segunda-feira, 27 de junho de 2011

Compromisso

O céu havia mudado de cor já fazia dias.
O azul pálido e singelo fora substituído por um vermelho assassino e o ar já era denso e cada vez mais dolorido de ser aspirado.


Se conheceram na Companhia, trocaram telefones, emails e ficaram amigos.
Durante todo o tempo que estiveram juntos, eles dormiram abraçados e andaram de mãos dadas.
E combinaram. Garantiram. Ficariam unidos até o fim.


Não tiveram filhos, aquilo não faria sentido. Nem um animal de estimação caberia entre eles. Foram egoístas no bem que se davam.


Durante aquele dia irrevogável, trocaram mensagens e correram com seus afazeres. Queriam logo se encontrar.


Final do expediente. Ela não trabalhou, ele sim.
Ele chegou esperançoso, a tomou nos braços, a beijou.
Ela preparara o jantar. A comida preferida dele.
Ela vestia aquele vestido que ele gostava tanto, ele, depois do banho, vestiu a camisa nova.
Jantaram num silêncio amoroso, olhos no prato, olhos nos olhos.


Miles Davis foi a trilha sonora da sobremesa. Ele ofereceu a mão, ela aceitou. Dançaram na sala, à luz de velas e ao som de It never entered my mind.


Já na cama, depois, sentindo ainda o contado um do corpo do outro, se deitaram frente à frente.
Ainda sorriam.
Os lábios se juntaram mais uma vez e os dois olharam para cima, enquanto o telhado era arrancado e o mundo acabava.



domingo, 26 de junho de 2011

Jornais - parte 26

Fecha a porta atrás de si com cuidado pra não fazer barulho, ascende o abajur sobre a mesinha, olha em volta. Tudo quieto. Anda pelo corredor, antes espiando pela porta olhando pra dentro da sala. Não vê nada além dos móveis quietos, adormecidos no escuro. Vai até a cozinha no escuro, pega um copo e se serve de água. Se senta um pouco e respira fundo Que loucura, o Paulo pirou... . Se sente tão estranha. Tamborila os dedos sobre a mesa, levanta-se, passa uma água no copo e o põem no escorredor. Sai da cozinha e se dirige à escada, sobe com passos leves, silenciosamente. Uma luz trêmula de televisão vem do quarto logo à frente com a porta entre aberta.

Rafa?

Empurra a porta.

Você  está aí?

Pode ver o torso nu na cama.

Está  dormindo?

Tô.

E aí? Faz tempo que você chegou? Está tão quente, né?

Senta-se na cama.

Cheguei faz tempo, cheguei antes da uma... E você?

Acabei de chegar... O jantar foi bom?

Foi tudo bem... E o passeio?

Foi muito bom...

E?

E... Bem, aconteceu uma coisa... Quero dizer, sei lá como dizer...




sábado, 25 de junho de 2011

Jornais - parte 25

Gostou da noite?

(Paulo fala enquanto olha para a rua)

Adorei... Obrigada.

Eu que tenho que agradecer... Você é uma companhia muito agradável...

Então o sentimento é recíproco...

Você  está muito bonita.

Bonita é feia arrumadinha...

Bonitinha é feia arrumadinha... Mas tá bom, você tá linda!

Olha como é a vida, devo estar sempre tão mal arrumada que quando ponho um vestido pareço ficar bonita...

Eu acho você linda com suas calças velhas e aqueles tênis sujos...

Para Paulo!

Mas é verdade... Só que eu nunca tinha te visto de vestido, toda arrumadinha.

É, até tinha me esquecido do que era um vestidinho... Lugar muito legal, eu não conhecia.

Imaginei. Pelo o que sei, você vai sempre aos mesmos lugares: o bar do Hajid ou um clubinho onde toca de vez em quando.

(dá  um meio sorriso de satisfação com o canto da boca.)

Hum, você está bem informado, hein? Quem é o detetive particular?

É o meu sexto sentido...

Ah, seu sexto sentido é um negão dois por dois? Imaginei mesmo que estava sendo seguida...

Ah, boba... Eu só deduzi já que, sempre que ligo ou a gente conversa sobre o final de semana, você fala do bar do Hajid ou desse clubinho... Qual é mesmo o nome?

Pasquim

Pasquim? Só devem ir jornalistas, hein?

É, às vezes... Você deveria ir até lá, o dono é um saudosista...

Hum, sei...

E como você descobriu que eu tocava?

Como? Eu fui ao bar!

Sério! Não acredito!

É mentira. A Rose entregou o serviço.

A Rose...

Sabe... Em nove meses de convivência diária, creio saber tão pouco de você... Nem sabia que tocava.

É só um hobby... Eu também sei pouco de você.

Não, você sabe tudo o que há pra saber... Santos...

(Suspira ao passar por uma placa)

O que tem Santos?

Faz tempo que não vou pra lá e é tão perto. Quando eu era mais jovem...

MAIS jovem!? Você lembra?

Ah! Isso é provocação... Não sou eu que fui parar na delegacia, pela terceira vez, porque o guarda não acreditou que eu tinha trinta e três anos, né?

Como você é apelão...Santos é legal.

É... Então como eu tava falando, quando eu era mais jovem, quase todo fim de semana, no sábado de madrugada, eu e uns amigos íamos pra lá depois de sair de um clube ou barzinho. A gente ia ver o sol nascer e era demais.

Nossa! legal isso, ainda bem que há jovens assim... Eu já fiz muito isso, mas sei lá, às vezes tô sem pique de descer pra lá e acabo ficando por aqui. Eu detesto dirigir e faço isso a semana inteira. Então, no fim de semana eu sempre evito pegar o carro...

(Olha pela a janela se abstraindo um pouco da conversa)

Vamos?

Pra onde?

Pra Santos?

Ah, vamos, a gente combina e...

Não! Agora!

Agora?

É! Pra gente ver o sol nascer.

Mas já passa das três... E o Rafa?

Ah, é... O Rafa

(Novamente uma pausa na conversa, dessa vez mais longa.)

Por que você faz essa voz cada vez que se refere ao Rafa?

Por que será, hein? Pensa um pouco.

(olha para ela com o rosto sério.)

Paulo... Eu adoraria ir pra Santos, mas acho que é meio tarde podemos ir outro dia, tudo bem?

Tudo bem, mas você me fez uma pergunta e eu te fiz outra e não tente desconversar, eu não tô mais agüentando.

O que? A mim?... Se quiser pode me deixar aqui e...

É claro que não é você! É o que está acontecendo.

E o que está acontecendo?

(pergunta cautelosamente com medo a resposta.)

O que está acontecendo?

(vira o carro bruscamente, entra numa viela e freia.)

Eu vou te mostrar o que tá acontecendo...

Paulo... Você me beijou...

É.

(E sem que ela pudesse dizer nada, um segundo beijo)

Você  me beijou... De novo.

É?

Me beijou...

(passa a mão pelos cabelos, esfrega os olhos)

Me beijou duas vezes...

Me desculpe! Eu não devia ter feito isso, né?

Não, não devia.

AH! Meu Deus, mas eu tô pirando! Eu não aguento mais, eu te olho todo dia desde o primeiro dia e pô! Eu queria estar no lugar do Rafa.

Ah, você queria que a tua namorada estivesse sendo beijada por outro cara?

Não  é hora pra sarcasmos, eu me abri com você.

Acho que o que você fez foi um pouco mais do que se abrir, não acha?

Desculpa, por favor... O que eu posso fazer pra voltar atrás?

Ah, não sei o que dizer, sinceramente, Paulo. Você me pegou de surpresa. Por que não conversou comigo ou sei lá?

Eu não sabia como...

Eu ... Eu me sinto estranha, me leva pra casa, pode ser?

Tudo bem.

(liga o carro novamente e retorna à avenida. Um silêncio constrangedor ocupa o banco de trás. Após alguns minutos ela fala)

Posso saber só uma coisa?

Pode.

Por que, exatamente, você fez isso? Você bebeu?

Eu te amo garota.

