quarta-feira, 16 de março de 2011

Borboletas aquáticas


Se minha boca, se meus lábios fossem feitos de mel,
Engoliria o mundo.
Ele ficaria em mim como uma criança no ventre materno.
Ali, guardado
Em mim
Crescendo
em mim
Meus olhos seriam duas borboletas de areia
Meus cabelos, fios da aranha.
Eu, com o mundo dentro
O azul das águas
Em minhas veias
em meu coração vulcões explodindo
O mundo em mim
Seria um ser onírico
Um mito
Uma lenda
E seria conhecida como
A mulher com o mundo dentro

sexta-feira, 4 de março de 2011

Dante e Beatriz - Dominical

Pro Capa



Correu um pouco, desejando que não lhe perguntassem onde estivera. Não mentia pra mãe nunca.  Ainda não acabara a missa. Não deveriam ter dado por sua falta. Dissera que ficaria na praça. Mas então olhou a jaboticabeira e não resistiu. Quem ele seria? Ainda sentia um tremor gelado a vibrar em seus joelhos. E se descobrissem seu pequeno delito? Não seria a  primeira vez que pularia um muro e entraria sem avisar, mas o povo da roça estava acostumado, ali era diferente. Era a cidade e ela sabia disso. Chegou à frente da igreja, esbaforida e pode ver o pai encostado no carro, preparando um cigarro de palha. Adorava o cheiro. Não conseguia se decidir se corria até ele ou não. Para ele ela não dissimularia.  Tentou se recompor e caminhar lentamente. Não conseguiu, correu.
“Não corra...vai cair.” . Não vou, retrucou mentalmente.
“Tá toda vermelha, tava correndo por aí?”. O que responderia? Assim que abrisse a boca ele saberia toda a verdade. Sorriu então.
“Eu te levo pra casa, avise sua mãe, a menos que você faça questão de ficar ouvindo o padre.” Ela abriu um largo sorriso e o pai também. Não, ela não queria. Nas vezes que aceitava de bom grado ir á missa, ficava olhando pro teto abobadado esperando ver anjos sobrevoando sua cabeça ou ouvir um chamado divino. Se imaginava usando a coifa, deitada com os braços abertos, fitando a cruz.  Mas detestava esperar, detestava a missa de domingo de manhã, queria correr pelo quintal e nadar, ou só deitar e esperar as nuvens viararem gatos, alces, um dia viu um enorme coelho com cara de dragão. Voltou as costas ao pai e foi correndo para a igreja. Localizou a mãe ajoelhada. A comunhão era agradável, já fazia um ano que podia tomá-la, detestara cada minuto daquele catecismo. Chegou com jeitinho.
“Mãe, vou com o pai.” A mãe assentiu, os olhos fechados. A vozinha, magra e branca pareceu aflita. Gostava da companhia da neta, quase filha.
Saiu ruidosa da nave. Adorava atrapalhar os beatos, mesmo que não confessasse em voz alta.
O pai a esperava.



O carro se movia lentamente. Não tinham pressa.
“quer viajar comigo amanhã?”. Ela não respondeu de prontidão. Esperava a semana toda pelo dia que o pai a convidaria. Não havia um dia certo, ela olhou pela janela e pensou que passariam pelo relvado, era tão bonito, todo verde e os bichos. Sempre tinham muitos por onde andavam. E os dois iam cantando as modas de viola que ouviam juntos.
“Você canta tão afinadinha, filha...devia ser cantora quando ficar moça.”. Ela achava uma graça. Não seria cantora , seria arqueóloga ou jornalista, um pouco de cada.
“Pai?” Juntou coragem pra perguntar: “Quem mora na casa perto ali daquela esquina?”
Estranhou a pergunta
“Por quê?
 Ah, eu queria saber...
Quem sai aos seus não degenera, apura a raça...tá matutando o quê?
Nada pai, nada não, fiquei curiosa, vi um menino...
Namoradinho....
Não, não” . Ela precisava consertar aquilo.
Era mais novo, novinho...
Eu sou mais novo que sua mãe...
Ah, pai pára.
“Ah, pai pára.” Ele a remedou, sabia que ela ficava irada e deu risada ao vê-la emburrada olhando pela janela.
“Ah, não vou com tua cara saracura...vou com você inteira” E ela já não estava brava. A conversa ficou suspensa. Mas iria ou não com o pai andar pelas estradinhas, subir e descer os morros, ver os bichos que tanto chamavam a atenção? Amanhã...soava em sua mente. Mas nem sabia o nome dele! Nem sabia nada! Quem ele era, como chamava, quantos anos tinha...qual seria o signo dele? Os olhos eram azuis, ela gostava...queria, queria não, precisava falar com ele. Por que ele parecia estar ali no carro, sentado atrás dela? Por que ela sentia uma estranha falta, uma vontade de pedir pro pai voltar e ela chamá-lo até a porta. Mas chamá-lo como? Nem nome, nem nada.
Bufou e encostou a cabeça na janela entreaberta.
Amanhã. Ela não poderia faltar.
“Ah, pai, pode ser na semana que vem? Acho que vai ficar melhor, tenho umas coisas pra fazer?”. Não iria inventar história. Não ir com o pai já lhe doía muito. Mas já havia combinado algo antes. Não poderia faltar...

