quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Jardineiro Infiel


Ela não sabia como dizer.
Não era como pedir demissão, era como voltar atrás de promessas que eram vasos de barro, mas continham flores. A semente ele jogara, ela cuidara mudando o vaso de lugar, procurando luz, ele podava as folhas e cuidava das pragas. Mas ela não queria mais jardim, não queria praia, não queria vento algum. Estava maquinando uma forma de se trancar numa salinha de concreto armado, munida de termais, de café, de rascunhos. Precisava planejar.

E não conseguia fazer isso em voz alta. Aquela vida toda era pra ela um grito na janela, morar numa casinha transparente com todo mundo vendo... Agora, essa menina ansiava por segredos, por livros secretos e pelo murmurar sob lençóis “quieto, tem alguém vindo aí”.
Não sabia como dizer. Tentou não olhar nos olhos, mandar um cartão, mas se sentiu covarde. Retirar os tijolos daquela construção seria dolorido, pra ela, pra ele, pra todo o telhado quase pronto. Ele, o telhado, viria ao chão.