segunda-feira, 27 de junho de 2011

Compromisso

O céu havia mudado de cor já fazia dias.
O azul pálido e singelo fora substituído por um vermelho assassino e o ar já era denso e cada vez mais dolorido de ser aspirado.


Se conheceram na Companhia, trocaram telefones, emails e ficaram amigos.
Durante todo o tempo que estiveram juntos, eles dormiram abraçados e andaram de mãos dadas.
E combinaram. Garantiram. Ficariam unidos até o fim.


Não tiveram filhos, aquilo não faria sentido. Nem um animal de estimação caberia entre eles. Foram egoístas no bem que se davam.


Durante aquele dia irrevogável, trocaram mensagens e correram com seus afazeres. Queriam logo se encontrar.


Final do expediente. Ela não trabalhou, ele sim.
Ele chegou esperançoso, a tomou nos braços, a beijou.
Ela preparara o jantar. A comida preferida dele.
Ela vestia aquele vestido que ele gostava tanto, ele, depois do banho, vestiu a camisa nova.
Jantaram num silêncio amoroso, olhos no prato, olhos nos olhos.


Miles Davis foi a trilha sonora da sobremesa. Ele ofereceu a mão, ela aceitou. Dançaram na sala, à luz de velas e ao som de It never entered my mind.


Já na cama, depois, sentindo ainda o contado um do corpo do outro, se deitaram frente à frente.
Ainda sorriam.
Os lábios se juntaram mais uma vez e os dois olharam para cima, enquanto o telhado era arrancado e o mundo acabava.



sexta-feira, 24 de junho de 2011

A Santa

Um dos seus meninos havia dito, enquanto a penetrava com luxúria e júbilo, que dentro dela era o melhor lugar do mundo pra se estar.
Na hora ela pensara em erguer a mão e discordar. Expor seu ponto de vista e explicar que não era exatamente por ali.
Mas aí ele envolveu seu pescoço com a mão quente e ela se esqueceu.
Só até depois.
Eles se viraram para o lado. Iriam dormir. Ela até tentou, mas tanto o prazer como o sono já haviam ido embora.
Ela ficou com os olhos enormes abertos, como jabuticabas perdidas entre folhas de madrugada, cintilando só o brando dos olhos. Olhava estática para um ponto na parede.
“O melhor lugar do mundo”
Aquilo a deixara chocada.
Como alguém poderia achar que estar dentro dela era algo bom. Pior, prazeroso?
Queria encontrar a explicação naquela noite, mas o sono venceu. Dormiu abraçada, com os pés enroscados como cobras.
Nos dias que se seguiram, ela caminhara pela calçada, o passo ligeiro (sempre estava atrasada para tudo). E aquilo que fora dito na cama, entre lençóis, saliva e odores, ainda parecia uma nuvem naquelas manhãs azuis de agosto.
Como alguém poderia ter dito aquilo? Apenas se fosse da boca pra fora.
Como achar a melhor coisa do mundo estar dentro de alguém como ela?
Ela que sofria de dores imaginárias, sempre perdia o prazo de concursos públicos e nunca conseguia decidir se o copo estava meio cheio ou meio vazio. Ela que ainda tinha problemas com o cadarço do tênis, que tivera uma paixão platônica, que mudara a cor do cabelo para que combinasse com a bolsa? Que só usava preto; o vermelho só em ocasiões especiais. Que ainda não decidira se o homem fora à lua ou não. Que lia bulas de remédio e sofria pelas forças de paz?
Ela que escrevera um livro de faz de conta e nunca colocara no papel, porque sua letra era tão feia que não entenderia o rascunho, nem gravaria, já que sua voz a deixava enjoada. E que além disso roçava, tinha pés gelados, ódios secretos, não entendia seus parentes, era completamente literal. Que imaginava móveis e plantas de casas enquanto ia para o trabalho de metrô.  Que desejava coisas e sentidos.
Como alguém poderia dizer isso? 
Tantos pedindo para entrar e ela pedindo para sair.
Virou a esquina, entrou numa Igreja e decidiu optar pela castidade.