terça-feira, 1 de março de 2011

a metade

I


A necessidade de escrever é real e esparsa. Escrevamos todos nós. Eu; ele; ela. Foi um dia tão bonito que quase eu escolhi morrer e ouvia ao longe todo o arraial gritar “amém”.
Eu viraria as costas se fosse sério. Eu venderia livros se eu os tivesse. Hoje acabou.
Começaria o dia assim:
Bom dia,
E ele já não estava lá. Ela olhava com jeito estranho pela janela. Lembrava e não lembrava, lembrava e esquecia. Ele estivera ali de pé olhando pra ela?
Minutos atrás?
Não, fora no outro ano e ela perdeu o calendário. Se confundia aos poucos.
Ultimamente diziam que ela andava louca, que não sabia de nada.
Eram sérios? Ou ela imaginava tudo? Aquela voz, aqueles gritos.
A paisagem encarcerada na janela é a mesma.
Nem é, balbuciava trêmula, olhos ovalados, mãos esticadas querendo só tocar o reflexo. Foi o barulho do portão? Não seria.
Segura firme na prateleira!
Já desmaiaste alguma vez? Aquela vertigem, esse tremor.
E tudo negro


II


Lousa em branco.
Precisava trabalhar, mas não consentia que fosse feito qualquer rabisco naquele espaço.
Em tempos inconcebíveis os altares eram suportes dos sacrifícios.
Ela só sabia criar templos assim: do nada.
Mexe um dedo. Acredita que ele não obedece e deve haver um narrador em off. Todos quietos na aula, só a trilha sonora que corroia seco os nervos, cáustica.
Ainda não havia prudência para retomar.
Cada coisa caia pálida. Ele levara holofotes? Os óculos dela onde estavam?
Querida, estão aqui. A voz suave, um sotaque algum. Virou-se espantada para olhar.
Não. De novo as palavras saídas de um poço, as moedas flutuantes, erradas na física de não cair.
Cada vez que isso acontece, ela leva a mão à nuca. Essa dor. A pontada era no peito. Mas ela fingia porque aprendera a ser ator.
Não há conjugação possível para os fingimentos.
Uma vez pensei que só mulher fingia. Sofria de uma mística preconceituosa que brincava com reflexos. Cada qual com seu igual e sentia tanta falta de internet. Não exercia mais a esquizofrenia em paz. O negócio não funcionaria mais?
Hoje fechei dois vidros.
Pus os rótulos.
E não sabia o que escrever.


III


Desmentido o sentido do mês inteiro. Quem dera fosse dormência. Com licença pela segunda vez e não tão polida a moça do mercado pedia passagem. Mais cesta e só um pé de alface se achando Deus ali, parado.
Sozinho.
Se me voltam troco demais eu devolvo, mas sempre fico com dó. Desejando poder ficar com aquilo sem parecer tanto pecado.
Era mais um padre ou Calvino que ela engolira com um copo d’água, apenas um.
O pé de alface.

IV
Se alguém que vai some, quase como morte.
Visão oculta medos. Dá, garante e depois tira e agora até no outdoor.
Venha morar melhor, é o que todos dizem.
Posso te contar uma coisa? O cheiro. Esse teu cheiro. Esse sim no travesseiro me descia como esmola. Eu cega na porta da igreja.
Faixa enrolada no pé direito e caneca de ágata. Onde é que compra hoje em dia?
E você me deu o travesseiro. Se eu soubesse que você gostava de missa, tinha convidado pra capela. Mas era imaginária.
Cada badalada do sino pequenino sino de Belém era na cabeça dela. Acordara com dor de cabeça.