Ah... Por que eu fui perguntar?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A Santa

Um dos seus meninos havia dito, enquanto a penetrava com luxúria e júbilo, que dentro dela era o melhor lugar do mundo pra se estar.
Na hora ela pensara em erguer a mão e discordar. Expor seu ponto de vista e explicar que não era exatamente por ali.
Mas aí ele envolveu seu pescoço com a mão quente e ela se esqueceu.
Só até depois.
Eles se viraram para o lado. Iriam dormir. Ela até tentou, mas tanto o prazer como o sono já haviam ido embora.
Ela ficou com os olhos enormes abertos, como jabuticabas perdidas entre folhas de madrugada, cintilando só o brando dos olhos. Olhava estática para um ponto na parede.
“O melhor lugar do mundo”
Aquilo a deixara chocada.
Como alguém poderia achar que estar dentro dela era algo bom. Pior, prazeroso?
Queria encontrar a explicação naquela noite, mas o sono venceu. Dormiu abraçada, com os pés enroscados como cobras.
Nos dias que se seguiram, ela caminhara pela calçada, o passo ligeiro (sempre estava atrasada para tudo). E aquilo que fora dito na cama, entre lençóis, saliva e odores, ainda parecia uma nuvem naquelas manhãs azuis de agosto.
Como alguém poderia ter dito aquilo? Apenas se fosse da boca pra fora.
Como achar a melhor coisa do mundo estar dentro de alguém como ela?
Ela que sofria de dores imaginárias, sempre perdia o prazo de concursos públicos e nunca conseguia decidir se o copo estava meio cheio ou meio vazio. Ela que ainda tinha problemas com o cadarço do tênis, que tivera uma paixão platônica, que mudara a cor do cabelo para que combinasse com a bolsa? Que só usava preto; o vermelho só em ocasiões especiais. Que ainda não decidira se o homem fora à lua ou não. Que lia bulas de remédio e sofria pelas forças de paz?
Ela que escrevera um livro de faz de conta e nunca colocara no papel, porque sua letra era tão feia que não entenderia o rascunho, nem gravaria, já que sua voz a deixava enjoada. E que além disso roçava, tinha pés gelados, ódios secretos, não entendia seus parentes, era completamente literal. Que imaginava móveis e plantas de casas enquanto ia para o trabalho de metrô.  Que desejava coisas e sentidos.
Como alguém poderia dizer isso? 
Tantos pedindo para entrar e ela pedindo para sair.
Virou a esquina, entrou numa Igreja e decidiu optar pela castidade.



quarta-feira, 22 de junho de 2011

Jornais - parte 24

ESPUMA


Amor, eu vou voltar tarde, tá bom?

Vai? Por quê?

Eu não te falei?

Não.

Se lembra daquele jantar da semana passada?

Lembro... aquele que você foi com a...

Com a Chris.

É, com a Chris... Eu sempre esqueço o nome dela.

Chris é só apelido, o nome dela é Cristal.

Cristal? É bonito...

É lindo, né? Os pais dela eram hippies.

E ela se tornou advogada? Que degenerada...

Nós também já fomos hippies...

VOCÊ  foi hippie, eu só era porra – louca. E só deixei de ser por falta de incentivo...

...

Mas o que você ia dizendo...

Ah, é... Eu já te disse que eles fecharam a conta conosco e, por isso, nós vamos jantar de novo com os sócios da firma.

Nós?

É, eu e a Chris.

Hum, você e a Chris...

Pode me alcançar a toalha?

...

A azul.

Você  vai fazer a barba?

Vou... O que você acha?

Você  sabe que gosto de te ver de barba, mas acho que deve fazê-la.

É, é melhor...

O telefone tá tocando...

Eu só  atendo se for a Chris, senão pega o recado e eu ligo depois.

Tá  bom... alô?

Oi!

Quem tá falando?

Ah! você não sabe, tô magoado, vou desligar.

Paulo.

É... Tava com saudades... Liguei pra saber se tá tudo bem.

Tá...

O que foi, tá com uma voz de quem tá down.

É que eu vou ter que passar outro fim de semana em casa... Não tô afim de ir ao Hajid, queria sair pra dançar.

O Rafa não vai te levar?

Não, ele vai sair, tem um compromisso... Um jantar.

Mas como tem cara besta no mundo, se você fosse minha namorada, pode apostar que eu não sairia de casa, mas nem pra comprar pão!

Eu duvido.

Duvida? Então deixa eu te mostrar que é verdade.

Eu já  tenho namorado e já é bem difícil administrar um, imagine dois...

Isso é uma pena... Então, já que você não quer me namorar, que  tal se eu te levar pra dançar?

Você  me levar pra dançar?

Por quê? Não te agrada a idéia? Não admito recusa!

Me agrada sim... Eu iria aceitar de qualquer jeito... Nenhuma das outras propostas era melhor...

Você  é terrível...

Não sou não...

É sim... Um monstro verde...

Credo, não posso ter outra cor?

Vou pensar... Então eu passo pra te pegar, que tal?

Você  vem me buscar aqui?

Vou.

Que gentileza...

Você  sabe que eu sou gentil...

Já  te deram carta de motorista?

Não espezinha...

Tudo bem, desculpa... Foi brincadeira... Eu te espero.

As onze tá bom?

Tá  ótimo... Eu vou me aprontar.

Tudo bem... Um beijo.

Outro... tchau.




Quem era?

O Paulo.

Hum, o Paulo... O que ele queria?

Queria falar comigo.

Eu sei... Mas o quê?

Me convidou pra ir dançar...

E você  aceitou?!

Aceitei, por quê?

Por que!!? Você acha muito normal que um cara, mesmo sabendo que você tem namorado, te convide para ir dançar?

Acho, e ele não é um cara que mesmo sabendo que eu tenho namorado e me convida para dançar, ele é meu amigo e trabalha comigo...

Ah! Mas eu não acho que seja só isso... E eu vi como ele te olha... Ele está perdidamente apaixonado por você... A minha namorada!

Rafa, não viaja... Ele é só meu amigo...

Amigo os cambaus! Eu conheço homem e sei com é estar apaixonado...

Ah, sabe? E como é?

Você  vira uma fera sedenta e incontrolável.

É bom saber...

Não zoa não... Ele seria capaz de tudo.

Eu não tô zoando, mas Rafa, quando um não quer, dois não brigam e nem fazem outras coisas.

E quem me garante que você não quer? Conheço o seu fraco por olhos azuis...

Ah! Vai se catar e não me estressa não, hein?... E você saindo com essa Cristal... Isso é nome de açúcar!

É diferente!

É diferente porque é com você... E dá licença que eu vou tomar banho... Ah, e não me espere, porque eu vou chegar tarde!

Mulheres...




Você  tem certeza de que vai sair com esse cara?

Tenho.

Com esse vestidozinho?

Se quiser tenho um mais curto...

Eu tô achando isso muita provocação barata...

Rafa, eu vou à uma boate, você queria que eu fosse como? De calça jeans, tênis e camiseta?

Você  anda sempre assim, o que tem demais?

Não tem nada demais, mas tenho certeza que, agora, todos os meus tênis saíram com as minhas calças e estão lá no bar do Hajid me esperando. Eu não tô afim de discutir à essa hora, é sexta, o fim de semana tá começando, eu tô afim de relaxar e curtir a noite numa boa. Vai pro teu jantar, eu vou dançar e depois a gente conversa de cabeça fresca... Ó? Deve ser o Paulo tocando a campainha... Tchau amor... Divirta-se.

Tchau coisa linda... E não precisa se divertir tanto assim, viu?


Provérbio



Irrealidades são pesadas como malas.
Todo mundo ri
Todo mundo fala
Eu não meço nada
É madrugada e me apronto
Todo mundo na sala
Da sala para fora
Da boca para fora
Silêncio
Por favor
Recém morridos precisam de
Remédio
Remédio, remediação
Eu preciso de recheio
No peito
E nem é silicone


