segunda-feira, 28 de março de 2011

jornais - parte 4

Queridos companheiros de jornada... Às vezes eu paro e penso que existe alguém lá em cima que realmente se diverte às minhas custas e que ri, de forma doentia, da minha cara (agora eu me pergunto por que não percebi isso antes?).  
Depois de séculos, o QUEM manda no jornal resolveu admitir sangue novo na casa, ou letra nova no jornal, como preferirem. E não poupou esforços para isso.
Fez entrevistas e mais entrevistas com uma porção de jovens estagiários. Vocês não imaginam que raça prolífera é essa.
O chefe fez isso dizendo que era porque não queria contratar “qualquer um”. Depois de um mês e meio vendo garotinhas com terninhos e rapazes arrumadinhos, ele se decidiu. Reuniu o pessoal (o mais novo ali tem uns cinqüenta anos de jornal) e proclamou que teríamos um novo colega (nesse momento imaginei ter ouvido um hip, hip, hurra!, mas achei que fosse só uma alucinação). Todos ficaram contentes, iria ser legal alguém novo, alguém de quem pudéssemos rir um pouco (é mau, mas inevitável). E quando ele disse que era um cara, aí fiquei certa que o “hip, hip, hurra!” era real. Como um jovem recém formado pode conturbar um ambiente, não? Foi preciso chamar os bombeiros e os domadores de feras para que o chefão pudesse continuar a falar...
Ânimos acalmados, ele prosseguiu falando que esperava que cooperássemos, afinal “o garoto tem potencial e sua admissão não foi à toa” e patati e patatá. Eu estava meio longe, contente por ter um colega novo, alguém que trouxesse um pouco de vida aquela redação arqueológica. Foi então que voltando um pouco daquele lugar paradisíaco no qual me encontrava e prestando atenção na conversa, pude ouvir as seguintes (e aterradoras) palavras: “... e eu escolhi alguém para monitorar o estágio dele no jornal, para ensiná-lo as coisas necessárias, já que eu estarei muito, mas muito ocupado mesmo pra isso. Sei que a pessoa escolhida não vai me decepcio¬nar e ninguém melhor do que você!”
E apontou pra mim.
Ah! Eu não podia acreditar. Como(!) ele poderia fazer isso comigo? Me obrigar explicar coisas a um novato que não entende nada e que com certeza ia me dar mais trabalho do que eu já tinha? Aquilo era demais. Me levantei e o puxei para um canto:
Como você pode fazer isso comigo?. Perguntei injuriada.
Eu sei que você pode... Ninguém vai ensiná-lo melhor do que você.
Eu não posso! Eu sou neurótica! E não me leve a mal, mas eu realmente não posso mesmo, mesmo, mesmo, de verdade, tomar conta de um cara que não conhece nada da profissão, que acabou de sair da faculdade, que acha que jornalismo é uma boa profissão... Por favor...
Não adianta, querida. Eu sou o seu patrão e já decidi. E eu sei que isso vai te fazer bem, conviver com outra pessoa...
Conviver com outra pessoa?
É, eu andei pensando e tenho achado muito perigoso você fazer reportagem de campo, mesmo com apoio policial...
 Hein!?...  Calma aí que eu não tô entendendo... Que é que tem o meu trabalho com isso? Eu não o tenho feito direito?!
Claro que tem! Mas é perigoso você andar por aí, lidando muitas vezes com marginais de vários tipos. E sozinha...
Elias, uma coisa de cada vez. Primeiro: você contratou um cara novo pra trabalhar aqui, certo?
Certo...
Segundo: Tudo ok com o meu trampo...
Certo.
Terceiro: Mesmo assim, você me arranjou um parceiro de reportagem... É isso?
Perfeito! Você acertou de novo! Tá ficando boa nisso!
Sem gracinhas, Elias!... E sem eu saber?
Se eu te falasse você não aceitaria...
É claro que não!
Viu?
...
Ele fez jornalismo e escola preparatória da polícia civil. Bom, não?