quarta-feira, 22 de junho de 2011

Provérbio



Irrealidades são pesadas como malas.
Todo mundo ri
Todo mundo fala
Eu não meço nada
É madrugada e me apronto
Todo mundo na sala
Da sala para fora
Da boca para fora
Silêncio
Por favor
Recém morridos precisam de
Remédio
Remédio, remediação
Eu preciso de recheio
No peito
E nem é silicone


terça-feira, 21 de junho de 2011

Crônicas de um puteiro II


A vida é estranha.
Estranho é tudo o mais.
A vida é quase sempre mais do que tudo mais.
Certo domingo em que fingíamos ir jogar futebol (ninguém com a alta taxa de triglicérides e muitas safenas, como nós, se arriscaria num esporte tão perigoso), o Liminha teve uma idéia. Ele era cheio das idéias, mas nunca nenhuma prestava.
“Ô Paulão” (Paulão é o cara grande e quieto da nossa turma, o mais bem sucedido depois do Antonio Cleber que sempre foi Playboy)... E ele continuou “por que você não reforma aquele sítio seu lá no caminho pra Ubatuba? Dá até pra fazer um resort, e a gente pode dizer que vai numa viagem de negócios e se reúne todo mundo lá... entendeu?” e fez a cara que o Liminha sempre faz quando quer se referir a diversão e prostitutas (que me perdoem as prostitutas).
“Liminha, você não presta!” vociferou o Benedito, que é o único casado e fiel de todos nós... Mas todo mundo sabe que ele anda com a gente pra se sentir realizado com as escapadelas dos outros. E o Liminha rebateu “Você não passa de um voyeur das f. alheias...”. E o Benedito se ofendeu e saiu campo à fora praguejando contra tudo e contra todos. E o Liminha continuava com aquela expressão no rosto. E o Paulão não disse nada.
Mas há coisas que quando caem na alma de um homem crescem e dão frutos. E a história caiu no esquecimento como a maioria das idéias do Liminha. Ou pelo menos assim pensávamos. Depois de uns seis meses (todos sentados no mesmo campo) Paulão chega com seu uniforme sempre impecável e ninguém nunca soube dizer o por quê, já que era uma encenação as partidas de futebol no domingo. “
Tudo que o Paulão faz ele gosta de fazer bem feito”. E encenação ou não, ele sempre trocava as chuteiras, usava todo o equipamento necessário e se aquecia antes do jogo, que nunca acontecia. Ele chegou um pouco atrasado, o que nos fez desconfiar. Parou e nos olhou um por um. Depois abriu a bolsa de ginástica que trazia sempre para os “Treinos”. Tirou algumas fotos e as distribuiu entre nós.
Via-se o sítio do Paulão totalmente reformado, pintado... Algumas fotos mostravam o interior luxuoso do local, alguns quartos forrados de pelúcia rosa e cheios de espelhos, cinco suítes no total. Nos entreolhamos boquiabertos. Então ele fizera. Sem nos dizer uma única palavra durante seis meses. Seis meses em que sempre nos encontramos aos domingos, seis meses nos quais sextas e sábados era motivo para grandes desculpas em casa. E nada.
Paulão não nos havia dito uma palavra.
Ele era o rei dos cínicos, o franco-atirador dos dissimulados. Era por isso que nós o admirávamos tanto. “
Teremos reunião de negócios no próximo fim de semana”. Virou as costas e foi embora.
E o próximo fim de semana chegou. Todos nós, menos o Benedito que é fiel e o Samuca que ficou doente, fomos. Eu, na época, terminara meu terceiro casamento e namorava uma enfermeira pneumática (um homem na minha condição precisa pensar na saúde) e não deixaria de ir à uma reunião de negócios.
O sítio do Paulão havia ficado uma beleza, um paraíso na terra, um refúgio para bravos guerreiros cansados e fatigados com a cruzada (in)san(t)a do casamento. E sempre havia lindas donzelas capazes de aplacar os males pelos quais havíamos passados para chegar à nossa “reunião de negócios”. E tornou-se nosso pequeno segredo. Uma vez por mês íamos para o oásis do Paulão. Mas nem tudo são rosas, já disse o poeta.
A esposa do Paulão, que não era boba nem nada, por certo meio desconhecido e ignóbil ficou sabendo da reforma do sítio. E assim que o fez, foi tirar suas satisfações. P
aulão chegou com uma marca grande na testa e mais quieto de costume.
“A Cristina descobriu”. Foi só o que disse. Descobriu o quê? Perguntamos em uníssono.
“Tudo, descobriu que reformei o sítio, descobriu sobre a pelúcia rosa e sobre os espelhos, descobriu sobre o refúgio...”. Temi que Paulão fosse chorar. E? Indagamos curiosos.
“Eu tive que dizer que era uma surpresa”. Surpresa? Onde ele queria chegar?
“Que eu havia feito tudo aquilo pra ela”. Não, isso era demais. Quem acreditaria numa mentira dessas? E como explicar cinco suítes revestidas de espelhos, as banheiras de hidromassagem e as pistas de dança dentro dos quartos? Ninguém acreditaria numa coisa dessas.
“Pra ela e pras amigas delas...” leia-se: nossas esposas ou similares.
“Ela disse que quer ir pra lá nesse fim de semana e vai levar as amigas”.
“Então nós vamos ter que ir também”, concluiu Liminha cabisbaixo. “E eu vou ter que dormir com a minha mulher”, ajuntou o Andrade. Não, aquilo não era bom para ninguém, nunca mais o oásis do Paulão seria o mesmo. A segurança, a falta de peso na consciência, a alegria e bem estar de estar fazendo algo proibido completamente em paz e tranqüilidade. Aqueles eram tempos idos. Mas nada mais restava a fazer a não ser irmos todos. E no fim de semana juntamos mulheres e travesseiros e fomos todos para o Ex-oásis do Paulão. E passamos os dois dias do fim de semana com nossas esposas. E aquilo foi provação. A conversa sobre a novela, a comida que pegou, as crianças na escola, a mãe e a vizinha, os quilos a mais que eram tão evidentes quanto nosso desapontamento. No sábado à noite Andrade desabafou para mim “Não posso mais, vou jogar tudo para o alto, ela quer fazer amor a cada meia hora comigo e eu não suporto nem o perfume que ela usa quanto mais os apelidinhos carinhosos pelos quais ela me chama”. Apenas respondi: Resista. E domingo chegou e nosso martírio estava chegando ao fim. Arrumamos nossas coisas e ainda tive tempo de ver o olhar perdido do Andrade, o olhar de quem acabara de passar por algum tipo de sevícia. E no momento que estávamos saindo, o caseiro (um rapazinho mirrado e franzino) nos chamou de canto. Ele era novo ali, Paulão o havia contratado após a reforma do sítio. Rindo, de forma acanhada, nos confessou ao pé do ouvido.
“Olha seu Paulo... Desculpa falar isso pro senhor, mas não pude deixar de notar... é que desde que eu trabalho aqui, essas foram as putas mais feias que vocês trouxeram pra cá”. E rindo um pouco consigo mesmo, nos olhou com humildade de pessoa simples. Nós nos entreolhamos, engolimos a seco, baixamos a cabeça e concordamos. O rapaz se afastou e cada um se dirigiu para seu carro, com a estranha certeza de que a vida nunca mais seria como era antes.