terça-feira, 21 de junho de 2011

Crônicas de um puteiro II


A vida é estranha.
Estranho é tudo o mais.
A vida é quase sempre mais do que tudo mais.
Certo domingo em que fingíamos ir jogar futebol (ninguém com a alta taxa de triglicérides e muitas safenas, como nós, se arriscaria num esporte tão perigoso), o Liminha teve uma idéia. Ele era cheio das idéias, mas nunca nenhuma prestava.
“Ô Paulão” (Paulão é o cara grande e quieto da nossa turma, o mais bem sucedido depois do Antonio Cleber que sempre foi Playboy)... E ele continuou “por que você não reforma aquele sítio seu lá no caminho pra Ubatuba? Dá até pra fazer um resort, e a gente pode dizer que vai numa viagem de negócios e se reúne todo mundo lá... entendeu?” e fez a cara que o Liminha sempre faz quando quer se referir a diversão e prostitutas (que me perdoem as prostitutas).
“Liminha, você não presta!” vociferou o Benedito, que é o único casado e fiel de todos nós... Mas todo mundo sabe que ele anda com a gente pra se sentir realizado com as escapadelas dos outros. E o Liminha rebateu “Você não passa de um voyeur das f. alheias...”. E o Benedito se ofendeu e saiu campo à fora praguejando contra tudo e contra todos. E o Liminha continuava com aquela expressão no rosto. E o Paulão não disse nada.
Mas há coisas que quando caem na alma de um homem crescem e dão frutos. E a história caiu no esquecimento como a maioria das idéias do Liminha. Ou pelo menos assim pensávamos. Depois de uns seis meses (todos sentados no mesmo campo) Paulão chega com seu uniforme sempre impecável e ninguém nunca soube dizer o por quê, já que era uma encenação as partidas de futebol no domingo. “
Tudo que o Paulão faz ele gosta de fazer bem feito”. E encenação ou não, ele sempre trocava as chuteiras, usava todo o equipamento necessário e se aquecia antes do jogo, que nunca acontecia. Ele chegou um pouco atrasado, o que nos fez desconfiar. Parou e nos olhou um por um. Depois abriu a bolsa de ginástica que trazia sempre para os “Treinos”. Tirou algumas fotos e as distribuiu entre nós.
Via-se o sítio do Paulão totalmente reformado, pintado... Algumas fotos mostravam o interior luxuoso do local, alguns quartos forrados de pelúcia rosa e cheios de espelhos, cinco suítes no total. Nos entreolhamos boquiabertos. Então ele fizera. Sem nos dizer uma única palavra durante seis meses. Seis meses em que sempre nos encontramos aos domingos, seis meses nos quais sextas e sábados era motivo para grandes desculpas em casa. E nada.
Paulão não nos havia dito uma palavra.
Ele era o rei dos cínicos, o franco-atirador dos dissimulados. Era por isso que nós o admirávamos tanto. “
Teremos reunião de negócios no próximo fim de semana”. Virou as costas e foi embora.
E o próximo fim de semana chegou. Todos nós, menos o Benedito que é fiel e o Samuca que ficou doente, fomos. Eu, na época, terminara meu terceiro casamento e namorava uma enfermeira pneumática (um homem na minha condição precisa pensar na saúde) e não deixaria de ir à uma reunião de negócios.
O sítio do Paulão havia ficado uma beleza, um paraíso na terra, um refúgio para bravos guerreiros cansados e fatigados com a cruzada (in)san(t)a do casamento. E sempre havia lindas donzelas capazes de aplacar os males pelos quais havíamos passados para chegar à nossa “reunião de negócios”. E tornou-se nosso pequeno segredo. Uma vez por mês íamos para o oásis do Paulão. Mas nem tudo são rosas, já disse o poeta.
A esposa do Paulão, que não era boba nem nada, por certo meio desconhecido e ignóbil ficou sabendo da reforma do sítio. E assim que o fez, foi tirar suas satisfações. P
aulão chegou com uma marca grande na testa e mais quieto de costume.
“A Cristina descobriu”. Foi só o que disse. Descobriu o quê? Perguntamos em uníssono.
“Tudo, descobriu que reformei o sítio, descobriu sobre a pelúcia rosa e sobre os espelhos, descobriu sobre o refúgio...”. Temi que Paulão fosse chorar. E? Indagamos curiosos.
“Eu tive que dizer que era uma surpresa”. Surpresa? Onde ele queria chegar?
“Que eu havia feito tudo aquilo pra ela”. Não, isso era demais. Quem acreditaria numa mentira dessas? E como explicar cinco suítes revestidas de espelhos, as banheiras de hidromassagem e as pistas de dança dentro dos quartos? Ninguém acreditaria numa coisa dessas.
“Pra ela e pras amigas delas...” leia-se: nossas esposas ou similares.
“Ela disse que quer ir pra lá nesse fim de semana e vai levar as amigas”.
“Então nós vamos ter que ir também”, concluiu Liminha cabisbaixo. “E eu vou ter que dormir com a minha mulher”, ajuntou o Andrade. Não, aquilo não era bom para ninguém, nunca mais o oásis do Paulão seria o mesmo. A segurança, a falta de peso na consciência, a alegria e bem estar de estar fazendo algo proibido completamente em paz e tranqüilidade. Aqueles eram tempos idos. Mas nada mais restava a fazer a não ser irmos todos. E no fim de semana juntamos mulheres e travesseiros e fomos todos para o Ex-oásis do Paulão. E passamos os dois dias do fim de semana com nossas esposas. E aquilo foi provação. A conversa sobre a novela, a comida que pegou, as crianças na escola, a mãe e a vizinha, os quilos a mais que eram tão evidentes quanto nosso desapontamento. No sábado à noite Andrade desabafou para mim “Não posso mais, vou jogar tudo para o alto, ela quer fazer amor a cada meia hora comigo e eu não suporto nem o perfume que ela usa quanto mais os apelidinhos carinhosos pelos quais ela me chama”. Apenas respondi: Resista. E domingo chegou e nosso martírio estava chegando ao fim. Arrumamos nossas coisas e ainda tive tempo de ver o olhar perdido do Andrade, o olhar de quem acabara de passar por algum tipo de sevícia. E no momento que estávamos saindo, o caseiro (um rapazinho mirrado e franzino) nos chamou de canto. Ele era novo ali, Paulão o havia contratado após a reforma do sítio. Rindo, de forma acanhada, nos confessou ao pé do ouvido.
“Olha seu Paulo... Desculpa falar isso pro senhor, mas não pude deixar de notar... é que desde que eu trabalho aqui, essas foram as putas mais feias que vocês trouxeram pra cá”. E rindo um pouco consigo mesmo, nos olhou com humildade de pessoa simples. Nós nos entreolhamos, engolimos a seco, baixamos a cabeça e concordamos. O rapaz se afastou e cada um se dirigiu para seu carro, com a estranha certeza de que a vida nunca mais seria como era antes.



Crônicas de um puteiro II - O francês

Nada de loiras. Dessa vez foi com outra morena. Ah! Morenas... Mas a história é sinistra. Ou seria, se não fosse tão cômica

Aconteceu com um francês amigo nosso, mais novo, meio verde ainda ou talvez fosse o idioma que ele não dominasse bem. Mas então: foi que ele veio pro Brasil pra se casar com uma morena que conhecera aqui, anos antes, no intercâmbio. Veio e casou. Morena clara, olhos enormes, muito coquete. Nas festas passava saltitando por nós e o francês ia atrás. Não quero revelar nomes, seria crueldade demais.

Saltitando e sorrindo para todos os lados. E o francês atrás. E a gente pensando “Se ela sorrir de novo, eu como”. Ou “nós comemos” pra combinar com “a gente”. E além do mais havia histórias. Não quero revelar detalhes, seria exposição demais.

E então um dia aconteceu.

Ela era fã do Chico. Do Chico, do Bandeira e do Bahaus, porque convém frisar: mesmo saltitante e fogosa, ela era morena e esperta que só vendo. E fã do Chico. Muito fã.

E o francês apaixonado, num dia dos namorados calha de dar na veneta do Chico de fazer um show. Calha do francês comprar ingressos. Tudo na surdina. E calha da morena sumir no fim do show com o Chico (para um motel, é óbvio).

Desculpem a rispidez, mas meu passado de jornalista me impede mais delongas. Foi assim que aconteceu.

Ela fugiu com o Chico (que não é bobo nem nada) e o resto vocês imaginem ou não. Porque, no dia seguinte, ela voltou pra casa como se nada tivesse acontecido e quando o desafortunado francês vociferou, acusando-a de ter dado para o Chico, ela o olhou abismada:

“Querido, mas foi para o Chico!”

E é isso. Foi pro Chico e não para um João ninguém. E não é que o francês incauto desculpou?!

Até aí tudo bem. A questão é que o Chico gamou _ parece que os boatos eram verdadeiros (não quero ser mais explícito, seria fofoca demais).

Gamou e tem mais. Decidiu que a morena saltitante iria ser dele e deu pra telefonar, mandar flores, chocolates, poodles (que eram sempre devolvidos), fez canção, lançou no rádio e nada. Ao que tudo indica, pra morena foi só uma noite e nada mais. E parece que ela gostava mesmo do francês e que até era fiel. Não posso afirmar nada, seria credulidade demais.

E o Chico convidava a moça pra jantar. Ela recusava. Pedia para que ela saísse na janela. Ela nem ligava.
 

O Chico ficou louco. Passaram meses e ele ainda queria ver a morena gazelosa. Deu um tiro de misericórdia: mandou convites para seu show.

Ela era fã do Chico. Não recusou.

E no dia (que era uma noite) lá estava a morena (linda, linda em preto) e o francês que nem mais fazia caso da história.

Assistiram ao show. Aplaudiram de pé e foram cumprimentar o artista... O Chico.

E foi aí que o negócio degringolou. E se o benevolente francês perdoara tudo, esquecera toda a história e até fizera uma camiseta dizendo “Minha mulher deu para o Chico” e atrás “mas ficou comigo”, ao ver o Chico envolvendo sua mulher nos braços e tascando-lhe um beijo nas faces claras de morena clara, algo dentro dele estalou. Estalou tanto e tão forte que até fez barulho. E se a mão é mais rápida que os olhos, talvez isso justifique a foto que acompanhava as manchetes dos jornais do dia seguinte. Mostravam o francês ensandecido de um lado, punho cerrado e olhos ejetados de sangue e do outro lado o pobre Chico, encolhidinho, com expressão de sincero terror.

Foi demais. Pra morena, é claro. Que além de ser fã do Chico, gostar dos Mutantes, do Bandeira e do Bahaus não aprovaria atitudes de tamanha violência. Não aprovaria e não aprovou. Pediu divórcio.