V


Ressentiu o ar da madrugada.
Será que passa? Já respondeu, mas tudo tão alheio que nem ouviu.
Passa não.
Colchão, estrelas e teu lugar a mais na mesa.
Cada adeus deveria vir com corrimão, pra gente se apoiar ao invés de cair, ou bater a cabeça na queda e esquecer tudo. Até já viu que fechar os olhos não adianta. A dor vinha no escuro.
Ainda enxergava melhor que eu.
Adianta balbuciar sem sentido e lembrar um sonho de sorte?
Bá,bá,bá,bá.
Espantada pára e se convence de que se babou inteira.
A velhinha que morava no fundo da casa onde nasci ia achar graça, o marido ia achar feio.
No quintal, parada sozinha.
A cabeça teimou em escolher: Qual dos dois?


VI


O invisível tem cor, dizia o livrinho na prateleira.

Todas elas foram projetadas para ganhar. Que maravilha ver aquela madeira laqueada!

O gesto da mão pega o livro. A cabeça pega lembrança. Um filho.

E teria a cara do pai.

Pensou um pouco.

Hoje bucólica eu conto as horas, olho os pulsos magoados entrecortados e invento poesias no ticket do estacionamento. Hoje é nunca mais. Sempre alguém me diz isso, que sou indecisa e que minha boca é carnuda.

O lábio de cima ou o inferior? Fiquei pensando sobre o piso da sala. A revista combinou tanto ali jogada ao lado do jornal que ele esqueceu.

Mais de mês e sem coragem para tirar o pó.

Os locais andavam mais iluminados ou ela perdera o jeito? Fechei os olhos. Ponderou e demorou refletindo, sentindo um cheirinho de café no ar.

Querido, quer açúcar? Ele não prestara atenção e tirara a xícara no momento em que ela virou a colher.

Tanto açúcar esparramado pelo chão.


VII


Piscina.
Silêncio.
Eu bóio, tu bóias. Ele bóia... Gosto tanto de conjugar.
Se eu me encontrar perdida, haverá bússolas?
Na piscina, inerte.
Na piscina as pastilhas são como meus dentes separados, recobrindo os meus pelos e me mordendo sem graça.
Ela pensava coerente, preciso sair daqui.
Mas boiar assim ainda é tão bom.
Passarinho de água e ninguém no clube. Imagine se me dessem um tubarão?
Jogava ele na água e comia todo mundo.
Aplacava a raiva e fazia controle de natalidade. Tão preocupada com o social. Pobrezinha.
Vai chover.
Nuvem, nuvem, nuvens pretas. Deveria fazer canção de ninar para assustar indígenas.
Nuvem é chuva.
E se tiver relâmpago, será que saio da água?
Trovoada.
E ela boiava insatisfeita.

VIII


Brincar é aprender. Quando foi isso?
“Hipopótamos arbóreos esse pessoal do judiciário.”
Aquele envelope... Esse envelope:
Prezada senhora
Você será espoliada do seu nome
Sua casa será tenda
As panelas da cozinha ajudando no naufrágio.
Esqueça o que te fizeram porque mais uma vez ele ganhou.
Você perdeu querida.
Seria ele falando, a voz suave dedilhando o violão... Não. Enquanto picava salsa para rechear tomates.

Miolo de pão seco
10 tomates grandes
Salsa
Sal
E azeite para dar liga


Meu amor.
Você perdeu!
É tudo.


IX


A feira ficou maior, foi tudo o que eu pensei. Se eu souber escolher uma laranja ainda vai ser bom.
Ainda queria que não houvesse crianças na rua, mas não quero que ninguém me toque hoje.
Acordou do avesso “e tenho zelo por esses órgãos”. É tudo o que tem. O meu rim direito pode ser minha caderneta de poupança.
O esquerdo tem pedras. Nem serve.
Escuta: Já reparou naquelas pombas? Umas que atravessam sem pudor a avenida?
Você sentia nojo? Repulsa?
Uma amiga tinha vontade de morder.
Por que você faz tanta pergunta? Não consegue ficar quieta?
Pra quê?
Viu? Já tá perguntando.
Você também perguntou
O quê?
O “Viu?” e o “o quê?”...
O “viu” foi uma conjunção e o “o quê” inevitável
Acho que não era conjunção...
Você é cheia de achar coisa. Fica quieta e olha a lua.
Contemplação virou obrigação?
Nem me respondia mais.
Pesaram maçãs demais, mas fiquei sem graça de devolver.