Maravilha, ele também voa?! Porque só falta isso para ele ser o Superman...
Isso nós vamos descobrir.
Mas Elias! Eu não sou a Lois Lane!
Só porque você não quer... Aliás, um dia jogo esse tênis fora.
Deixa o meu pisante velho em paz e eu não sou e não quero ser, tá legal? E também isso não vem ao caso, tá? Eu só não quero ter que paparicar um garotão... Olha, qualquer uma das minhas colegas de trabalho adoraria ensinar pra ele o que for preciso e o que não for... Passe-o pra elas, mas não pra mim!
Eu não confio nelas e em você sim. E você precisa de cobertura, tem acumulado muitas funções...
Virou as costas e se trancou na sua sala. Eu fiquei ali parada sem acreditar. Respirei fundo e me virei e vi que tava todo mundo olhando e prestando mais atenção do que deveria na minha conversa (isso sempre acontece quando converso com o chefe). Encarei o pessoal e eles voltaram ao trabalho. Fui pra minha mesa meio desgostosa e a Rose se aproximou com um copo de café (ela sempre faz isso quando quer me agradar).
Você é uma sortuda! Todas aqui, inclusive eu, gostariam de ser a cicerone do rapazinho... Me disseram que é uma gracinha, novinho, inexperiente, com carinha de anjo... e é quase um policial. Se eu fosse você dava graças a Deus.
“Fica com ele então”. Falei de mau humor.
E você acha que se eu pudesse, não ficaria? Mas o chefe escolheu você... Acho que é porque sabe que você é a única profissional aqui, você nunca daria em cima dele... Vai, não fica chateada, toma o café, eu sei que não devia, mas sei que te anima um pouco.
Ah! Rose, o que seria de mim sem você?
Vai, relaxa um pouco, eu tenho que fazer o meu traalho, depois a gente conversa mais.
Ela se levantou, foi verificar se todos os setores estavam funcionando normalmente e eu fiquei ali sentada, olhando pro teto com as pernas na mesa. Só consigo pensar assim. Eu tava esperando que algo acontecesse. Foi então que aconteceu.
De repente senti uma mão no meu ombro e vi uns olhos azuis e um jovem me dizendo “Oi, eu sou o Paulo”.
Me apressei para me levantar mas meus pés não me obedeceram e ficaram enroscados na mesa, e lá fui eu de costas pro chão, com cadeira e tudo.
Eu achei que talvez não me levantar nunca mais fosse a melhor opção. Ou fingir uma fratura cervical e, quando os paramédicos chegassem, fugir com a ambulância para a Argentina. Mas não teve jeito, tive que me recobrar e ficar de pé. Minhas costas doíam um pouco e sei lá porque o cara quis levantar minha blusa pra ver como estavam. Eu não deixei, é claro (pode uma coisa dessas?) e ele olhou pra mim e perguntou, com a maior cara de pau: “O que foi? Pra que tanto zelo com as costas? Ou você tem um gato cor-de-rosa tatuado e não quer que eu veja?”. Eu parei, olhei para aqueles olhos estupidamente azuis (como fizeram isso comigo? Ninguém havia me dito que os olhos eram azuis!) e como não tinha nada pra dizer, peguei meu copo de café e saí.
Fui dar uma volta na quadra e depois liguei para o jornal. Contei o que havia acontecido pro meu chefe (ele riu muito, não sei o porquê) e ele me disse: “Eu imaginei que isso iria acontecer... Pode tirar o resto do dia de folga”. Fui para casa pensando como seria encontrar o cara de novo pela manhã e apagar a impressão de que era uma completa idiota, mesmo sendo. Afinal, se a pessoa designada para me orientar no meu novo emprego caísse da cadeira, como eu caí, nunca mais poderia olhar para ela sem uma vontade louca de rir. Bom, eu fui para casa, me entediei, fui pro Hajid e acabei voltando e dormindo. Mas uma dúvida me atormentava: o que há de tão mal num gato cor-de-rosa?