E o francês, num último gesto de revolta e vingança, passou a frequentar todos os shows do Chico, que havia quebrado o nariz e cantava agora com a voz do Bob Dylan, o que (convem mencionar) arrasou a sua carreira e o obrigou a começar fazer shows em botequins de esquina e até mesmo de meio de quarteirão.

E o francês ia e fazia gestos obscenos. E depois de um ano assim, esgotado, o Chico revidou.

“E essa música vai para o meu amigo francês que está ali, no meio da plateia, mostrando o dedo do meio pra mim...

...Te perdôo por quebrares o meu nariz, mas dormir com a tua mulher foi o melhor que eu fiz...”

E o francês, completamente louco, se lançou ao palco e o Chico, descontrolado, se protegendo com o violão, gritava:

“Vai, me bate! Me dá outro soco! Quem sabe você não conserte o meu nariz...o mesmo que você estragou...seu pupilo do Sarkozy!”

E não deu noutra. Pum. O Francês não aguentou e o Chico foi golpeado novamente.

Fotos do jornal na manhã seguinte: Chico desmaiado, sorrindo, como o nariz sangrando e segurando o violão.

Legendas: “Te perdôo!”

E o nariz do Chico, por um desses milagres estranhos do destino, ficou bom e a voz do Bob Dylan foi embora.

O francês foi procurar a morena que emendou afinada:

“Ele te perdoa, mas eu não”. E também não quis saber de nada com o Chico. Casou com um economista com um péssimo gosto musical.

O Chico ficou desolado e acabou chamando o francês para tocar com ele. E o fato de eu não ter mencionado que o compatriota de Marcel Marceau  era músico, não se deve à minha síntese jornalística e sim ao consumo demasiado de uísque, charutos e prostitutas, não necessariamente nessa ordem.

E os dois fizeram uma dupla. Parece que os dois ficaram amigos. Muito amigos... Deve ser cultural.





segunda-feira, 20 de junho de 2011

Jornais - parte 23


(bate a porta do jipe e abre a porta que comunica a garagem com a casa, entra pela lavanderia, passa pela cozinha, toma um copo de água, apaga a luz, anda pelo corredor, verifica a secretária eletrônica, desencana, sobe as escadas e vai para o seu quarto).

Amor? É você?

Não, é o ladrão...

Nossa, o que aconteceu?

(ele se levanta da cama, desliga a TV e vai até o quarto dela)

Onde você estava Rafa?

Aqui. Por quê? Fiquei em casa desde que cheguei do trabalho e você?

(para na porta do quarto encostado na parede, olhando enquanto ela tira a roupa e vai para o banheiro.)

Eu liguei pra cá e não atendeu... Nossa, tô morta de cansaço, preciso de um banho...

Ah, eu acho que nosso telefone tá com problema, porque eu também tentei ligar pra cá, pouco antes de chegar em casa e nada... Queria saber se você já estava em casa e nem a secretária atendeu.

Querido, amanhã eu vejo o que tá acontecendo...

Mas o que aconteceu, já passa da uma e meia da manhã? Eu liguei um monte de vezes no teu celular, só chamava, aí ouvi ele tocar no teu quarto e descobri que você tinha deixado ele aqui.

Eu fui parada por um policial e tinha esquecido a carteira na redação e você  já conhece a história.

Já. E aí, o que você fez?

Como não consegui falar com você, liguei para o Paulo e ele pegou os documentos pra mim.

E mais uma vez o dia foi salvo por...

Rafa...

E demorou tudo isso?

Não. Como o Paulo não tinha jantado por minha causa, ele me convidou pra jantar com ele e eu não tinha como dizer não.

Hum...

O que significou esse hum?

Apenas Hum. Por quê? O que mais pode significar um Hum?

Um “hum” pode significar um bilhão de coisas...

Mas esse não... Foi só um “hum” desprovido de sentido...

Tá... E você, fez o quê?

Lavei as minhas roupas, li um pouco , jantei e vi TV.

(ela se enrola na toalha e sai do banho. Ele vai até ela e a beija)

Tava com saudades, sabia?

Saudades?

É, de te ver assim, enrolada na toalha... O jantar foi bom?

Foi legal... E o seu dia?

Sossegado... Sabe o que eu tava pensando enquanto te via tomando banho?

Que certas intimidades são desnecessárias na vida de um casal?

Não, sua boba. Que desde que você voltou do hospital a gente não  transa... Já deve fazer uns três meses.

Tudo isso?

É, mais ou menos... .E sei lá, tava me perguntando o porquê.

Sei lá. Acho que aquele monte de pino no meu ombro não era muito sexy, não?  Eu tive uma parada cardíaca, o médico me proibiu de fazer qualquer coisa, inclusive sexo e andamos ocupados, né?

É, mas hoje eu não tenho nada pra fazer...

Ah, Rafa, amor... Eu tô exausta e amanhã tenho que levantar cedo, desculpa...

Não, tudo bem...

Quer dormir aqui comigo hoje?

Não, vou deixar você tranqüila... Vou para o meu quarto, boa noite querida...


quinta-feira, 16 de junho de 2011

Veredas


Meu caminho é semente
Se me oferecem vaso
cresço bonsai
Se é solo seco e cremado
Só espinhos e água dentro
É no campo que chove na
medida certa
Que seu nome na minha
boca vira flor
E você passarinho





Era cinza
O dia no final da ladeira
Como restos de demolição
Em ton surton
Cinza dos céus à cabeça
A boca
Pálida como
Gesso em cantos e molduras
A fé abalada
Nas estruturas
Era apenas um adereço
Triste
Esclarecendo tudo
Sobre a estética do carnaval
Do interior
A rua
Seguia livremente
Hoje o asfalto combinava com
O dia




Jornais - parte 22

E aí? O que achou da comida?

Paulo, você me surpreendeu... Você cozinha melhor que o Rafa!

Aleluia! Até que enfim sou melhor que ele em alguma coisa!

Deixa de ser bobo e nem pense em contar isso a ele, eu nego tudo...

...

...

...

Tá  tarde, né?

Eu não acho...

É, mas amanhã a gente tem que levantar cedo, a semana mal começou...

Tudo bem, tudo bem... Eu te levo pra casa, mas só se você prometer que vem me visitar agora que já sabe o caminho.

Tá, prometo. Você vai precisar me mandar embora daqui, que tal?

E você acha que eu vou te mandar embora?

E você acha que não?

Acho...

Paulo... Eu só fico pensando o que aconteceria se o pessoal da redação soubesse que eu jantei na sua casa, todo mundo vive imaginando coisas sobre nós...

Que coisas?

Que nós fazemos coisas...

Interessante...

Eu seria estrangulada pela Ana Paula.

Por quê?

Ah, não se faça de tonto, ela é louca por você, cara! Vive me perguntando sobre você, se você tá saindo com alguém, se falou dela, se reparou no vestido dela e um monte de coisas...

E o que você fala?

Uai? Eu falo pra ela perguntar pra você, que dá sua vida você  deve saber mais do que eu.

Ah, eu não quero nada com ela, ela é muito jovem...

Ela tem a sua idade...

É, mas eu amadureci cedo... Preciso de alguém mais velho...

Eu conheço algumas senhoras freqüentadoras de um grupo de terceira idade onde minha avó ia, se você quiser posso te apresentar...

Por que você me espezinha, hein? Você me detesta, né?

Eu te adoro, seu bobo!

Sério?

Sério, quem foi o meu parceiro de reportagem favorito?

Fui o único que você teve...

Mais um motivo pra ser especial. Tá vendo, você não é  qualquer um...

Ah ,chega. Eu vou te levar, conseguiu...




Obrigado...

Obrigado por quê? Eu que tenho que te agradecer por ter me ajudado, pelo jantar, pela conversa...

Não, eu que tenho que te agradecer... Eu detesto jantar sozinho, sabe?

Sei... hei, quando quiser vá jantar lá em casa, ia ser legal...

Não, melhor não, não quero atrapalhar...

Mas quem disse que você iria atrapalhar?

Ah, sei lá, tem o Rafa, ele não iria curtir...

A casa também é minha e o Rafa ia curtir sim... Pense nisso, viu?

Prefiro que você, de vez em quando, jante comigo, que tal?

Assim eu vou ficar gorda.

Vai nada. O que me diz?

Por mim tudo bem, é só a gente combinar, tá bom?

Tá... Boa noite.

(ela entra no carro e ele dá a partida)

Você  vai bem sozinha?

Vou... Eu sei me virar, obrigada. Amanhã a gente se vê, né?

Claro!

Que bom...

Tá, tchau...

Tchau.


terça-feira, 14 de junho de 2011

Jornais - parte 21


R.G.


Baby, you can drive my car,


Yes, I’m gonna be a star,

Baby, you can drive my car,

And, maybe I’ll love you...

Bip, bip, bip, yee... tuchn, turun, turun, tuchun!

Tão, dãraol, tão, daràol, yee!!!


Bluuuu...


