhando pra ela com a boca aberta e um pouco de baba escorrendo pelo canto da boca.

Ela deu uma tossidinha, e falou daquele jeitinho:

Já  sei! Você é a Cris e tá esperando o Rafa?

E me lançou um sorriso maroto que me deixou mais bobo do que eu já  estava. Eu não pude responder nada, só ri sem jeito e indiquei o carro. Até tentei abrir a porta pra ela, mas acho que isso seria impossível, pois quando me dirigi para a porta ela já estava dentro do carro. E lá fomos nós.

Chegamos à boate e não tivemos problema pra entrar. As pessoas à olhavam de um jeito como se sentissem a luz que irradiava dela e ela nem percebia, conversava normalmente, sorria, ficava sem jeito quando ouvia um elogio... Me enlouquecia aos pouquinhos.E se fosse parar por aí, estaria tudo bem.

Você  gosta de dançar? Eu perguntei com cuidado.

É claro que gosto... Acha que eu aceitei o convite por quê?

Por pena?

Por pena?! De quem? Se for de você, Paulo, esquece... Aliás, se souberem que viemos à boate juntos, as garotas vão me escalpelar na segunda...  Elas te adoram! Será que eu vou ficar bem careca?

Só  você que não me adora , né?

Larga a mão de ser bobo... Pode ser?

Pode...E aí?

Você  perguntou se eu queria dançar, lembra?

Claro que lembro... então?

É claro que quero.

E pronto! Ela me deu a mão, me levou pra pista, tirou as sandálias, deixou-as num cantinho e bom, eu nem consegui dançar. Dei dois passos e fiquei parado, de novo com a boca aberta, olhando. Ela se movia com a música de uma forma, que bom, prefiro nem lembrar...  Era denso, lânguido, quente de uma maneira que eu nunca poderia imaginar que ela fosse capaz. Ela parece uma garotinha se fazendo passar pela mãe o tempo inteiro, mas ali na pista dançando, vi que era realmente uma mulher de trinta e três anos, adulta, livre, experiente, sexy de uma maneira quase criminosa e profundamente ciente do que é capaz de provocar nos homens. Em minutos havia vários caras em volta dela (caras que eu sei que nunca a olhariam pra ela se a encontrassem num dia normal de tênis-jeans surrado- e blusa quase branca) Eu nem tive reação de tão abobado que estava, mas nem foi preciso pois ela se desvencilhou deles de uma forma sutil, se movendo graciosamente para o outro lado da pista onde, por coincidência, eu me encontrava agora plantado. E ela foi se aproximando e eu quase sem saber como me conter, fui ficando zonzo, sem ar. E ela segurou a minha mão, me puxou pra perto, dançou juntinho até que a música acabou e dei graças aos céus que eu tinha escolhido um lugar onde tocava blues. Ela quis se sentar um pouco. Pediu uma tequila (parece que só bebe isso) e depois outra e voltou pra pista. Me convidou, mas não achei prudente... Já que não poderia me controlar mais. E a noite passou e eu lá, sentado, abestalhado, querendo que nunca chegasse a hora de ir embora. Mas chegou.

Depois de se sentar por um tempo, ela me disse que estava meio cansada, mas sei que queria voltar pra casa pra ver se o Rafa já havia voltado do jantar com a Cris (esse cara é um idiota...).

Saímos e fomos para o estacionamento. Ela toda suada e descalça, mais sorridente do que de costume (só com as que eu contei, foram cinco tequilas), se sentou no capô do carro e calçou as sandálias, entrou no carro e me agradeceu pela noite. Bom, até aí eu havia me controlado como o mestre Yoda. Peguei o caminho de volta e viemos conversando. Aí, sei lá por que, ou melhor, por causa de um martini a mais, eu a convidei para ver o sol nascer em Santos.

Mas já passa das três... E o Rafa?

Ah, é... O Rafa.

Novamente o Rafa...