jornais - parte 2

A primeira vez que eu a vi foi no meu primeiro dia de trabalho no jornal. Era tudo novo, eu estagiário me sentindo contratado pelo Times, achando graça até no cesto de lixo. Levantei cedo, me arrumei o melhor que pude, enfrentei pouco engarrafamento, tava todo empolgado. Cheguei ao jornal, subi pelo elevador e parei no décimo terceiro andar onde passaria, daquele dia em diante, a maior parte do meu tempo (inclusive o livre). Entrei no escritório cheio de baias e mesas com um ar denso de fumaça, um barulho incessante, uma bagunça desesperadora...  Era lindo! E foi então que eu me deparei com ela sentada de costas para mim, com as pernas na mesa ao lado da tela do computador, o corpo jogado para trás, calçando um AllStar Pink velho, vestindo uma calça rasgada e velha e uma camiseta branca velha... Aliás, a única coisa nova ali era ela (até o computador tinha algo de duvidoso na idade). Olhava pro teto com ar perdido, a boca aberta, parecia estar em outro mundo. De cima de sua mesa escorriam papéis, empilhavam-se anotações, lápis, canetas, cds, duas garrafas termais de café, um copo americano e um pote de açúcar. Me dirigi a ela já que era minha superior e seria a responsável pelo meu estágio dentro do jornal (descobri isso vendo a plaquinha em cima da mesa  no meio daquele amontoado de coisas e vendo que o nome era o mesmo que estava no papel que haviam me dado no dia em que fui admitido). Me aproximei e disse “Oi... sou o Paulo”. Acho que abordá-la dessa forma não foi uma boa ideia, já que ao me ver ela levou um susto tão grande que  caiu para trás com a cadeira (juro que não sou tão feio assim). Eu não sabia o que fazer, já que rir não era conveniente (era o mais justo, mas não o mais sábio). Então estendi o meu braço para ajudá-la, mas ela não aceitou. Só disse “Tá tudo bem, desencana”. Levantou-se com a mão nas costas perto da cintura, se entortou para um lado e depois para o outro, disse um aí, franziu a sobrancelha e me encarou com ar desconfiado. Eu gelei. Me senti nu. 
Pra me livrar do embaraço, numa atitude tola, tentei levantar a blusa dela pra ver se estava tudo bem, se ela havia se machucado, mas ela me deu um chega pra lá tão veemente que fiquei pior do que estava (agora eu estava nu e as pessoas estavam me observando).
“Hei, o que você tá pensando!?... Desinfeta das minhas costas!”. Achei aquilo desnecessário, um pouco grosseiro e pra descontrair perguntei o porquê daquilo. 
“Calma, não precisa ficar nervosa assim. Ou você tem um gato cor-de-rosa tatuado nas costas e não quer que eu veja?”. 
Bom, se antes eu estava nu com as pessoas me observando, agora elas estavam rindo dos meus órgãos genitais. 
Dentre um bilhão e meio de coisas que eu poderia ter dito (não sei se há um cálculo estatístico para isso) por que (?), responda Deus, eu disse exatamente aquela? Ela me olhou levantando uma das sobrancelhas e entortando um pouco o queixo pro lado (depois vim perceber que isso é uma expressão comum dela, principalmente quando quer trucidar alguém... Eu adoro!) e por um momento tive a certeza de que ela iria crescer, crescer, ficar grande e pisar em mim. Então passou a língua pelos lábios (que língua! que lábios!) bufou, pegou o copo americano (cheio de café), virou as costas e saiu. Olhei sem saber o que estava acontecendo, esperando uma resposta de quem quer que fosse (a partir do tombo, meus novos colegas de trabalho acompanharam o que aconteceu com bastante interesse). Uma moça muito simpática (que vim saber se chamar Rose e ser a melhor amiga dela) me deu uns tapinhas no ombro e disse “Ela tem um gato cor-de-rosa tatuado nas costas”. 
Pude ver a expressão das pessoas ao meu redor, abafando os risinhos com as mãos e me senti profundamente idiota. 
E eu estava nu com as pessoas que me observavam rindo dos meus órgãos genitais... e alguém se aproximava com uma fita métrica.

segunda-feira, 21 de março de 2011

jornais - parte 1


... De repente eles entraram pela porta principal... 
Mãos na cabeça...  Todos no chão!
Não disse nada, lentamente me ajoelhei com as mãos na cabeça e me deitei no chão. Fechei os olhos e pensei: Por que eu tinha que estar aqui?... E se uma bala perdida atravessar a minha cabeça, o que vai ser de mim?... Bom, serei mais um cadáver esperando por reconhecimento.
Foi um corre-corre, sete homens encapuzados e com uns revólveres do ta­manho de uns não sei o que, gritavam para os caixas: _Rápido, quero essa sacola cheia de dinheiro... Só notas altas!_ ou alguma coisa parecida com isso...  Bem, não era só isso que eles diziam. Havia umas coisas que não posso dizer agora, mas depois de uns minutos (que parece­ram horas para mim) eles se foram. Ouvimos alguns tiros lá fora e pouco depois um policial à paisana (bom, eu acho que era um policial à paisana) entrou e perguntou se alguém estava ferido, ninguém respondeu nada. A ten­são era tanta que ninguém se mexeu. Por uns instantes o silêncio foi aterra­dor, depois uma mulher começou a gritar e chorar. Foi horrível.
Quando percebi que não havia mais perigo de eu me tornar um presunto, levantei-me, espanei o pó das minhas roupas e saí.
Lá fora havia muita gente reunida, muito sangue no chão...  Acho que foi um policial e um dos caras com capuz. Uma dona loira chorava perto de uma viatura, seis homens algemados perto de um camburão diziam coisas que também não posso repetir.
Pulei o cordão de isolamento, um pouco nauseada por causa do sangue (eu nunca suportei). Fui até um bar tomar um pouco de água e me dirigi no­vamente à minha vidinha medíocre de jornalista.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Borboletas aquáticas