Encoste o carro, por favor... Boa noite mocinha, posso dar uma olhada nos seus documentos?

AH!...

A julgar pelo AH posso concluir que você os esqueceu em casa, estou errado?

Ai cara, quero dizer... Seu guarda, o senhor está certo... E... Sei lá, vai parecer que tô tentando enrolá-lo, mas eu realmente os esqueci. E agora?

Você nem tem a carteira de motorista?

A carteira, deixa ver... Deve estar aqui no porta luvas... Eu sei que deixei ela aqui, faz tempo que não pego o carro, sabe? Então perdi o costume...

Ela não está aí, não é mesmo?

É, não está...

Bom, sendo assim, você vai ter que me acompanhar até a delegacia...

Mas eu posso dar o número do meu R.G., até da carteira, é só  o senhor puxar pelo rádio e...

A quem você está querendo enganar, hein? Ambos sabemos que você não tem uma carteira de motorista. Concorda filha?

Não tenho? É claro que tenho! Sou habilitada há quase treze anos... e...

E eu sou o papai Noel... Espere um pouco... 1428, 1428... Mais uma menininha dando umas voltinhas com o carro do papai...

O que? Esse carro é meu! O que você tá pensando... Ah, não de novo não, isso é Karma...

Tudo bem, estou esperando outro policial...

Peraí!  É só você pedir pra checarem o meu R.G...

Ninguém vai checar nada porque não há nada pra ser checado...

(ela desce do carro e bate a porta)

Olha, não é a primeira vez que isso acontece... Eu sei que o senhor só está fazendo o seu trabalho... Mas eu tenho trinta e três anos, tenho carteira de motorista só que eu a esqueci em casa, você não pode evitar todo esse transtorno?

Não. E não tente me convencer que você tem essa idade, eu não nasci ontem...

Nem eu!...

Ah, não? Sabe que parece? Olha, já está chegando o policial que vai te acompanhar, ele vai dirigindo o seu carro, tudo bem?

Vocês não têm nada melhor pra fazer do que me importunar, hein? Sei lá, deve ter gente precisando de vocês. Me deixem em paz!

Não faça drama, se não houvesse garotinhas que insistem em roubar os carros dos pais, nós poderíamos estar ocupando melhor o nosso tempo...

Cara, eu já disse! Esse carro é meu! Tá vendo aquele prédio ali, do outro lado da pista? Eu trabalho lá, sou a redatora do jornal...

Ah, você trabalha naquele jornal, é a redatora... Sei... Ô  Carlos, vá dirigindo pra moça que é a redatora daquele jornal ali.

Eu não acredito, de novo não!





Idade?

Trinta e três.

(todos à sua volta riem)

Filha, não precisa mentir pra nós, fale a sua idade real.

Por que todo mundo me chama de filha?! Tenho só um pai e ele não me vê faz sete anos... Eu tô falando sério...

Bom, então vamos ligar para o seu pai e ele virá tirar você  daqui, e...

Meu pai está há quilômetros de distância...

Então pra quem vamos ligar?

Eu posso usar o telefone?

Pode...

(passa o telefone sujo pela fresta na separação de vidro)

Tu-tu, tu-tu, tu-tu.

(desliga)

Está  ocupado... Olha vocês não podem puxar a minha ficha pelo computador?

A rede está com problema, sinto muito...

Ah, você sente muito... Pode apostar que eu também... Posso usar o telefone de novo?

Pode.

...  Não põem a mão ne mim! Eu sou di meno!

Olha só a ironia do destino, né? Você tentando negar e ele afirmando... É a vida.

(ela dá um sorrisinho pouco amistoso e disca novamente)

Ai, Rafa. Onde está você numa hora dessas... Eu preciso que você atenda essa droga de telefone... Atende, merda!

Você  não está conseguindo ligar?

Não. Olha, eu não sei como, mas será que não há nenhuma outra maneira de checar os meus documentos?

Não, sem o computador funcionando, não tem jeito não... Você não pode ligar pra outra pessoa?

Pra quem eu poderia ligar? Sei lá, eu precisaria que alguém fosse buscar a minha carteira na redação... Ai, meleca, por que não pensei nisso antes? Paulo...

(disca rapidamente)

Alô? Paulo? Sou eu. Cara, eu preciso da tua ajuda... Eu tô numa delegacia... Não, nada grave, é que eu tava sem documentos... E... Bem, eles acham que eu peguei o carro do meu pai, e que sou menor de idade... É sério... Dá pra parar de rir e me escutar?... Meus documentos estão na redação, dentro da segunda gaveta da minha mesa... A minha carteira deve estar lá, com certeza... É, quero. Você pode trazer pra mim, para que eu possa provar que tenho trinta e três e não dezessete anos!

(pronuncia as últimas palavras bem alto, longe do telefone)

É, como eu ia dizendo, desculpa pelo grito, mas já avacalharam muito comigo... Tá, brigadão, tô te esperando.





Ah, Paulo! Que bom te ver, você achou?

Não.

Não?!

Calma, tô brincando... Tá aqui, ó.

Obrigada... Olha, meus documentos estão aqui...

Nossa, é verdade... Esses documentos são verdadeiros?

Não, eu acabei de mandar o meu amigo fabricar eles pra mim, no fundo do quintal dele...É claro que são!

Tudo bem, não precisa se preocupar, eu só estava brincando... Olha aqui Jorge, a moça que você trouxe, ela tava falando a verdade...

Nossa, é mesmo... Me desculpe Senhora, mas é que não parece e ...

E você só estava fazendo o seu serviço, eu sei... Bom, acho que eu já posso ir, né?]

É, só que você vai receber uma multa e perder pontos por estar sem documentos e pontos... blá, blá, blá, blá , blá, blá...





do lado de fora:


Ai. Que alívio! Eu juro que vou pendurar essa carteira no pescoço, isso nunca mais vai me acontecer...

E não é a primeira vez, né?

É. Não é, mas dessa vez foi tranqüilo... Obrigada pelo galho quebrado, viu?

Que é isso, foi um prazer; pode esquecer amanhã de novo... Você  não quer ser presa, não? assim posso contratar um advogado e...

Paulo...

Tudo bem, por hoje é só garotada... Mas posso saber uma coisa?

Pode... o que é?

Por que você não telefonou para o Rafa?

Eu telefonei, mas não atendeu...

Ah! Droga! Não devia ter perguntado...

Não? por que?

Confirmei que fui a segunda opção...

Paulo, você é doido... Obrigada,  mesmo você sendo insano... Tô te devendo uma.

(dá  um beijo nas faces rosadas dele. Se encaminha para o jipe parado há  poucos metros deles, se vira para abrir a porta)

Tá  devendo mesmo?

(ele pergunta, ela se vira)

Tô, por quê? Já vai cobrar?

Claro, vai que você esquece...

Hum... o que é?

Bom, quando você me ligou eu estava começando a preparar o meu jantar...

E...

E aí é que eu saí correndo pra atender o seu chamado de socorro e acabei não comendo...

(ela volta caminhando lentamente na direção dele com a chave balançando entre os dedos, os cabelos soltos agitados pelo vento da noite, sem obstáculos na rua larga e quase deserta. Para bem perto dele com a cabeça inclinada para o lado e um sorriso fino nos lábios)

Hum...

E eu detesto comer sozinho, então...

Então?

Então você poderia me fazer companhia, né? E não me olhe assim!

Assim como?

De lado, com a cabeça de lado...

Por quê?

Por quê? Porque me dá coisas e eu tenho em mente só um jantar e nada mais. Mas aí você fica me olhando assim e... Para, tá?

Tá...

E aí?

Aí? Não sei...

Ah, para vai. Eu cozinho bem, você vai curtir... Assim você conhece o meu AP!Você nunca foi lá...

Hum, ainda não sei...

Você  mesma disse que tava me devendo uma... E bom, tem uma vista bonita de Sampa e não é muito longe... Vai, não faça eu me sentir um idiota por ter convidado...

Bom, só por isso eu aceito...

Yes!Vamos?

Vamos...

(e vai em direção ao carro)

Hei, o que é isso? Eu te levo e depois você vem buscar o carro, eu te trago aqui... Tá?