X


Hoje ela não o encontrou na praça;
Eu parecia feliz? Não, não é?
Me perguntavam sobre o tal filme do Truffaut, me cutucavam perdida.
Querido era pra estar de braço dado com sua moça. Eu, menina.
Era pra ser nova. E eu pareceria grávida.
Hoje me esforçava pra dormir.
A cama comia?
Tudo anda se alimentando da minha alma ou fiquei pequena demais?
O colo dela.
Vazio. Ele garantiu. Mas faltaria em todos os outros encontros, a partir de quarta.
Por favor, emita um parecer... O filme era bom? A novelle vague impressionava cretinos.
Ríspida. Porque hoje ela odiava os seus franceses. 

 XI



Nossa, ela deu pra fumar. Parece uma chaminé. Nessa hora, amigo só critica, só espelha.
Há algo errado no andamento da música. Ando me sentindo desconfortável com alguns acordes, como se me dessem cólicas.


XII


Me dê a mão.
Você pode fazer o favor de me beijar?
Se ela se deitou com dez homens, agora é promíscua demais? Mas passou!
A frigideira dorme no fogão, a mochila cochila em paz. A Menina sonha.
Meu gato também sonhava. Talvez pássaros, talvez nós dois.
A canção se repete porque o mundo não é nada original. Todo dia passa pela mesma hora, num instante ou no outro.
O trabalho me cansa porque parece capuz. Parada a noite toda.
Parada por dentro, porque o resto anda.
Parada por dentro no metrô, no carro, dançando com mais este.
A mãe, o irmão, faziam questão de escolher os pares.
Este serve, este não. Num instante de lucidez eu ainda vou gritar: E a minha opinião não conta?
Comprar um megafone. Item nº. 1 da lista dela.
De resto, vendo tudo e compro só um sofá.


XIII

Noite tropical é para espanhóis que entendem Neruda, este era chileno.
O povo daqui quer é mais saber de forró.
Detestou tudo ao seu tempo. Por quê? Perdeu o paladar?
20º jantar e a pessoa é outra.
Será que alguém ia mergulhar num espelho? Lá eu sou canhota! Exclamaria furiosa uma freira.
A dignidade não faz parte da raça humana, senão não morreríamos subitamente.
Em qualquer lugar sem escolher platéia.
Aplausos para os profissionais do suicídio... Gente de classe.
E vestem a melhor roupa antes do show.
Querida, isso é besteira, você nem quer morrer...
Quer o quê? Chamar a atenção?
Se não fossem as luzinhas, a árvore de natal pulava no abismo?
Gosto tanto de ambientes Clean.  Vou por um “S” no final pra abrasileirar.


XIV


Ela devolvia mais um anel.
Você acha tão cruel ser tão bonita?



Olha o acarajé!
Todo mundo quer!
Todo mundo encontra!
Mas ela vai esfriar e ninguém mais vai provar.



Canetas sabem o caminho de casa.
No segundo dia fomos andar pela estrada. Ele tirou fotos dela. Disso eu ainda sinto os flashs.
Abre bem os braços, que nem Cristo! Que eu venho com os pregos e te grudo no instante. Tá lá ainda, fazendo graça, e já que o tempo passa...
Não é melhor assim?
Samba na caixinha de fósforo e aquele dia na baía.
Todo dia foi domingo de reveillon pra eu ver os fogos.
Me crucifiquei naquele banho de mar.


XV


De noite ficou difícil, porque se não trouxe alguém tem que ficar rolando como búzios.
Amanhã é guilhotina.


XVI


Um conselho sábio, porque sempre há almas boas por aí.
Porta-retratos. Os quadros subiam pelas paredes.
Resultados de reverberação.
Coração faz barulho. Mesmo que ninguém ouça, ela chorou de noite.
Escreverá poesias que expliquem tudo?
No fórum:
Assine aqui e acabou. Preferia que fosse pra ele casar de novo.
Meu nome nem era o mesmo dele.
Se vestiu de preto. Mas quando foi visitá-lo, trajou vermelho.
Detestava as tais viúvas nos funerais.
Cemitério é quase jardim, plantaram gente, vai nascer o que?
Voltaria correndo, escapando da chuva. Chovendo por dentro.
Logo depois perderia as chaves. Chaveiro 24hrs existe pra se poder entrar em casa.
Tão simbólico.
E ponto final.