Por que você faz essa voz cada vez que se refere ao Rafa?. Ela me perguntou com uma risadinha. Pensei em responder: Por que ele tá com a mulher que deveria estar comigo. Mas achei muito direto, melhor forçá-la a pensar.

Por que será, hein? Pensa um pouco.

Olhei pra ela com um ar um pouco carregado para deixar claro que era sério e que eu queria uma resposta.

Paulo... Eu adoraria ir pra Santos, mas acho que é meio tarde, podemos ir outro dia, tudo bem? Ela não é a redatora por um simples capricho do Elias... É bem mais difícil de encostá-la na parede do que parece.

Tudo bem, mas você me fez uma pergunta e eu te fiz outra e não tente desconversar, sei que é mestre nisso, mas eu não tô mais agüentando.

Fui bem claro.

O que? A mim?... Se quiser pode me deixar aqui e...

É claro que não é você! É o que tá acontecendo.

E o que está acontecendo?

Ela me olhou com aqueles enormes olhos castanhos e bem, não tive alternativas.

O que está acontecendo?!

Virei numa esquina e parei numa ruazinha e ah! Como foi bom, mas como não devia tê-lo feito, mas como o fiz e como fiz bem! Dei-lhe um beijo, um beijo que já estava pra vir sozinho, o beijo que ficou preso no dia em que ela fora baleada, o beijo que faltou quando me disse que eu já poderia assumir minhas tarefas no jornal sozinho, o beijo de bom dia e boa noite que eu queria poder sempre dar. E para minha maior surpresa, ele foi retribuído quase como um reflexo e de repente, como que tomando conta do que estava ocorrendo, ela se afastou e me olhou, confusa.

Paulo... Você me beijou...

É.

Você  me beijou...

E o que eu queria dizer era que sim! Beijei e beijo de novo!.

E foi o que eu fiz. Eu a beijei de novo, e bom... Meu corpo estremeceu e eu a abracei, afundei o rosto no cabelo dela e encostei minha boca naquele pescoço branco e delgado...e ... Bem, ela se afastou logo em seguida, mais atarantada do que da primeira vez.

Você  me beijou... De novo.

É?

Me beijou... E passou a mãos pelos cabelos e esfregou os olhos como costuma fazer sempre que está nervosa. Foi então que eu percebi o que eu havia feito. Eu era um bosta! E por causa de uns goles a mais, tinha estragado a melhor relação que já havia tido na porcaria da minha vida. Eu não fui legal com ela, não deixei que ela escolhesse e, sem querer, ultrapassei os limites. Mas que foi bom, foi.

Me desculpe! Eu não devia ter feito isso, né?

Não, não devia.

AH! meu Deus, mas eu tô pirando! Eu não agüento mais, eu te olho, todo dia , desde o primeiro dia, e pô! Eu queria estar no lugar do Rafa.

Ah, você queria que a tua namorada estivesse sendo beijada por outro cara?

Não  é hora pra sarcasmos, eu me abri com você.

Acho que o que você fez foi mais do que se abrir, não acha? E fez aquele negócio com o queixinho, para o lado. Aí eu pensei Meu Deus, ela me odeia agora!

Desculpa, por favor... O que eu posso fazer pra voltar atrás... . Talvez descer do carro e pedir pra ela passar por cima de mim e depois dar ré e repetir o procedimento umas vinte vezes, ou quem sabe atravessar o Amazonas com um peso de oitenta quilos nos pés...

Ah, não sei o que dizer... Sinceramente Paulo. Você me pegou de surpresa. Por que não conversou comigo ou sei lá? Conversar ? Nós fazemos isso há messes e só ouço Rafa, Rafa, Rafa!

Eu não sabia como...

Eu ... Eu me sinto estranha, me leva pra casa, tá?

Tudo bem. Dei a partida e fomos em silêncio até a casa dela. Pouco antes de chegar, ela falou:

Posso saber só uma coisa?

Pode.

Por que, exatamente, você fez isso? Você bebeu?