Se minha boca, se meus lábios fossem feitos de mel,
Engoliria o mundo.
Ele ficaria em mim como uma criança no ventre materno.
Ali, guardado
Em mim
Crescendo
em mim
Meus olhos seriam duas borboletas de areia
Meus cabelos, fios da aranha.
Eu, com o mundo dentro
O azul das águas
Em minhas veias
em meu coração vulcões explodindo
O mundo em mim
Seria um ser onírico
Um mito
Uma lenda
E seria conhecida como
A mulher com o mundo dentro

sexta-feira, 4 de março de 2011

Dante e Beatriz - Dominical

Pro Capa



Correu um pouco, desejando que não lhe perguntassem onde estivera. Não mentia pra mãe nunca.  Ainda não acabara a missa. Não deveriam ter dado por sua falta. Dissera que ficaria na praça. Mas então olhou a jaboticabeira e não resistiu. Quem ele seria? Ainda sentia um tremor gelado a vibrar em seus joelhos. E se descobrissem seu pequeno delito? Não seria a  primeira vez que pularia um muro e entraria sem avisar, mas o povo da roça estava acostumado, ali era diferente. Era a cidade e ela sabia disso. Chegou à frente da igreja, esbaforida e pode ver o pai encostado no carro, preparando um cigarro de palha. Adorava o cheiro. Não conseguia se decidir se corria até ele ou não. Para ele ela não dissimularia.  Tentou se recompor e caminhar lentamente. Não conseguiu, correu.
“Não corra...vai cair.” . Não vou, retrucou mentalmente.
“Tá toda vermelha, tava correndo por aí?”. O que responderia? Assim que abrisse a boca ele saberia toda a verdade. Sorriu então.
“Eu te levo pra casa, avise sua mãe, a menos que você faça questão de ficar ouvindo o padre.” Ela abriu um largo sorriso e o pai também. Não, ela não queria. Nas vezes que aceitava de bom grado ir á missa, ficava olhando pro teto abobadado esperando ver anjos sobrevoando sua cabeça ou ouvir um chamado divino. Se imaginava usando a coifa, deitada com os braços abertos, fitando a cruz.  Mas detestava esperar, detestava a missa de domingo de manhã, queria correr pelo quintal e nadar, ou só deitar e esperar as nuvens viararem gatos, alces, um dia viu um enorme coelho com cara de dragão. Voltou as costas ao pai e foi correndo para a igreja. Localizou a mãe ajoelhada. A comunhão era agradável, já fazia um ano que podia tomá-la, detestara cada minuto daquele catecismo. Chegou com jeitinho.
“Mãe, vou com o pai.” A mãe assentiu, os olhos fechados. A vozinha, magra e branca pareceu aflita. Gostava da companhia da neta, quase filha.
Saiu ruidosa da nave. Adorava atrapalhar os beatos, mesmo que não confessasse em voz alta.
O pai a esperava.



O carro se movia lentamente. Não tinham pressa.
“quer viajar comigo amanhã?”. Ela não respondeu de prontidão. Esperava a semana toda pelo dia que o pai a convidaria. Não havia um dia certo, ela olhou pela janela e pensou que passariam pelo relvado, era tão bonito, todo verde e os bichos. Sempre tinham muitos por onde andavam. E os dois iam cantando as modas de viola que ouviam juntos.
“Você canta tão afinadinha, filha...devia ser cantora quando ficar moça.”. Ela achava uma graça. Não seria cantora , seria arqueóloga ou jornalista, um pouco de cada.
“Pai?” Juntou coragem pra perguntar: “Quem mora na casa perto ali daquela esquina?”
Estranhou a pergunta
“Por quê?
 Ah, eu queria saber...
Quem sai aos seus não degenera, apura a raça...tá matutando o quê?
Nada pai, nada não, fiquei curiosa, vi um menino...
Namoradinho....
Não, não” . Ela precisava consertar aquilo.
Era mais novo, novinho...
Eu sou mais novo que sua mãe...
Ah, pai pára.
“Ah, pai pára.” Ele a remedou, sabia que ela ficava irada e deu risada ao vê-la emburrada olhando pela janela.
“Ah, não vou com tua cara saracura...vou com você inteira” E ela já não estava brava. A conversa ficou suspensa. Mas iria ou não com o pai andar pelas estradinhas, subir e descer os morros, ver os bichos que tanto chamavam a atenção? Amanhã...soava em sua mente. Mas nem sabia o nome dele! Nem sabia nada! Quem ele era, como chamava, quantos anos tinha...qual seria o signo dele? Os olhos eram azuis, ela gostava...queria, queria não, precisava falar com ele. Por que ele parecia estar ali no carro, sentado atrás dela? Por que ela sentia uma estranha falta, uma vontade de pedir pro pai voltar e ela chamá-lo até a porta. Mas chamá-lo como? Nem nome, nem nada.
Bufou e encostou a cabeça na janela entreaberta.
Amanhã. Ela não poderia faltar.
“Ah, pai, pode ser na semana que vem? Acho que vai ficar melhor, tenho umas coisas pra fazer?”. Não iria inventar história. Não ir com o pai já lhe doía muito. Mas já havia combinado algo antes. Não poderia faltar...