A Carta II

Você me disse apenas que viria. Não sei nem porque, apenas não rasguei o envelope gordo.
Meu pai se deu ao trabalho de vir até aqui, me dirigir dois educados beijos de faces  e comentar que você quebrara o silêncio.
Nunca achei o termo justo... Esse, de quebrar o silêncio. Não, me parece que dizendo assim trata-se de um vaso ou de um brinquedo a pilha.
Silêncio é uma membrana elástica, rija, com uma fenda no meio. Um contraceptivo que impede que as suas palavras frutifiquem em mim.
Queria poder gritar na sua cara, limpando um pranto convulsivo com as costas das mãos sujas. “Por que você escreveu!!!?”, e antes da sua resposta, me atirar em seus braços, como uma Joana resgatada na última hora. Mas sabemos que isso não vai acontecer.
Essa cidade não possui todo o barulho necessário e o mar é todo em mim, parecendo um pátio infinito de granito escuro. As vezes chove como se fosse no meu fígado e aí eu fico cinza, pra combinar com todo o resto aqui. Deve ser por isso que me encantei tanto com o esmalte berrante, nas mãos de uma senhora, ontem. Você acredita que passei a estação na qual deveria descer? Eu simples,ente não conseguia olhar pra outra coisa, a não ser as mãos de garras feitas e nunca prontas. Talvez porque ela se parecesse tanto com a minha mãe.
É claro que minha mãe nunca gostou de você. E como ela gostaria da pessoa mais imperfeita pra mim?
Nada seria perfeito o suficiente, nem Litz, ele mesmo se apresentando pra ela, e minha mãe, naquela tentativa estranha de sorrir, e somente conseguindo repuxar os cantos da boca, o que sempre me deu medo porque parecia um anúncio de um acidente cardiovascular. Detestei sempre essa sigla, parece algo que veremos ou não se. A ver se...
 O hospital seria um martírio se eu esperasse rosas. E me sinto tão mais piedosa que o resto da humanidade ao segurar uma mão negra, sou quase uma madre Tereza nesses momentos, que espera que algo retire o que anima esses moribundos.  Depois volto pelos corredores, iluminada como num pagode, cheio de velas e a luz se apaga antes que eu pise na calçada.
No metrô já sou eu 100%, de novo.
Você me diz que eu nunca me lembro de nada e detesto imaginar você sem camisa, cultivando um ódio secreto por qualquer sinal de nudez que me fizesse lembrar.
Sabe do que eu não consigo me esquecer? Do seu pé fora da coberta, enquanto você dormia.
Eu nunca te disse, não é?
Mesmo quando eu levantava correndo, perdendo hora, o seu pé me segurava por alguns segundos,  abençoando esse hiato que ficava latejando o dia todo.
Pela brancura e a curva alta ou essa unhas bem cuidadas que não combinavam com nenhuma anti qualquer coisa sua. Eu queria você naquela imagem monocórdica da mão solta pra fora da cama e a cabeça de lado, como se me evitando até em sonho.  Eu precisava ter você completo e comecei  a te detestar pelo pé e acabei no pescoço. Até hoje.
A linha que descia da nuca e se juntava ao ombro era o limite do que me parecia certo. Eu pensava naqueles poemas rebuscados que falavam de coluna e alabastros, era só você inclinar a cabeça.
Seu pescoço me despertava perversões, me fazia desejar que você fosse bruto e egoísta e que meu único prazer fosse aquela pele, da junção do ombro com o pescoço. O cheiro diferente do resto todo.
Há alguém que dorme no quarto ao lado e tão sereno que já não posso mais olhar pra ele, com aquela forma polida que todo mundo aqui tem,  com  todas aquelas mesuras de “sim, querida”, “claro querida”. Queria que ele me facilitasse as coisas e fosse embora, sem eu pedir. “Sim querida”, ele poderia dizer.
Sim, eu fui embora e olhei tanto tempo aqueles seus olhos virando poças. Você chovendo...
Nossa, de novo a chuva, já sou quase uma nativa!
Sabe como foi pra eu ir embora, enquanto você pedia pra eu ficar, no que ficou fácil?
Eu pensei “esses olhos são meus, esse homem é meu e está chorando... Pronto, ganhei e posso ir embora”. Nada demais
Agora que você já sabe, eu vou dizer que não vou abrir a porta, que passo o dia no hospital, que C. é ciumento e anda armado, que você desiste e não viaja e você me conhece e sabe que é mentira.
Aguardo.