Crônicas de um puteiro II - O francês

Nada de loiras. Dessa vez foi com outra morena. Ah! Morenas... Mas a história é sinistra. Ou seria, se não fosse tão cômica

Aconteceu com um francês amigo nosso, mais novo, meio verde ainda ou talvez fosse o idioma que ele não dominasse bem. Mas então: foi que ele veio pro Brasil pra se casar com uma morena que conhecera aqui, anos antes, no intercâmbio. Veio e casou. Morena clara, olhos enormes, muito coquete. Nas festas passava saltitando por nós e o francês ia atrás. Não quero revelar nomes, seria crueldade demais.

Saltitando e sorrindo para todos os lados. E o francês atrás. E a gente pensando “Se ela sorrir de novo, eu como”. Ou “nós comemos” pra combinar com “a gente”. E além do mais havia histórias. Não quero revelar detalhes, seria exposição demais.

E então um dia aconteceu.

Ela era fã do Chico. Do Chico, do Bandeira e do Bahaus, porque convém frisar: mesmo saltitante e fogosa, ela era morena e esperta que só vendo. E fã do Chico. Muito fã.

E o francês apaixonado, num dia dos namorados calha de dar na veneta do Chico de fazer um show. Calha do francês comprar ingressos. Tudo na surdina. E calha da morena sumir no fim do show com o Chico (para um motel, é óbvio).

Desculpem a rispidez, mas meu passado de jornalista me impede mais delongas. Foi assim que aconteceu.

Ela fugiu com o Chico (que não é bobo nem nada) e o resto vocês imaginem ou não. Porque, no dia seguinte, ela voltou pra casa como se nada tivesse acontecido e quando o desafortunado francês vociferou, acusando-a de ter dado para o Chico, ela o olhou abismada:

“Querido, mas foi para o Chico!”

E é isso. Foi pro Chico e não para um João ninguém. E não é que o francês incauto desculpou?!

Até aí tudo bem. A questão é que o Chico gamou _ parece que os boatos eram verdadeiros (não quero ser mais explícito, seria fofoca demais).