terça-feira, 1 de março de 2011

a metade

I


A necessidade de escrever é real e esparsa. Escrevamos todos nós. Eu; ele; ela. Foi um dia tão bonito que quase eu escolhi morrer e ouvia ao longe todo o arraial gritar “amém”.
Eu viraria as costas se fosse sério. Eu venderia livros se eu os tivesse. Hoje acabou.
Começaria o dia assim:
Bom dia,
E ele já não estava lá. Ela olhava com jeito estranho pela janela. Lembrava e não lembrava, lembrava e esquecia. Ele estivera ali de pé olhando pra ela?
Minutos atrás?
Não, fora no outro ano e ela perdeu o calendário. Se confundia aos poucos.
Ultimamente diziam que ela andava louca, que não sabia de nada.
Eram sérios? Ou ela imaginava tudo? Aquela voz, aqueles gritos.
A paisagem encarcerada na janela é a mesma.
Nem é, balbuciava trêmula, olhos ovalados, mãos esticadas querendo só tocar o reflexo. Foi o barulho do portão? Não seria.
Segura firme na prateleira!
Já desmaiaste alguma vez? Aquela vertigem, esse tremor.
E tudo negro


II


Lousa em branco.
Precisava trabalhar, mas não consentia que fosse feito qualquer rabisco naquele espaço.
Em tempos inconcebíveis os altares eram suportes dos sacrifícios.
Ela só sabia criar templos assim: do nada.
Mexe um dedo. Acredita que ele não obedece e deve haver um narrador em off. Todos quietos na aula, só a trilha sonora que corroia seco os nervos, cáustica.
Ainda não havia prudência para retomar.
Cada coisa caia pálida. Ele levara holofotes? Os óculos dela onde estavam?
Querida, estão aqui. A voz suave, um sotaque algum. Virou-se espantada para olhar.
Não. De novo as palavras saídas de um poço, as moedas flutuantes, erradas na física de não cair.
Cada vez que isso acontece, ela leva a mão à nuca. Essa dor. A pontada era no peito. Mas ela fingia porque aprendera a ser ator.
Não há conjugação possível para os fingimentos.
Uma vez pensei que só mulher fingia. Sofria de uma mística preconceituosa que brincava com reflexos. Cada qual com seu igual e sentia tanta falta de internet. Não exercia mais a esquizofrenia em paz. O negócio não funcionaria mais?
Hoje fechei dois vidros.
Pus os rótulos.
E não sabia o que escrever.


III


Desmentido o sentido do mês inteiro. Quem dera fosse dormência. Com licença pela segunda vez e não tão polida a moça do mercado pedia passagem. Mais cesta e só um pé de alface se achando Deus ali, parado.
Sozinho.
Se me voltam troco demais eu devolvo, mas sempre fico com dó. Desejando poder ficar com aquilo sem parecer tanto pecado.
Era mais um padre ou Calvino que ela engolira com um copo d’água, apenas um.
O pé de alface.

IV
Se alguém que vai some, quase como morte.
Visão oculta medos. Dá, garante e depois tira e agora até no outdoor.
Venha morar melhor, é o que todos dizem.
Posso te contar uma coisa? O cheiro. Esse teu cheiro. Esse sim no travesseiro me descia como esmola. Eu cega na porta da igreja.
Faixa enrolada no pé direito e caneca de ágata. Onde é que compra hoje em dia?
E você me deu o travesseiro. Se eu soubesse que você gostava de missa, tinha convidado pra capela. Mas era imaginária.
Cada badalada do sino pequenino sino de Belém era na cabeça dela. Acordara com dor de cabeça.