Eu te amo garota. O que mais eu poderia falar a não ser a verdade? Eu sou apaixonado, ou melhor, perdidamente apaixonado por essa garota e dizer que eu  a amo é até pequeno perto do que sinto...

Quando chegamos à casa dela, ela desceu do carro e eu desci junto, a segurei pelo braço e nossos olhos se encontraram, ela desviou olhar e então perguntei:

Você  está muito zangada comigo?

Não  Paulo, não estou. Tá tudo bem...

Esquece o que aconteceu, tá bom?

Já  esqueci.  Subiu os degraus que a separavam da porta, pôs a chave na fechadura e se virou pra mim rapidamente, num giro, e o vestido levantou um pouco e vi melhor as coxas brancas e lisinhas... respirei fundo:

E o Rafa? Você vai contar pra ele?

Não sei, talvez eu  acabe  contando.

Ele vai me detestar.

Vai, mas você continua sendo meu amigo, tá?


Tudo bem, juro que não vai acontecer mais...  Da próxima eu aviso... . E ela me olhou, censurando. Fiquei mudo. Ela me deu tchau e entrou. Na segunda nem comentou sobre o ocorrido, me tratou do mesmo jeito, mas sei lá, algo mudou, entende? Não sei se é como ela me olhou ou sei lá, talvez a blusa um pouco mais nova, não sei. Sabe, mesmo sabendo que é sonho, que isso não vai ocorrer, eu fico desejando, sei lá, que ela descubra que eu sou o cara certo, largue do Rafa e venha correndo para mim... E enquanto isso fico aqui, escrevendo, sozinho e abandonado.





sábado, 2 de julho de 2011

T in box

Como é que se descreve uma saudade? me deparei com ela no meio do caminho, hoje cedo não. Mais tarde. Encontrei seu email velho, jogado no fundo de uma das caixas abarrotadas de mensagens. Só um. Era bobo, trivial, você me dizendo para esperar você no msn, que entraria mais tarde. Me chamava de gorda e ainda disse que me adorava, fazendo um trocadilho com o seu nome. Poucas vezes eu ouvi você usá-lo.
Se eu contar bem contado, da data desse email até hoje, faz (exatamente!) 6 anos. Me pareceu tempo demais para o tempo de menos que fomos um pro outro alguma coisa. Não existe uma condição ou matemática ou gráfico que me aponte o que fui, mas sua falta é constitutiva... Como se fosse um braço meu, ou a maior parte do fígado. Você ainda dói como uma cirrose cada vez que lembro da sua mão correndo sobre a minha boca e murmurando, no medo do escuro e do ouvido no quarto ao lado, "sua boca é carnuda".
Depois de todo esse tempo eu acertei de novo... Sem fazer conta, sem sair correndo, fui me deixando ficar, e ficando parece que ponho você junto naquela caixa da mensagem onde encontrei o seu aviso. Eu e meus engôdos.
"Fica fria que eu entro... bjaum gorda" é uma aspirina sem água nenhuma, num dia quente, umidade relativa a 10 por cento e uma recente traqueostomia. É isso que é, porque desce incomodando, junto com algo que é salgado e muita gente até poderia pensar que estou falando de lágrimas. Só se eu chorasse para dentro.
Mas não foi nada disso, não agora, nem depois...
O que eu pensei é que gostaria de dizer que fomos viáveis, que teria dado certo, que eu realmente fui a parte equivocada e queixosa e que meus tabus são ridículos. Que seres humanos são ridículos porque fazem cocô, mas mais ainda porque deixam de amar na hora certa.
Te perdi com exatidão.
Hoje quase não faria diferença se dez ou cinco, era bobagem e você já sabia disso.
Tenho você estampado na carne, sabia? Nutro a sensação de que quando chegar a hora será apenas um telefonema, você pedindo para que eu te encontre, passando as coordenadas e dali pra frente seria como viver numa ilha. Você. Eu.
Se eu sairia correndo?
Isso é outra história.