Gamou e tem mais. Decidiu que a morena saltitante iria ser dele e deu pra telefonar, mandar flores, chocolates, poodles (que eram sempre devolvidos), fez canção, lançou no rádio e nada. Ao que tudo indica, pra morena foi só uma noite e nada mais. E parece que ela gostava mesmo do francês e que até era fiel. Não posso afirmar nada, seria credulidade demais.

E o Chico convidava a moça pra jantar. Ela recusava. Pedia para que ela saísse na janela. Ela nem ligava.
 

O Chico ficou louco. Passaram meses e ele ainda queria ver a morena gazelosa. Deu um tiro de misericórdia: mandou convites para seu show.

Ela era fã do Chico. Não recusou.

E no dia (que era uma noite) lá estava a morena (linda, linda em preto) e o francês que nem mais fazia caso da história.

Assistiram ao show. Aplaudiram de pé e foram cumprimentar o artista... O Chico.

E foi aí que o negócio degringolou. E se o benevolente francês perdoara tudo, esquecera toda a história e até fizera uma camiseta dizendo “Minha mulher deu para o Chico” e atrás “mas ficou comigo”, ao ver o Chico envolvendo sua mulher nos braços e tascando-lhe um beijo nas faces claras de morena clara, algo dentro dele estalou. Estalou tanto e tão forte que até fez barulho. E se a mão é mais rápida que os olhos, talvez isso justifique a foto que acompanhava as manchetes dos jornais do dia seguinte. Mostravam o francês ensandecido de um lado, punho cerrado e olhos ejetados de sangue e do outro lado o pobre Chico, encolhidinho, com expressão de sincero terror.

Foi demais. Pra morena, é claro. Que além de ser fã do Chico, gostar dos Mutantes, do Bandeira e do Bahaus não aprovaria atitudes de tamanha violência. Não aprovaria e não aprovou. Pediu divórcio.

E o francês, num último gesto de revolta e vingança, passou a frequentar todos os shows do Chico, que havia quebrado o nariz e cantava agora com a voz do Bob Dylan, o que (convem mencionar) arrasou a sua carreira e o obrigou a começar fazer shows em botequins de esquina e até mesmo de meio de quarteirão.

E o francês ia e fazia gestos obscenos. E depois de um ano assim, esgotado, o Chico revidou.

“E essa música vai para o meu amigo francês que está ali, no meio da plateia, mostrando o dedo do meio pra mim...

...Te perdôo por quebrares o meu nariz, mas dormir com a tua mulher foi o melhor que eu fiz...”

E o francês, completamente louco, se lançou ao palco e o Chico, descontrolado, se protegendo com o violão, gritava:

“Vai, me bate! Me dá outro soco! Quem sabe você não conserte o meu nariz...o mesmo que você estragou...seu pupilo do Sarkozy!”

E não deu noutra. Pum. O Francês não aguentou e o Chico foi golpeado novamente.

Fotos do jornal na manhã seguinte: Chico desmaiado, sorrindo, como o nariz sangrando e segurando o violão.

Legendas: “Te perdôo!”

E o nariz do Chico, por um desses milagres estranhos do destino, ficou bom e a voz do Bob Dylan foi embora.

O francês foi procurar a morena que emendou afinada:

“Ele te perdoa, mas eu não”. E também não quis saber de nada com o Chico. Casou com um economista com um péssimo gosto musical.

O Chico ficou desolado e acabou chamando o francês para tocar com ele. E o fato de eu não ter mencionado que o compatriota de Marcel Marceau  era músico, não se deve à minha síntese jornalística e sim ao consumo demasiado de uísque, charutos e prostitutas, não necessariamente nessa ordem.

E os dois fizeram uma dupla. Parece que os dois ficaram amigos. Muito amigos... Deve ser cultural.





quinta-feira, 16 de junho de 2011

Veredas


Meu caminho é semente
Se me oferecem vaso
cresço bonsai
Se é solo seco e cremado
Só espinhos e água dentro
É no campo que chove na
medida certa
Que seu nome na minha
boca vira flor
E você passarinho





Era cinza
O dia no final da ladeira
Como restos de demolição
Em ton surton
Cinza dos céus à cabeça
A boca
Pálida como
Gesso em cantos e molduras
A fé abalada
Nas estruturas
Era apenas um adereço
Triste
Esclarecendo tudo
Sobre a estética do carnaval
Do interior
A rua
Seguia livremente
Hoje o asfalto combinava com
O dia




sábado, 11 de junho de 2011

IBOPE

Eu não queria mais escrever. Tentei explicar pra n pessoas que era ruim e bom ao mesmo tempo, mas sempre viro na esquina errada e me deparo com um sinal de "não". Uma placa que diz que eu queria dizer outra coisa. Tento remendar, não consigo, me frustro e depois me calo.