V


Ressentiu o ar da madrugada.
Será que passa? Já respondeu, mas tudo tão alheio que nem ouviu.
Passa não.
Colchão, estrelas e teu lugar a mais na mesa.
Cada adeus deveria vir com corrimão, pra gente se apoiar ao invés de cair, ou bater a cabeça na queda e esquecer tudo. Até já viu que fechar os olhos não adianta. A dor vinha no escuro.
Ainda enxergava melhor que eu.
Adianta balbuciar sem sentido e lembrar um sonho de sorte?
Bá,bá,bá,bá.
Espantada pára e se convence de que se babou inteira.
A velhinha que morava no fundo da casa onde nasci ia achar graça, o marido ia achar feio.
No quintal, parada sozinha.
A cabeça teimou em escolher: Qual dos dois?


VI


O invisível tem cor, dizia o livrinho na prateleira.

Todas elas foram projetadas para ganhar. Que maravilha ver aquela madeira laqueada!

O gesto da mão pega o livro. A cabeça pega lembrança. Um filho.

E teria a cara do pai.

Pensou um pouco.

Hoje bucólica eu conto as horas, olho os pulsos magoados entrecortados e invento poesias no ticket do estacionamento. Hoje é nunca mais. Sempre alguém me diz isso, que sou indecisa e que minha boca é carnuda.

O lábio de cima ou o inferior? Fiquei pensando sobre o piso da sala. A revista combinou tanto ali jogada ao lado do jornal que ele esqueceu.

Mais de mês e sem coragem para tirar o pó.

Os locais andavam mais iluminados ou ela perdera o jeito? Fechei os olhos. Ponderou e demorou refletindo, sentindo um cheirinho de café no ar.

Querido, quer açúcar? Ele não prestara atenção e tirara a xícara no momento em que ela virou a colher.

Tanto açúcar esparramado pelo chão.


VII


Piscina.
Silêncio.
Eu bóio, tu bóias. Ele bóia... Gosto tanto de conjugar.
Se eu me encontrar perdida, haverá bússolas?
Na piscina, inerte.
Na piscina as pastilhas são como meus dentes separados, recobrindo os meus pelos e me mordendo sem graça.
Ela pensava coerente, preciso sair daqui.
Mas boiar assim ainda é tão bom.
Passarinho de água e ninguém no clube. Imagine se me dessem um tubarão?
Jogava ele na água e comia todo mundo.
Aplacava a raiva e fazia controle de natalidade. Tão preocupada com o social. Pobrezinha.
Vai chover.
Nuvem, nuvem, nuvens pretas. Deveria fazer canção de ninar para assustar indígenas.
Nuvem é chuva.
E se tiver relâmpago, será que saio da água?
Trovoada.
E ela boiava insatisfeita.

VIII


Brincar é aprender. Quando foi isso?
“Hipopótamos arbóreos esse pessoal do judiciário.”
Aquele envelope... Esse envelope:
Prezada senhora
Você será espoliada do seu nome
Sua casa será tenda
As panelas da cozinha ajudando no naufrágio.
Esqueça o que te fizeram porque mais uma vez ele ganhou.
Você perdeu querida.
Seria ele falando, a voz suave dedilhando o violão... Não. Enquanto picava salsa para rechear tomates.

Miolo de pão seco
10 tomates grandes
Salsa
Sal
E azeite para dar liga


Meu amor.
Você perdeu!
É tudo.


IX


A feira ficou maior, foi tudo o que eu pensei. Se eu souber escolher uma laranja ainda vai ser bom.
Ainda queria que não houvesse crianças na rua, mas não quero que ninguém me toque hoje.
Acordou do avesso “e tenho zelo por esses órgãos”. É tudo o que tem. O meu rim direito pode ser minha caderneta de poupança.
O esquerdo tem pedras. Nem serve.
Escuta: Já reparou naquelas pombas? Umas que atravessam sem pudor a avenida?
Você sentia nojo? Repulsa?
Uma amiga tinha vontade de morder.
Por que você faz tanta pergunta? Não consegue ficar quieta?
Pra quê?
Viu? Já tá perguntando.
Você também perguntou
O quê?
O “Viu?” e o “o quê?”...
O “viu” foi uma conjunção e o “o quê” inevitável
Acho que não era conjunção...
Você é cheia de achar coisa. Fica quieta e olha a lua.
Contemplação virou obrigação?
Nem me respondia mais.
Pesaram maçãs demais, mas fiquei sem graça de devolver.