Tá...





segunda-feira, 13 de junho de 2011

Jornais - parte 20

Garoa

Queridos companheiros de jornada, hoje é sábado e novamente, pra variar, estou entregue a devaneios. Tô pensando no sentindo da vida, do universo e de tudo mais. Por que as patas das girafas não cresceram ao invés dos seus pescoços? Por que namoro um cara bonzinho e lindo demais, que me enche o saco com essa história de ter filhos e de casar e que nem me olhava com tanta ternura como agora? Isso tudo me incomoda, quero dizer, por que ele me olha assim agora e não me olhava assim antes? Às vezes eu o pego me observando, geralmente quando eu estou lendo deitada na cama ou refestelada na minha poltrona favorita. Ele fica parado na porta, com a cabeça apoiada no batente, com um sorriso nos lábios bem feitos. Eu sei lá, mas isso me constrange, deve ser porque faço mil caras enquanto leio. Eu m entrego à leitura, me torno parte do livro e isso é muito íntimo e ele me diz que é exatamente por isso que me observa, que nesses momentos ele me vê sem proteção alguma, diz que gosta de me ver mordendo a haste dos óculos enquanto leio. Ele é sempre muito calmo, tem uma fala mansa, ritmada (que me faz subir pelas paredes), a voz é grave e macia e sempre fala num tom ameno, poucas vezes eu o vi alterado, não perde a paciência com nada, nem com ninguém. Seu andar também é tranqüilo, as costas tesas, os ombros largos, se movimenta com suavidade, sempre me acompanha aos lugares que vou, me leva ao cinema, ao  teatro, e apesar de não gostar muito, às vezes sai pra dançar comigo. Com os cabelos escuros e curtinhos e um par de olhos aveludados de cílios castanhos, o Rafa chama muito atenção, seu pai é árabe e sua mãe italiana... Sempre tem alguma garota olhando pra ele e às vezes eu nem sei o que devo fazer, sei lá...  E é estranho, o Rafa é tão sem arestas. Quero dizer, as coisas nele são bem proporcionadas, o corpo, a fala, a alma... E eu sou toda cheia de ângulos, os braços finos demais, magra demais, os olhos enormes, a cabeça às voltas...
O Rafa adora crianças e sempre diz que quer encher a casa de filhos e eu cá comigo penso “Vai nessa!”. E quando chove à noite aqui em Sampa, ele se enrola no seu cobertor azul (seu favorito), vai para a varanda e fica pensativo, longe, vagando por caminhos insondáveis e quando percebe que eu o estou observando, encostada na porta com a cabeça apoiada, faz um aceno com a mão me convidando pra sentar do lado dele e eu nunca aceito, digo que tenho alguma coisa pra fazer ou que só estava descansando um pouco, porque sei que essa hora é só dele, a hora em que ele se esquece de mim, de todos e fica sozinho em si... às vezes acho que não entendo nada sobre o Rafael...






sábado, 11 de junho de 2011

IBOPE

Eu não queria mais escrever. Tentei explicar pra n pessoas que era ruim e bom ao mesmo tempo, mas sempre viro na esquina errada e me deparo com um sinal de "não". Uma placa que diz que eu queria dizer outra coisa. Tento remendar, não consigo, me frustro e depois me calo.

Hoje a questão era todo aquele sangue vindo da bexiga. Eu quase desmaiei quando vi. As pedras devem ter se deslocado ou meu coração tá tão rachado e é de mentira que agora sangra. Sangra pelos caminhos linfáticos que também devem ter placa de "não". Já viu uma dessas?

Ele tem me feito bem e meu corpo resolve morrer quando isso acontece. Isso explicaria todas as coisas, as rejeições, as fugas e até essa auréola de impureza imaculada que tenho. Já reparou que quando falo dele é "ele", mas pra você é assim, direto, sem atalhos? Duvido. Você não presta atenção.

Então vou explicar o que foi que eu vi. A cidade escorria por um vão entre o muito frio e a mais sincera imundice. Iódice. Sempre uno esses dois termos e acho que combinam. Mas a sujeira aqui é coisa séria. Se estende pelos recantos e pelas lojas de calçados, pelo excinemagoraigrejauniversal, pelo calçadão e esses pombos que caminham como se tirassem férias e carregassem maquininhas fotográficas ou bengalas de jacarandá. Pombas burguesas e bem alimentadas pelos nossos restos.

Na praia uma mulher me disse que viu uma se engasgando com um chiclete. Achei tão tétrico que tive que sacudir a cabeça pra imagem se desfazer, igual fumaça.

Me esquecia sempre que as montanhas são sempre minha casa. Eu venho visitar o lar tão pouco que mudo de endereço postal há cada seis meses e troco toda a mobília. Ela vai estar corroída. Exageradamente estragada e bicada... Por essas pombas que caminham, e que tiram fotos e postam em redes sociais...



quarta-feira, 8 de junho de 2011

Jornais - parte 19


Garota, eu nem te ouvi chegando...

Oi, Rafa, eu subi direto...

Tava escrevendo?

É, eu estava...

(se senta ao lado dela, numa cadeira)

O que foi? É tarde, eu tava preocupado... Seu celular estava fora de área, pra variar...

Não, eu desliguei...

Por quê? Não queria falar comigo, é? É tão tarde...

Eu fui ao Hajid, depois fiquei andando de carro um pouco...

Amor, o que foi?

(ele a afaga e se senta mais próximo)

Eu fui demitida.

Hã? Como assim?

Eu fui demitida da função de repórter policial...

Você  foi mandada embora, é isso?

Mais ou menos...

Hum, como alguém é mais ou menos mandada embora?

O Elias me ofereceu outra coisa.

Outra coisa?

É, me ofereceu o cargo de redatora.

Hum, eu acho que entendi... Tem haver com o que aconteceu no Rio, né?

Tem. Ele comentou algo com você?

Não, amor, nada, nada. Eu não apoiaria isso, por mais egoísta que eu seja... Imagino  que você não está muito feliz, apesar do que possa parecer.

(Ele a puxa pro seu colo)

É, eu me sinto estranha. Não me sinto bem, mesmo que seja um emprego muito melhor do que o que eu tinha...

Melhor para os outros, né?

Ser redator não é algo ruim, é trabalho intenso também, há um monte de coisas interessantes, mas não é o meu trabalho, sabe? E sei que lá, pelo menos, eu não posso fazer o que quero.

Bom, aceite como uma experiência. Que tal? Se você não agüentar, pode ir pra outro jornal, ou uma revista, quem sabe?

Eu não sairia de lá...

Eu sei, mas considere que há essa possibilidade.

É, vou pensar nisso...

Vem, eu vou te por na cama...





segunda-feira, 6 de junho de 2011

Jornais - parte 18

Já  faz uns dias que voltei pro jornal. Eu não via a hora de voltar pro trabalho, mas não foi exatamente como eu esperava. Cheguei e todo mundo veio me receber e parecia que fazia séculos que não pisava na redação. Comecei a organizar o meu trabalho e quando eu estava me preparando para começar, o Elias me chamou. Pediu pra que eu o acompanhasse até a sala dele. Eu fu...

Que bom que você está bem... Sabe lá o susto que você  nos deu?

Desculpe Elias, nunca imaginei que algo assim fosse ocorrer comigo...

Eu também não... Como estão os machucados?

Cicatrizados,  logo já tiro a gaiola do omoplata e vou poder dirigir melhor...

Ainda dói?

Quase nada... Elias, desembucha... Você não me trouxe aqui pra perguntar se tá doendo ou não...

É, não foi mesmo.

Então...

Sabe, quando eu vi a notícia na TV, de que haviam feito uma repórter do nosso jornal refém, e depois, quando recebi o telefonema do Paulo, me dizendo que você estava morrendo numa viatura, isso me fez pensar...

(Me endireitei na cadeira)

Te fez pensar, é?

É, e muito. Nesses anos todos no jornal, você sempre foi a minha melhor jornalista, aliás, você é uma das melhores que conheci em toda minha carreira...

Elias, não diga isso...

Digo sim, você é ética, profissional, já recebeu um milhão de propostas para trabalhos muito melhores, pra ganhar dez vezes mais do que aqui e nunca aceitou...

Ah, eu tô bem do jeito que estou, gosto de Sampa, o jornal fica próximo de casa, adoro a redação, aqui é minha casa...

Sim, e além disso, nós nos tornamos amigos pessoais, não?

Sim, Elias, você é o meu melhor amigo, sabe disso...

E a recíproca é verdadeira. Então, querida, baseado nisso, você  consegue imaginar o que foi ouvir que você estava morrendo numa viatura no Rio de janeiro, ao pé de um morro?

Ah, Elias, desculpa, eu achei que fugir seria melhor, pelo menos morria com dignidade...

Não peça desculpa, você fez o melhor possível... Pelo menos, se você morresse fugindo seria realmente mais rápido e menos dolorido. Mas de qualquer forma, você não estaria aqui hoje.

Elias, aonde você quer chegar?

Querida, já tenho outro repórter policial, eu não quero mais você.

Hã?

É isso mesmo.

Como assim? Você está me despedindo?

Estou.

Mas, mas...

Estou te despedindo da função de jornalista policial e estou lhe oferecendo uma outra vaga.

Outra vaga?

É.

Elias, eu não estou entendendo. Eu não quero outra vaga.

Eu sei e adoro isso... É o seguinte, você, como ninguém, é  alguém que me inspira confiança. Conhece muito bem todo o mecanismo do jornal, é muito competente e capaz. Eu estou pensando em reduzir minhas tarefas, ficar apenas com algumas coisas pra fazer e bom, acho que vamos precisar de um novo redator, sabe?

Redator?

É.