Hoje a questão era todo aquele sangue vindo da bexiga. Eu quase desmaiei quando vi. As pedras devem ter se deslocado ou meu coração tá tão rachado e é de mentira que agora sangra. Sangra pelos caminhos linfáticos que também devem ter placa de "não". Já viu uma dessas?

Ele tem me feito bem e meu corpo resolve morrer quando isso acontece. Isso explicaria todas as coisas, as rejeições, as fugas e até essa auréola de impureza imaculada que tenho. Já reparou que quando falo dele é "ele", mas pra você é assim, direto, sem atalhos? Duvido. Você não presta atenção.

Então vou explicar o que foi que eu vi. A cidade escorria por um vão entre o muito frio e a mais sincera imundice. Iódice. Sempre uno esses dois termos e acho que combinam. Mas a sujeira aqui é coisa séria. Se estende pelos recantos e pelas lojas de calçados, pelo excinemagoraigrejauniversal, pelo calçadão e esses pombos que caminham como se tirassem férias e carregassem maquininhas fotográficas ou bengalas de jacarandá. Pombas burguesas e bem alimentadas pelos nossos restos.

Na praia uma mulher me disse que viu uma se engasgando com um chiclete. Achei tão tétrico que tive que sacudir a cabeça pra imagem se desfazer, igual fumaça.

Me esquecia sempre que as montanhas são sempre minha casa. Eu venho visitar o lar tão pouco que mudo de endereço postal há cada seis meses e troco toda a mobília. Ela vai estar corroída. Exageradamente estragada e bicada... Por essas pombas que caminham, e que tiram fotos e postam em redes sociais...



quinta-feira, 2 de junho de 2011

A Menina e o Passarinho


                                                                                   Para o Pã e a Nix, que sempre me comove,

                                                                                 mesmo quando não entende os porquês




Numa dessas casas havia uma menina que gostava de salvar animais. Passava horas no quintal, na Primavera, desvirando besouros desavisados, tirando mariposas das poças d’água, resgatando formigas que se perdiam.

Um dia ela achou um passarinho.

Olhou pro bichinho, ainda emplumado de tão novinho que era. Com cuidado, segurando-o nas mãozinhas quase do tamanho da avezinha, se pôs na olhar as árvores mais próximas, tentando encontrar um ninho. Mas depois de um certo tempo (e já se afeiçoando ao animalzinho) voltou para a casa, com as mãos em formato de ninho.

E tal amor a menina dedicou ao passarinho que lhe deu nome, sobrenome e o alimentava dez vezes por dia.

Chegava da escola, largava a mochila e aos berros procurava o seu filhinho: Pichitinho! O passarinho respondia. Melão, melancia, banana.

A menina punha Pichitinho na gaiola e ia se deitar no terreiro, uma bacia de fruta do lado, um pouquinho pra ela, um pouquinho pra ele, ela deitada para olhar as nuvens, ele, estendendo as asinhas, fazia companhia.

Que visse pensaria que nasceram assim.

Pichitinho piava, a menina ria, contava o que aprendera em aula, cantava. Os dois cantavam, em coro ou sozinhos.

Jogando a mochila e correndo, a menina chamou. O passarinho não respondeu. Na gaiola, deitadinho, como dormindo de preguiça, a menina percebeu o bichinho morto...

Com cuidado que sempre tivera, o apanhou com a mãozinha magra e soluçou um suspiro que pareceu uma folha arrancada antes do vento.

Debruçadinha, chorando num silêncio escuro sem porta nem janela, a mãe a encontrou na varanda, o passarinho nos braços, ninado como neném.

Passou as mãos pelos cabelos caídos no rosto, a cabeça inclinada pra frente, passando por dentro dos olhos um cinema de perguntas.

Pra quem ela iria voltar correndo depois da aula? Quem olharia as nuvens virando gatos inofensivos e estranhos de chapéu? Seus amigos não entendiam de nuvens, não tinham asas e penas. Quem dividiria a fatia de melancia?

Sem soltar o passarinho, como se segurando num fiozinho de vida, se agarrou à mãe, que a recebeu. Abraçada ainda na rocha que uma mãe vira quando o filho chora, olhando de vesgueio para a gaiola, só percebeu que falou depois de ouvir a própria voz perguntando: ”E quem vai morar na gaiola agora?”

Na gaiola ficaria um pedaço do coração incauto que ama.

Naquele instante, a menina cresceu.