X


Hoje ela não o encontrou na praça;
Eu parecia feliz? Não, não é?
Me perguntavam sobre o tal filme do Truffaut, me cutucavam perdida.
Querido era pra estar de braço dado com sua moça. Eu, menina.
Era pra ser nova. E eu pareceria grávida.
Hoje me esforçava pra dormir.
A cama comia?
Tudo anda se alimentando da minha alma ou fiquei pequena demais?
O colo dela.
Vazio. Ele garantiu. Mas faltaria em todos os outros encontros, a partir de quarta.
Por favor, emita um parecer... O filme era bom? A novelle vague impressionava cretinos.
Ríspida. Porque hoje ela odiava os seus franceses. 

 XI



Nossa, ela deu pra fumar. Parece uma chaminé. Nessa hora, amigo só critica, só espelha.
Há algo errado no andamento da música. Ando me sentindo desconfortável com alguns acordes, como se me dessem cólicas.


XII


Me dê a mão.
Você pode fazer o favor de me beijar?
Se ela se deitou com dez homens, agora é promíscua demais? Mas passou!
A frigideira dorme no fogão, a mochila cochila em paz. A Menina sonha.
Meu gato também sonhava. Talvez pássaros, talvez nós dois.
A canção se repete porque o mundo não é nada original. Todo dia passa pela mesma hora, num instante ou no outro.
O trabalho me cansa porque parece capuz. Parada a noite toda.
Parada por dentro, porque o resto anda.
Parada por dentro no metrô, no carro, dançando com mais este.
A mãe, o irmão, faziam questão de escolher os pares.
Este serve, este não. Num instante de lucidez eu ainda vou gritar: E a minha opinião não conta?
Comprar um megafone. Item nº. 1 da lista dela.
De resto, vendo tudo e compro só um sofá.


XIII

Noite tropical é para espanhóis que entendem Neruda, este era chileno.
O povo daqui quer é mais saber de forró.
Detestou tudo ao seu tempo. Por quê? Perdeu o paladar?
20º jantar e a pessoa é outra.
Será que alguém ia mergulhar num espelho? Lá eu sou canhota! Exclamaria furiosa uma freira.
A dignidade não faz parte da raça humana, senão não morreríamos subitamente.
Em qualquer lugar sem escolher platéia.
Aplausos para os profissionais do suicídio... Gente de classe.
E vestem a melhor roupa antes do show.
Querida, isso é besteira, você nem quer morrer...
Quer o quê? Chamar a atenção?
Se não fossem as luzinhas, a árvore de natal pulava no abismo?
Gosto tanto de ambientes Clean.  Vou por um “S” no final pra abrasileirar.


XIV


Ela devolvia mais um anel.
Você acha tão cruel ser tão bonita?



Olha o acarajé!
Todo mundo quer!
Todo mundo encontra!
Mas ela vai esfriar e ninguém mais vai provar.



Canetas sabem o caminho de casa.
No segundo dia fomos andar pela estrada. Ele tirou fotos dela. Disso eu ainda sinto os flashs.
Abre bem os braços, que nem Cristo! Que eu venho com os pregos e te grudo no instante. Tá lá ainda, fazendo graça, e já que o tempo passa...
Não é melhor assim?
Samba na caixinha de fósforo e aquele dia na baía.
Todo dia foi domingo de reveillon pra eu ver os fogos.
Me crucifiquei naquele banho de mar.


XV


De noite ficou difícil, porque se não trouxe alguém tem que ficar rolando como búzios.
Amanhã é guilhotina.


XVI


Um conselho sábio, porque sempre há almas boas por aí.
Porta-retratos. Os quadros subiam pelas paredes.
Resultados de reverberação.
Coração faz barulho. Mesmo que ninguém ouça, ela chorou de noite.
Escreverá poesias que expliquem tudo?
No fórum:
Assine aqui e acabou. Preferia que fosse pra ele casar de novo.
Meu nome nem era o mesmo dele.
Se vestiu de preto. Mas quando foi visitá-lo, trajou vermelho.
Detestava as tais viúvas nos funerais.
Cemitério é quase jardim, plantaram gente, vai nascer o que?
Voltaria correndo, escapando da chuva. Chovendo por dentro.
Logo depois perderia as chaves. Chaveiro 24hrs existe pra se poder entrar em casa.
Tão simbólico.
E ponto final.