Deixa ver se eu entendi: você quer que eu seja a sua redatora?

Isso mesmo, ser baleada não afetou sua capacidade de raciocínio!

Elias...

Querida, o que me diz?

O que eu poderia dizer? Ali estava a oportunidade de emprego que quase todo jornalista deseja, e mesmo assim, pra mim, parecia que havia sido aberto um buraco no meu peito, muito mais dolorido que qualquer bala de revólver. Eu amava o meu trabalho, ir pra rua, escrever, aquilo era o que eu sempre quisera e agora me surgia a proposta de deixá-lo pra trás. Sabia que o Elias não me deixaria voltar pra sessão policial. Se eu quisesse, teria que ir pra outro Jornal. Ele realmente se tornara meu melhor amigo nesse tempo todo e não se sentiria bem se algo acontecesse comigo. Entendia a postura dele, mas tudo me parecia absurdo. Eu não queria ser colunista.

O que eu te digo? Elias, eu sou repórter policial, você sabe disso...

Eu não posso permitir que você continue, não mesmo. É por puro egoísmo, estou sendo completamente anti-profissional, mas não posso. Se você quiser, sei que muitos jornais te receberiam de braços abertos, mas aqui eu não posso permitir.

Você  sabe que eu não iria pra outro jornal, não sabe?

Sei, por isso mesmo que te fiz essa proposta, e então?

Você  quer uma resposta agora ou depois?

A resposta vai mudar?

Não, acho que não... Você sabe que eu vou ficar...

Sei...

Mesmo que me pareça horrível fazer outro trabalho, obrigada Elias, você  é incrível...

Obrigado você. Me desculpe, sei o quanto significava pra você...

Muito, muito mesmo, mas eu entendo...

Então você aceita. Que bom, semana que vem já estará tudo pronto. Só precisamos acertar direito isso na imprensa e o seu nome já sai daqui uns dias... Você vai ficar famosa...

Elias, eu nunca dei a mínima pra isso...

Eu sei, eu sei, por isso você é a melhor escolha. E o salário é bem melhor, muito melhor.

Valeu, Elias...

Acho que você pode ficar mais uns cinco dias em casa, mesmo porque não há muita coisa pra você fazer aqui...

Tá, eu vou...

O Rafa que vai gostar, agora talvez vocês possam ter um filho, não?

Vai nessa... tchau, qualquer coisa me liga.

É, pois é. Agora eu serei a redatora do jornal. Não sinto medo da função nem nada, conheço como funciona o jornal, tenho trabalhado em todas as áreas um monte de vezes, mas é triste ver esse capítulo encerrado. De que adiantaria ir pra outro jornal? Lá é a minha casa, vou continuar. Mas ficou um vazio. Um vazio que começou com um tiro na perna e terminou com um de raspão.




Jornais - parte 17


Basquete


Olá, queridos companheiros de jornada. Hoje é sexta e como ainda não posso fazer nada, nem mesmo ir ao bar do Hajid (não posso dirigir ainda, e sei lá, tô com preguiça de ir de buzão e tenho medo de táxi), aproveitei pra dar uma arrumada na minha papelada. Eu sou tão desorganizada que chega a dar raiva... Um recorte de um processo ganho do Rafa... Bom, isso eu vou guardar... Um envelope com uma carta dentro, deve estar aqui há séculos... Lixo! Nossa, como juntamos coisas que poderiam ser jogadas fora.

Sabe, sei lá, tô de bode, não tenho nada melhor pra fazer, não tô  afim de ver um filme, nem de nada parecido, afinal já faz dois meses que tô em casa sem fazer nada, sem ir pro meu trabalho, sem poder sair,  fico o dia inteiro em casa. Ontem o Paulo telefonou e me disse que iria viajar hoje pro Rio, para ver a família. Dessa forma vou ter que ficar aqui. Preferia sair, é claro, ver os meus amigos, ir ao teatro ou pegar um cineminha, ou talvez, quem sabe, me sacudir numa boate.

O Rafa foi a um jantar de negócios... Lá se foi ele de terno e gravata parecendo um pingüim, um pingüim muito bonito, diga-se de passagem. E agora, ele e Miss Perfeição devem estar saboreando aquelas comidas caríssimas... É a firma quem está pagando... Ah! Vocês não sabem quem é a Miss Perfeição? É uma nova advogada... Sabe aquela mulher alta, com longos e cacheados cabelos loiros, olhos verde água, vestida sempre a rigor e voz de disk pornô? Essa é a Miss Perfeição... Ah, ia me esquecendo, ela é inteligente, simpática, culta, delicada, honesta (creiam nisso! Advogada e honesta), divertida e louca, maluca, demente por CRIANÇAS. Pensando bem, eu bem que seria capaz de trocar o Rafa por ela... Ele que se cuide.

Ela traz o Rafa do trabalho, telefona todo dia, escreve bilhetinhos engraçados durante as reuniões, enfim uma mulher perfeita e completa... Palavras do Rafa...

Quanta coisa pra ser jogada fora... Um sache de maionese... Eca! um hambúrguer... Melhor não comentar. Pois é, vou me sentar, ver um pouco da garoa caindo e tentar não morrer de tédio, aqui, sozinha, na neve...




quinta-feira, 2 de junho de 2011

A Menina e o Passarinho


                                                                                   Para o Pã e a Nix, que sempre me comove,

                                                                                 mesmo quando não entende os porquês




Numa dessas casas havia uma menina que gostava de salvar animais. Passava horas no quintal, na Primavera, desvirando besouros desavisados, tirando mariposas das poças d’água, resgatando formigas que se perdiam.

Um dia ela achou um passarinho.

Olhou pro bichinho, ainda emplumado de tão novinho que era. Com cuidado, segurando-o nas mãozinhas quase do tamanho da avezinha, se pôs na olhar as árvores mais próximas, tentando encontrar um ninho. Mas depois de um certo tempo (e já se afeiçoando ao animalzinho) voltou para a casa, com as mãos em formato de ninho.

E tal amor a menina dedicou ao passarinho que lhe deu nome, sobrenome e o alimentava dez vezes por dia.

Chegava da escola, largava a mochila e aos berros procurava o seu filhinho: Pichitinho! O passarinho respondia. Melão, melancia, banana.

A menina punha Pichitinho na gaiola e ia se deitar no terreiro, uma bacia de fruta do lado, um pouquinho pra ela, um pouquinho pra ele, ela deitada para olhar as nuvens, ele, estendendo as asinhas, fazia companhia.

Que visse pensaria que nasceram assim.

Pichitinho piava, a menina ria, contava o que aprendera em aula, cantava. Os dois cantavam, em coro ou sozinhos.

Jogando a mochila e correndo, a menina chamou. O passarinho não respondeu. Na gaiola, deitadinho, como dormindo de preguiça, a menina percebeu o bichinho morto...

Com cuidado que sempre tivera, o apanhou com a mãozinha magra e soluçou um suspiro que pareceu uma folha arrancada antes do vento.

Debruçadinha, chorando num silêncio escuro sem porta nem janela, a mãe a encontrou na varanda, o passarinho nos braços, ninado como neném.

Passou as mãos pelos cabelos caídos no rosto, a cabeça inclinada pra frente, passando por dentro dos olhos um cinema de perguntas.

Pra quem ela iria voltar correndo depois da aula? Quem olharia as nuvens virando gatos inofensivos e estranhos de chapéu? Seus amigos não entendiam de nuvens, não tinham asas e penas. Quem dividiria a fatia de melancia?

Sem soltar o passarinho, como se segurando num fiozinho de vida, se agarrou à mãe, que a recebeu. Abraçada ainda na rocha que uma mãe vira quando o filho chora, olhando de vesgueio para a gaiola, só percebeu que falou depois de ouvir a própria voz perguntando: ”E quem vai morar na gaiola agora?”

Na gaiola ficaria um pedaço do coração incauto que ama.

Naquele instante, a menina cresceu.



quarta-feira, 1 de junho de 2011

Jornais - parte 16


 PEGA-PEGA


...Você não vai!

(tira a chave da porta e a guarda no bolso.)

É claro que vou!

(procura sua própria chave no chaveiro, com uma certa dificuldade por causa do braço enfaixado.)

Não vai!

Vou!

Eu não vou permitir que você cruze a soleira dessa porta!

(Se posta em frente à porta)

Me erra, hein? Deixa de ser bobo!

Você jurou que não iria voltar pro jornal!

Jurei nada! Eu apenas disse!

Dá no mesmo!

Não dá!

É claro que dá! E você não vai pro jornal!

Vou, vou, vou, vou e vou! E tá pra nascer homem que me impeça... Ai, Rafa! Me põe no chão!

Não! Eu vou te levar pra cima e te amarrar na cama até você desistir de voltar pro jornal!

Você não vai me amarrar na cama...

 Vou sim!

 Você sabe que eu não vou desistir...

Sei, mas a esperança é a última que morre... Aí, você mordeu o meu ombro! Sua peste! Volta aqui!

(desce as escadas correndo atrás dela e a encurrá-la num canto da parede.)

Me solta, me larga, me deixa! Sai da minha aba ou eu vou gritar socorro!

E o que os vizinhos vão pensar?

Que você está me molestando!

Eu não estou te molestando! Só quero te amarrar na cadeira!

Não era na cama?

Tanto faz... Volta aqui!

Ai, me apedreja! Deixa de ser machista!

Eu não sou machista! Sou preservacionista! Quero te conservar viva por mais alguns anos, só isso!

Chega!... Eu tô cansada de correr...

Eu também... Olha só a tua blusa!

(aponta para uma mancha)

Aí, droga! Eu não podia ter feito tanto movimento, tá sangrando de novo.

De novo?! Vamos pro hospital agora mesmo.

(ele a pega pela mão e tenta descer a escada.)

Rafa, para! De novo é modo de dizer. Sangrou umas duas vezes e fui ao médico. Ele disse que é normal por causa do lugar... O curativo nunca fica legal, tá melhorando agora, é normal, o lugar é horrível, eu tô sempre mexendo e acontece isso, não precisa ficar apavorado.

Mas você não me disse nada!

Ah, você não tava em casa, eu tava mexendo do jardim...

No jardim?! Não é pra você fazer esforço!

Eu não tava fazendo esforço! Tava só arranjando algo pra fazer!

Você pode ler, assistir um filme...

Eu já li sete livros e vi todos os filmes da última década... Eu estava entediada e fui mexer no jardim, só isso!

E por que você não disse nada?

Eu disse que você não estava aqui... Aí eu fui pro hospital e conversei com o médico, ele refez o curativo e ficou tudo bom...

Você disse que foram duas vezes!

É, foram... A outra foi logo depois, no mesmo dia...

Hã?

Eu voltei do hospital dirigindo, sabe?

Você FOI pro hospital dirigindo?

Fui... E voltei... Mas aí eu deixei o carro aqui em casa e pedi pro Paulo me levar...

Ah! O Paulo de novo! Ele sabia, eu não!

Eu sabia que você ia reagir assim, e não tinha nada de mais...

Nada de mais?! Você devia estar fazendo repouso, não pode ficar zanzando desse jeito... Isso pode piorar, infeccionar, qualquer coisa...

Rafa, calma! Olha, eu não vou morrer por causa disso, OK?

(senta-se no primeiro degrau da escada e ele se encosta na parede, fatigado, os olhos fechados. Exausto, se deixa cair, uns degraus abaixo. Enfia a cabeça entre as pernas...)

Rafa, o que foi? Por que você tá chorando?

(Se debruça sobre ele.)

Ah, porque eu pensei realmente que você fosse morrer! Quando te vi naquela maca, toda ensangüentada, falando um monte de coisa sem sentido, parecia nem saber quem eu era... E você sendo operada e eu sem poder fazer nada. Eu me senti completamente incapaz, impotente para fazer qualquer coisa pra te ajudar! Você teve uma parada cardíaca! Quando o médico me chamou, eu tive certeza que era pra dizer que você tinha morrido!... Me senti alheio à minha própria vida. Você sabe o que é isso? Ver alguém que você ama, mas ama muito, precisar de ajuda e não poder fazer nada?

Rafa, foi absurdo pra todo mundo...

Por favor, me escuta... Eu não consigo passar por isso de novo!  O tempo que você ficou naquele hospital pareceu uma eternidade. Até eles te transferirem aqui pra Sampa, eu achei que você não fosse voltar... Amor, eu não tenho força pra te perder... Eu ansiei por cada minuto até você abrir os olhos, falar comigo e pela hora de você voltar pra casa e passar à noite ao meu lado, eu queria te beijar, te abraçar... Queria ter certeza que a tua alma e o teu corpo estavam bem juntos, e você junto de mim... Eu não suportaria te perder...

Eu também, Rafa, eu também não via a hora de voltar pra casa e te abraçar, mesmo que fosse com um braço só. Não via a hora de estar de novo aqui com você. Mas já passou, foi chato pra todo mundo, mas passou... Eu preciso continuar as minhas coisas, o meu trabalho, já faz dois meses que tô aqui, o dia inteiro, sem poder dar uns roles sozinha na rua, sem dirigir, sem fumar, sem fazer o que eu gosto de fazer, que é ir pro jornal todo dia, escrever e voltar pra casa.

Mas você ainda não pode fazer isso! Fica em casa, desencana do jornal...

Desencanar do jornal? Como?

Eu tenho um emprego legal, dá pra nos sustentar muito bem...

Rafa, eu não acredito! Você me conhece e sabe muito bem o que eu penso disso; eu estou ótima, só levei uns tiros...

Você faz parecer a coisa mais normal do mundo.

Mas é! Hoje em dia um monte de gente leva tiro e ninguém larga o seu emprego!

Mas você não precisa mais trabalhar...

E você quer que eu faça o que? Fique em casa, cuidando das crianças?

Não seria má idéia...

Rafa! Não começa, esse assunto já tá resolvido...

Por você! Porque eu continuo querendo filhos!

Pois então os tenha! Mas não comigo!

Você é a pessoa com quem eu quero ter meus filhos!

Não tenho culpa das tuas projeções...

Não são projeções...

Tá, que seja um assunto seu...

Nosso!

...

...

Desculpa, Rafa, mas acho que esse assunto não vem ao caso, pelo menos não do jeito que a gente tá, com a cabeça quente... Eu não vou pro jornal só porque preciso trabalhar, eu vou também porque amo o que eu faço, eu sou apaixonada pelo meu emprego, é o que eu sempre quis e não vou desistir dele, mas não quero desistir de você... Vamos parar com isso, tá? Me perdoe, mas eu te disse algo que não vou poder cumprir...

O pior de tudo é que eu entendo. Mas é difícil, é algo que eu só entendo porque sei o que é, sei o que é amar o que se faz... Eu não tenho o direito de pedir pra você dei¬xar o jornal, eu nem sei como pude pensar nisso, me desculpe você...  Eu tô meio louco esse tempo... Vou dar uma volta pra esfriar a cabeça, tá bom?

E se eu te acompanhar? A gente pode esfriar a cabeça junto, que tal? Eu iria à redação só pra ver a impressão, tô com saudades e minha licença ainda vai até o fim do mês.

É claro que você pode me acompanhar, vou pegar um casaco, tá frio.

Eu só vou ajeitar o curativo, é rápido...

(Sobe até o banheiro, desinfeta o local, prepara o curativo, vai até o quarto, troca de blusa e põem um moleton)

Vamos?

(abrem a porta e saem. Caminham lado a lado na calçada molhada pela chuva.)

Choveu tanto à tarde e agora a noite tá tão linda...

É, coisa rara aqui em Sampa, né?

É, eu adoro noites assim, são boas de ficar em casa, de baixo das cober¬tas...

É? E porque você está tão longe de mim, hein garota?

Tô me fazendo de difícil...

Veja aquela estrela, é Venus...

A lua está cheia...

É, como no “Feitiço da Lua”.

Feitiço da Lua?

Os dois ficam jutos e o Nicolas Cage beija a Cher...

Nós já estamos juntos...

É, já estamos... E Cage e a Cher também e ninguém pode ouvi-los em toda a galáxia.

Hum, que tal irmos para um lugar onde ninguém poderá nos ouvir em toda a galáxia?

Ninguém?

 Ninguém... Em toda a galáxia...


Jornais - parte 15


As lembranças se tornaram bem confusas desde então, mas o médico disse que eu ainda respondia às perguntas quando cheguei à sala de operação e falava coisas sem nexo, de maneira muito exaltada, o que dificultou tudo... Depois tive uma parada cardíaca e apaguei.

Acordei trinta horas depois. Sentia o ar queimando o meu corpo e tinha tanta coisa ligada em mim, tubo, eletrodo, agulha. Vi o Rafa de olhos vermelhos e sentado aos pés da cama. Eu estava acordada, mas não conseguia falar nem me mover direito. Cheguei a pensar que algo havia dado muito errado porque não sentia o meu corpo e não conseguia, nem ao menos, levantar a cabeça. Caí novamente em sono profundo e não sei quanto demorou (depois me disseram que me mantiveram sedada para facilitar minha recuperação). Quando abri os olhos de novo, dois dias depois, vi o Rafa com uma expressão suplicante que eu sabia muito bem o que significava. Eu consegui articular algumas palavras e apenas balbuciei: Eu vou deixar o jornal.

Resumo da ópera: levei um tiro na perna direita; dois nas costas, perto da bacia; um que me fraturou o omoplata, dois no braço direito e o derradeiro, de raspão, no braço esquerdo, mas nenhum deles pegou região vital ou perigosa. Ganhei na loteria. Sairei amanhã daqui do hospital, vou ficar um tempo em repouso (juro que detesto não fazer nada) e, daqui um tempo, eu volto à redação.