A Carta II

Você me disse apenas que viria. Não sei nem porque, apenas não rasguei o envelope gordo.
Meu pai se deu ao trabalho de vir até aqui, me dirigir dois educados beijos de faces  e comentar que você quebrara o silêncio.
Nunca achei o termo justo... Esse, de quebrar o silêncio. Não, me parece que dizendo assim trata-se de um vaso ou de um brinquedo a pilha.
Silêncio é uma membrana elástica, rija, com uma fenda no meio. Um contraceptivo que impede que as suas palavras frutifiquem em mim.
Queria poder gritar na sua cara, limpando um pranto convulsivo com as costas das mãos sujas. “Por que você escreveu!!!?”, e antes da sua resposta, me atirar em seus braços, como uma Joana resgatada na última hora. Mas sabemos que isso não vai acontecer.
Essa cidade não possui todo o barulho necessário e o mar é todo em mim, parecendo um pátio infinito de granito escuro. As vezes chove como se fosse no meu fígado e aí eu fico cinza, pra combinar com todo o resto aqui. Deve ser por isso que me encantei tanto com o esmalte berrante, nas mãos de uma senhora, ontem. Você acredita que passei a estação na qual deveria descer? Eu simples,ente não conseguia olhar pra outra coisa, a não ser as mãos de garras feitas e nunca prontas. Talvez porque ela se parecesse tanto com a minha mãe.
É claro que minha mãe nunca gostou de você. E como ela gostaria da pessoa mais imperfeita pra mim?
Nada seria perfeito o suficiente, nem Litz, ele mesmo se apresentando pra ela, e minha mãe, naquela tentativa estranha de sorrir, e somente conseguindo repuxar os cantos da boca, o que sempre me deu medo porque parecia um anúncio de um acidente cardiovascular. Detestei sempre essa sigla, parece algo que veremos ou não se. A ver se...
 O hospital seria um martírio se eu esperasse rosas. E me sinto tão mais piedosa que o resto da humanidade ao segurar uma mão negra, sou quase uma madre Tereza nesses momentos, que espera que algo retire o que anima esses moribundos.  Depois volto pelos corredores, iluminada como num pagode, cheio de velas e a luz se apaga antes que eu pise na calçada.
No metrô já sou eu 100%, de novo.
Você me diz que eu nunca me lembro de nada e detesto imaginar você sem camisa, cultivando um ódio secreto por qualquer sinal de nudez que me fizesse lembrar.
Sabe do que eu não consigo me esquecer? Do seu pé fora da coberta, enquanto você dormia.
Eu nunca te disse, não é?
Mesmo quando eu levantava correndo, perdendo hora, o seu pé me segurava por alguns segundos,  abençoando esse hiato que ficava latejando o dia todo.
Pela brancura e a curva alta ou essa unhas bem cuidadas que não combinavam com nenhuma anti qualquer coisa sua. Eu queria você naquela imagem monocórdica da mão solta pra fora da cama e a cabeça de lado, como se me evitando até em sonho.  Eu precisava ter você completo e comecei  a te detestar pelo pé e acabei no pescoço. Até hoje.
A linha que descia da nuca e se juntava ao ombro era o limite do que me parecia certo. Eu pensava naqueles poemas rebuscados que falavam de coluna e alabastros, era só você inclinar a cabeça.
Seu pescoço me despertava perversões, me fazia desejar que você fosse bruto e egoísta e que meu único prazer fosse aquela pele, da junção do ombro com o pescoço. O cheiro diferente do resto todo.
Há alguém que dorme no quarto ao lado e tão sereno que já não posso mais olhar pra ele, com aquela forma polida que todo mundo aqui tem,  com  todas aquelas mesuras de “sim, querida”, “claro querida”. Queria que ele me facilitasse as coisas e fosse embora, sem eu pedir. “Sim querida”, ele poderia dizer.
Sim, eu fui embora e olhei tanto tempo aqueles seus olhos virando poças. Você chovendo...
Nossa, de novo a chuva, já sou quase uma nativa!
Sabe como foi pra eu ir embora, enquanto você pedia pra eu ficar, no que ficou fácil?
Eu pensei “esses olhos são meus, esse homem é meu e está chorando... Pronto, ganhei e posso ir embora”. Nada demais
Agora que você já sabe, eu vou dizer que não vou abrir a porta, que passo o dia no hospital, que C. é ciumento e anda armado, que você desiste e não viaja e você me conhece e sabe que é mentira.
Aguardo.